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“A Tribo” é um murro no estômago que deixa marca

Estreia finalmente esta semana um dos filmes mais curiosos dos últimos anos e que corre os festivais de cinema desde 2015.

Os atores Hryhoriy Fesenko e Yana Novikova numa cena do filme

Este é um daqueles filmes que pela sua mera existência já se torna motivo de conversa. Porque neste filme todos os atores são surdos-mudos, todos os diálogos são feitos na língua gestual ucraniana… e não há legendas para nos agarrarmos. Felizmente, “A Tribo” sobrevive ao seu próprio gimmick (uma ideia diferente para suscitar interesse)  de maneira admirável. Debaixo do conceito provocador, esconde-se um filme brutal e violento, um dos melhores a estrear nas salas portuguesas este ano, até agora. 

Sergey (Hryhori Fesenko) é um novo aluno numa escola ucraniana para surdos-mudos. Assim que percebe a dinâmica social daquele mundo, ele faz por entrar no gangue que domina a escola e que dá nome ao filme. Depois de ser iniciado com uma série de assaltos, Sergey assume a posição de chulo de duas raparigas, também estudantes na mesma escola. Os problemas começam quando ele se apaixona perdidamente por uma delas, Anya (Yana Novikova). 

“A Tribo” é daqueles raros filmes que se coloca a si próprio à parte, por existir num universo insular ao resto da sociedade. A nós, turistas naquele ambiente, compete-nos montar a história com as peças que temos ao dispor. Que podem não ser as suficientes. Há intenção nessa abordagem, para além do óbvio distanciamento provocado pelo diálogo incompreensível. A câmara segue os atores com um interesse clínico, quase sempre em plano aberto nos seus planos sequência, nunca procurando as suas expressões faciais. Como se todos os elementos nos mantivessem a uma certa distância dos sujeitos, quase impossibilitando uma empatia para com as personagens. Que também não precisam dela para nada, verdade seja dita, porque todos eles vivem num mundo feroz, onde não se levantam questões de moralidade.

A única motivação aparente nestas personagens, que rege a acção visível (e não há outra!), consiste no cumprimento das regras inerentes à própria tribo. Com exceção, claro, do próprio Sergey, que se vê dominado por uma paixão quase primária por Anya. É uma das poucas emoções que nos é mostrada em todo o filme, mas que também se enquadra na amoralidade de todo o cenário. Porque a paixão de Sergey é egoísta e violenta, tal como os personagens de “A Tribo”.

O realizador e argumentista Myroslav Slaboshpytskyi, que tem em “A Tribo” a sua primeira longa-metragem, aproxima-se da crueza de Larry Clark (“Kids”, “Ken Park”) ou de Lars Von Trier (“Melancolia”, “Dogville”) na narrativa que escolhe e na forma de explorar os seus atores. No entanto, e é uma das coisas que eleva o filme, tem mais de Paul Thomas Anderson (“Haverá Sangue”, “Boogie Nights — Jogos de Prazer”) nos movimentos da câmara, no cuidado que tem nos cenários, na fotografia, em todas as cores que escolhe colocar no ecrã.

O design de som é também, ironicamente, uma das maiores forças no filme. Na ausência de música e diálogos verbais, todos os pequenos sons ganham importância. E são usados com eficácia brutal, em particular naquela que será porventura a cena mais desconfortável de 2017 e que chegou a provocar desmaios em algumas exibições do filme. Não quero estragar nada; se o virem vão perceber. 

“A Tribo” não é um filme para toda a gente. Os pequenos enigmas que compõem a história e o ritmo lento de algumas sequências podem afastar o espectador comum. Mas, por outro lado, acredito que se faça daqui um filme de culto, a lembrar alguns filmes do Michael Haneke (“Amour”, “O Laço Branco”). Slaboshpytskyi, à semelhança de Haneke, faz cinema de murros no estômago, dos que deixam marca e não se esquecem. 

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