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Filipa Martins: “Por Saramago”, de Anabela Mota Ribeiro, é um mosaico íntimo

A cronista da NiT escreve sobre um novo olhar em torno de José Saramago.
O livro de Anabela Mota Ribeiro está em destaque na crónica.

A longevidade das oliveiras é grande, há relatos de algumas que ultrapassam os dois mil anos. Estas árvores são também conhecidas pela sua errância e capacidade de adaptação, abraçando novas moradas, de raízes soltas capazes de se prenderem a novos solos. A simbologia da oliveira casa na perfeição com a imagem do escritor e Prémio Nobel José Saramago. Seja junto à oliveira centenária vinda da Azinhaga, hoje enraizada em frente à Fundação José Saramago, ou à sombra de outra, à entrada da biblioteca da casa de Lanzarote onde o Nobel viveu, a presença do escritor é quase física.

José Saramago, numa entrevista à jornalista Anabela Mota Ribeiro, garantia que todos os escritores escrevem para o presente, talvez seja também uma forma de pedir amor, estando mais ou menos conformado com a ideia remota de ser esquecido. “Por Saramago” (Temas e Debates/Círculo de Leitores, 184 págs., €19,90), de Anabela Mota Ribeiro, é também uma prova de que há ecos do escritor e da sua obra que podem tocar com os dedos a eternidade.   

O livro constitui uma homenagem por altura do vigésimo aniversário da atribuição do Nobel da Literatura, reunindo fotografias, reportagens e entrevistas a José Saramago e a Pilar del Río. As conversas, todas levadas a cabo pela jornalista, coincidem com os três últimos livros do escritor português: “As Pequenas Memórias”, “A Viagem do Elefante” e “Caim”.

O discurso na primeira pessoa de Saramago é completado como textos de caráter jornalístico e ensaístico sobre a casa de Lanzarote e uma viagem ao México com Saramago, durante a qual Anabela Mota Ribeiro garante ter privado com ‘José’ – o homem – e não o conceituado escritor. A obra, que compõe um mosaico íntimo, é ainda ilustrada com cerca de 65 fotografias de Estelle Valente, que trilham os caminhos do escritor, de Lanzarote a Lisboa. “Por Saramago” fecha com um posfácio de Fernando Gómez Aguilera, diretor da Fundação César Manrique e curador da Fundação José Saramago.