NiTfm live

opiniao

Hélia Correia fez da crise migratória um poema épico

A escritora e cronista da NiT Filipa Martins lê o seu excerto favorito de "Um Bailarino na Batalha".

No início, já estamos em movimento.  ‘Não se olha para trás, dizem os velhos. Não se olha nunca, nunca, para trás. É isso que distingue a guerra de outras maneiras de morrer’. O aviso surge nas primeiras páginas de ‘Um Bailarino na Batalha’ (Relógio D’Água, 2018), Grande Prémio de Romance e Novela 2019 da Associação Portuguesa de Escritores.  O novo romance de Hélia Correia é editado nove anos após ‘Adoecer’ (Relógio D’Água, 2010) e narra, em prosa poética, a travessia do deserto na direção do mar de um grupo de caminhantes que quer fugir da tragédia da guerra rumo à Europa. A atualidade do tema é evidente.

Oficialmente, a crise migratória europeia já terá terminado, assim dizem os números. O pico foi atingido em 2015, o ano com maior fluxo de refugiados desde a II Guerra Mundial. Em 2015, a Europa acolheu mais de um milhão de pessoas em fuga. Nesse mesmo ano, era atribuído a Hélia Correia o Prémio Camões, que a autora dedicou com desalento e raiva contida à Grécia. País, onde, segundo a autora, teve origem a poesia, e que acolhia, entre o receio e a solidariedade, grande parte dos refugiados, vivendo à época a opressão das finanças e do défice.  

Chegados a 2018, o número de migrantes que entraram na Europa desceu para os 150 mil. Mas o valor está longe de representar um decréscimo de deslocados nos países de origem. Apenas ocorre, tal como no epílogo que Hélia Correia nos propõe, a impossibilidade de penetrar nesta Europa feita fortaleza, em que se cerraram fronteiras e fileiras contra a imigração. Curiosamente, é quando o número de acolhimentos atingiu o mais baixo dos últimos anos que os discursos nacionalistas ganham maior relevância e expressão eleitoral. Prova-se o poder da propaganda no fortalecimento do medo.

Estes são os factos, mas Hélia Correia em ‘Um Bailarino na Batalha’ vai para lá dos factos. O que nos serve é uma atualidade mitificada num corpo coletivo que avança, ora desgarrado ora compacto, sem referências temporais ou espaciais que imortalizam a obra. A crítica chamou-lhe poema épico, bíblico e homérico e, à nossa frente, são desvelados solos de personagens (com primazia para as femininas) que ganham forma na fronteira do grupo para – na página seguinte – ser a personagem coletiva que avança. O livro é uma coreografia complexa de movimentos perpétuos à medida que a esperança na chegada à terra prometida esmorece e os contornos do local de origem se apagam.   

Na leitura, encontramos respostas para as mais complexas perguntas. Como motivar alguém que está condenado a fazer do caminho um lugar? Como o levar a continuar? Convencê-lo de que há um destino, tornando as origens um quadro abstrato de desenraizamento? Ou talvez amalgamando-o numa massa de Êxodo, extraindo-lhe a individualidade na cadência dos passos e dando-lhe a noção de pertença a um corpo de centopeia que avança disforme e uno. Por último, poderemos questionar o que se perde de humano na fuga e em que momento a esperança ganha contornos de aberração ou de milagre, como um rio a jorrar no deserto sem nascente precisa. Afinal, na Europa de hoje, ainda vemos a queda do Muro de Berlim como sinónimo de liberdade, mas outros muros foram erguidos. São os novos muros europeus. Em vez de tijolo, são construídos com arame farpado, prolongam-se ao longo de mais mil quilómetros e juntos contabilizam o equivalente a seis muros de Berlim. Chegar parece não ser uma opção.