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“Just Tattoo of Us” não é uma tourada, mas é estúpido

O humorista e cronista da NiT Miguel Lambertini analisa o programa que é transmitido na MTV.
Eles são os apresentadores do programa.

“O programa que se segue contém palavrões, temas adultos, violência moderada, dor, stress e tatuagens ousadas”. Com um aviso destes fiquei na dúvida se ia assistir a um programa de televisão ou à XVI Corrida de Touros do “Correio da Manhã”. Só a referência às tattoos é que me deixou um bocado na dúvida. Por outro lado, acaba por ser uma dúvida legítima, porque há quem ache que espetar um arpão de ferro pelo lombo de um animal adentro é semelhante a fazer uma tatuagem. “É arte”, dizem. Na minha opinião — e suspeito que na dos touros também, caso pudessem expressá-la, se não estivessem a espumar pela boca — aquilo não é bem arte. Arte é a pintura “Coelha Grávida a Dizer aos Pais”, de Paula Rego, todos os filmes de Stanley Kubrick ou o golo de pontapé de bicicleta do Ronaldo, nos quartos de final da Champions. Tourada é, infelizmente, um espetáculo, que até pode ser uma tradição, mas não deixa de ser uma crueldade desfasada. 

Bom, mas de volta ao disclaimer que antecede não uma corrida de touros mas o programa “Just Tattoo of Us”, transmitido na MTV. Como o nome indica, é um programa onde se fazem tatuagens. Pessoalmente admiro pessoas que fazem uma ou várias tattoo, é um nível de compromisso que eu não conseguiria. Uma inscrição na pele que dura para sempre faz-me um bocado de impressão (passo a redundância).

Desculpem-me se pareço antiquado, mas imagino daqui a uns anos avózinhas queridas de cabelo branco aos caracóis que, quando se baixam para apanhar o peluche do neto, têm uma tramp stamp tatuada no final das costas, a dizer “forever 18”. Vai ser estranho. Dito isto, se fizesse uma tattoo faria precisamente a pensar nessa fase da minha vida, em que dá jeito ter alguns lembretes à mão, porque a memória já não é o que era. Algo que tivesse um lado estético mas essencialmente funcional. Coisas como o número de telemóvel dos meus filhos, o meu NIF ou uma piada para contar sempre que uma enfermeira me fosse mudar a algália. Neste contexto ainda sou menino para vir a fazer uma tatuagem.

Agora outro nível muito mais intenso é dar carta branca para alguém fazer a tatuagem que quiser no nosso corpo. Isso é só estúpido. Mas é exatamente o que acontece em “Just Tattoo of Us”. O trocadilho no nome revela a dinâmica do programa: duplas que podem ser amigos, familiares ou parceiros dão literalmente o corpo ao manifesto e deixam à decisão do outro qual o desenho a aplicar na sua pele. 

O formato é conduzido por Charlotte Crosby, uma versão britânica da Fanny, que ficou famosa por ser uma das concorrentes do reality show “Geordie Shore”. Se nunca viu nenhum episódio de “Geordie Shore”, imagine que enfiavam numa casa uma matilha de labradores cachorros e seis porcas com cio e que todas as noites estes acabavam em pré-coma depois de uma noite de farra em Cancun.

A única diferença é que, ao contrário dos animais, estes conseguem articular um dialeto que faz lembrar um açoriano a falar inglês depois de ter tirado os dentes do siso. Em cada episódio, Charlotte, juntamente com Scotty T (outro participante de “Geordie Shore”) recebem duplas que decidiram aceitar o desafio para melhorar (ou não) a sua relação.

Num cenário que está montado ao estilo de um estúdio de tattoos, os participantes explicam qual é a sua relação e o motivo por que quiseram participar no programa. Depois, individualmente, cada um conversa com um tatuador que irá criar um desenho para a outra pessoa com base numa sugestão anteriormente enviada. A piada disto é que cada um só descobre o que foi desenhado na sua pele quando a tatuagem já estiver terminada. Ou seja, a partir do momento em que aceitam já não há nada a fazer, é esperar e rezar para não ficar com uma piroca tatuada nas costas o que, diga-se, já aconteceu várias vezes. Feitas as tatuagens, todos se reúnem num momento final em que são reveladas, tanto aos espectadores como aos participantes, cada uma das tattoos.

Este é um momento de enorme tensão e depois de conhecer o resultado, a maior parte das vezes o tatuado não gosta da tatuagem. Aliás, muitas vezes odeia-a, e há até quem tenha terminado relacionamentos depois da participação em “Just Tattoo of Us”. O mais interessante é que há sempre uma história por trás de cada tatuagem, e habitualmente não são propriamente o tipo de histórias que se contam à mesa num jantar de família. No último episódio que vi, uma das participantes tatuou na sua amiga uma caixinha de surpresas da qual saía um cagalhoto. A explicação envolve sexo anal e uma surpresa que, digamos, não era suposto aparecer… mas vou poupar-me a mais detalhes gráficos, que isto já está a ficar demasiado sórdido, e não me apetece voltar ao tema das touradas.