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Filipa Martins conversa com João Pinto Coelho: “É um livro sobre a universalidade do mal”

O autor de "Os Loucos da Rua Mazur" fala sobre a universalidade do mal e lê um excerto do romance vencedor do Prémio Leya 2017.

A conversa foi no café Menina e Moça, em Lisboa.

“Este livro, mais do que sobre a banalidade do mal, fala-nos sobre a universalidade do mal”, diz-me o escritor João Pinto Coelho, autor de “Os Loucos da Rua Mazur”, galardoado com o Prémio Leya 2017. Estamos sentados nos sofás da bonita Menina e Moça, Livraria-Bar da rua cor-de-rosa no Cais do Sodré, em Lisboa, que deve o nome a Bernardim Ribeiro (ou será a Carlos do Carmo?). Pela manhã, ouvimos o secretário de Estado da Defesa norte-americano a defender que o uso ativo de forças militares na fronteira dos EUA com o México, evitando assim a entrada de emigrantes entre os quais famílias e crianças, será um bom treino para enfrentar situações de guerra.

Qual é a ligação entre estas declarações políticas de 2018 e os acontecimentos narrados no livro de João Pinto Coelho, que remontam a 10 de Julho de 1941? A resposta está dada pelo escritor: a universalidade do mal.

Escreve o autor na contracapa do livro: “No dia 10 de Julho de 1941, em Jedwabne, pequena cidade do nordeste da Polónia, um grupo de cidadãos, na sua maioria cristãos, reuniram à força os seus vizinhos judeus na praça principal e, num festim de violência, conduziram-nos até um celeiro próximo que incendiaram, queimando vivas centenas de pessoas, incluindo muitas crianças. Nos dias que se seguiram, sucederam-se as pilhagens e apagaram-se para sempre os traços seculares da presença judaica na cidade”. Este episódio da história universal, ficcionado na obra, é o rastilho para um reencontro entre dois velhos polacos e para uma recalcada troca de acusações entre eles, mas é sobretudo um convite ao leitor para olhar com o filtro da denúncia o mundo atual.

Com a crise dos refugiados na Europa, a eleição de candidatos que popularizam o discurso do ódio, a tensão nas fronteiras dos EUA com o México como pano de fundo, fará sentido perguntar se os loucos somos nós quando elegemos o outro como inimigo? A pergunta, se feita com genuína vontade de obter uma resposta lúcida, poderá levar à dura noção de que ninguém sai incólume ao ser dominado pelo medo do outro. O medo do outro como destino é já a morte.