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Filipa Martins lê Carmen Maria Machado: o corpo da mulher tem arestas cortantes

A cronista da NiT escreve sobre o livro de contos “O Corpo Dela e Outras Partes”.
“O Corpo Dela e Outras Partes” foi a obra escolhida.

“Deus deveria ter feito as raparigas letais quando fez os homens monstros”. A frase de Elisabeth Hewer está na antecâmara do livro de contos “O Corpo Dela e Outras Partes” (Alfaguara, 2018), de Carmen Maria Machado, e funciona como um aviso: as páginas que se seguem são militantes e exacerbam o corpo da mulher, vestindo-lhe a pele e sentindo-lhe as vísceras.

O que a escritora americana alcança com este livro, traduzido recentemente para português, é raro, muito raro. Com uma linguagem literária cuidada e rápida, explora sem receios o mapa do corpo feminino, sujeitando-o ao prazer e à dor, transfigurando-o na violação, no orgasmo, na gravidez e no parto.  

O resultado são oito contos marcadamente eróticos, que misturam horror, ficção científica, conto de fadas e tragédia quotidiana. Dor, sexo e morte são os temas dominante.