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“Filho da Mãe”: regressar ao passado para conseguir lidar com o futuro

A cronista da NiT Filipa Martins faz uma análise sobre o mais recente trabalho de Hugo Gonçalves.
Filipa Martins fala sobre "Filho da Mãe".

Um filho sem mãe será sempre um emigrante em busca das suas origens, numa perpétua incapacidade de erguer à sua volta paredes e telhado? Foi com esta pergunta na cabeça que terminei as últimas páginas de “Filho da Mãe” (Companhia das Letras, 2019), do escritor Hugo Gonçalves. O autor oferece-nos um retábulo comovente e despretensioso da sua autobiografia: ele é o narrador-protagonista sem abrigo que perde a mãe na infância e, chegado à viragem dos quarenta, olha o retrovisor para poder continuar a avançar.    

Hugo Gonçalves adota, desta forma, uma estratégia rememorativa, vetorizada em termos familiares e vivenciados. Poderei afirmar que a memória na vertente mais íntima será o barro da obra que leva a cabo. Nesta senda, não nos propõe uma auto-representação identitária estável, oferece-nos um processo.  O eu-narrador-protagonista (aqui não há fronteiras definidas) funciona como arquétipo identificador de um corpo coletivo, apesar de o nome da obra nos remeter para um eu-singular.

Num estilo narrativo misto — literário, poético, ensaístico, memorativo —, o autor alicerça a obra no esforço de juntar pedaços do passado, numa luta contra o esquecimento. Explorando temas como a perda, o desenraizamento e a evasão mental, a prosa de Gonçalves desafia os limites da ficção, num périplo em que o corpo se move no espaço e no tempo e o leitor avança na debacle interior do protagonista, respirando quando ele respira.  O texto progride costurado por uma série de pistas ora enigmáticas ora nítidas: objetos, situações, uma cicatriz, lugares, encontros. Esta obra mostra de forma singular como a descrição é integrada no texto no sentido tanto de refletir o trabalho de rememoração (com suas lacunas e perplexidades) como o de contagiar a prosa com símbolos fantasmáticos, que chegam até nós por vezes espetrais e por vezes feitos de carne e dor.