NiTfm live

opiniao

#euqueroarrumar: há muitas coisas fora do sítio no novo programa da SIC Mulher

O humorista e cronista Miguel Lambertini analisa o reality show apresentado por Maria Botelho Moniz.
Maria Botelho Moniz é a apresentadora do programa.

O novo programa da SIC Mulher que estreou a 4 de maio com apresentação de Maria Botelho Moniz chama-se “#euqueroarrumar”. Não a conheço pessoalmente mas gosto muito da Maria e acho que este conceito lhe assenta como uma luva (de limpeza), mas vamos ter de começar pelo mais óbvio: porquê um programa cujo título é uma hashtag? Não… parem com isso, títulos com hashtags já não se pode usar. Porque fica sempre a parecer uma tentativa de ser cool e moderno, como há uns anos quando se lembraram de escrever tudo o que era nome, substituindo o clássico C por um vanguardista K. De repente passámos a ter imensas taskas, akademias, kabeleireiros e até klinikas dentárias. Isto além de ser piroso é terrível porque tratar uma cárie já é desagradável quanto mais uma kárie com k, dói só de imaginar o aspeto.   

Seguindo a filosofia de Marie Kondo — a japonesa que é bestseller mundial e tem um programa na Netflix onde ensina o seu método de arrumação — o objetivo do programa é “organizar a casa dos portugueses e mostrar como podem simplificar a sua vida, melhorar as suas rotinas e dinâmicas familiares através da organização da sua casa”. É aqui que entra Maria Botelho Moniz, que se apresenta como “a rainha dos arrumados: gavetas, armários, pilhas de roupa, cães desarrumados”. Nada assusta Maria, que diz: “O problema não é falta de espaço, é excesso de desarrumação”. Concordo, não há pior do que cães desarrumados.

Eu até sou bastante arrumadinho, e não me canso de dizer à minha mulher que o problema é o cão, que tem a mania de chegar a casa e deixar os sapatos espalhados por todo o lado, para não falar de garrafas de cerveja na sala e pratos sujos no lavatório. Mas ela não acredita, até porque não temos cão, o que de certa maneira não ajuda à minha argumentação.

“#euqueroarrumar” tem o patrocínio da IKEA, o que hoje em dia significa que a cada 30 segundos vai aparecer uma menção à marca. Normalmente em forma de produto, mas a IKEA foi mais além e colocou mesmo um dos seus colaboradores a entrar no programa. A Marta Cunha é “especialista IKEA”, seja lá o que isso for, e a sua função é ser um catálogo interativo 3D da marca sueca. Ah, e também auxiliar a Maria Botelho Moniz na arrumação das casas das pessoas. Pessoas como a Catarina, de 36 anos com um filho pequeno, que se inscreveu porque precisava de arrumar a despensa. Além do habitual acumular de itens como ferramentas, medicamentos, outras tralhas e a própria comida, há algo na despensa da Catarina que é um verdadeiro cataclismo pronto a acontecer: a canela!

Isto porque o Tomás, o filho de três anos da Catarina, é alérgico e não pode sequer ter contacto com a especiaria. Ou seja, o mega pacote de canela da Margão que Maria mostra para as câmaras tem de estar sempre fora do alcance do petiz, ou algo de terrível pode acontecer… Pode parecer estúpido, mas agora estava aqui a pensar, sabem qual é que poderia ser uma solução simples para o Tomás nunca correr o risco de ingerir canela? Não ter canela em casa, bam! Se calhar sou só eu, mas se o meu filho entrasse em choque anafilático devido ao contacto com um produto se calhar era boa ideia não ter esse produto em casa, principalmente se for algo como canela. É assim tão indispensável que valha a pena pôr em risco a saúde do pequeno Tomás? Para que é que precisam de canela, já agora? A não ser que tenham uma fábrica de pastéis de nata na casa de banho, não faz sentido continuarem a ter essa embalagem de kryptonite (esta escreve-se mesmo com k) no raio de alcance do miúdo.    

“Eu quero muito que a despensa seja um sítio onde o Tomás possa estar em segurança”, explica a mãe Catarina. Mas porque raio é que o Tomás de três anos de idade tem de ir à despensa? A não ser que ele seja o pasteleiro da fábrica que têm na casa de banho, não há necessidade absolutamente nenhuma de permitir que o catraio entre naquele espaço.

Catarina acrescenta: “a despensa é aquele local da casa que se eu puder tranco a porta e só abro se tiver que ir lá”. Exato! É precisamente o que estou a dizer, porque é que não fazem isso? Problema solucionado. A dupla Maria e Marta inicia o seu ataque à despensa e retira todos os produtos para poderem encher depois com as diferentes referências do catálogo da IKEA. A tarefa não pareceu ser tão demorada como quanto seria se a equipa do programa viesse, por exemplo, fazer uma arrumação cá em casa. Isto porque na nossa despensa há coisas tão antigas, que tenho quase a certeza de que ontem vi o Indiana Jones a tentar substituir um pacote de Farinha Amparo por um saco cheio de pedras. Alguns dos nossos enlatados não são velhos, já são vintage mesmo.

Para poder fazer uma arrumação o mais otimizada possível é fundamental ter boas estantes, diz-nos a especialista da IKEA, o que deixou Maria Botelho Moniz à beira do êxtase. Aparentemente usar o berbequim para montar estantes é algo que provoca em Maria “uma alegria tremenda”. Qual par de sapatos Louboutin, qual quê, deem um “blecandeca” à Maria e conquistam-lhe o coração. Depois de montadas as tais estantes — que estranhamente são da IKEA — falta apenas recheá-las com diferentes formatos de embalagens — curiosamente da IKEA — que melhor vão acomodar os diferentes viveres como, por exemplo, bolachas — que surpreendentemente são da IKEA.

O que era antes um amontoado de latas, garrafas, sacos, martelos e pacotes de canela, transformou-se no paraíso de qualquer pessoa com perturbação obsessiva compulsiva. A Maria e a Marta fizeram um ótimo trabalho a arrumar tudo impecavelmente por famílias de produtos, com recipientes transparentes para mais facilmente os identificar, sem esquecer um detalhe que é a cereja no topo do bolo. A especialista colocou um cesto encarnado, que se destaca de todos os outros, onde arrumaram não só a canela, como todos os produtos da despensa que contêm canela. Portanto não bastava ter só um pacote de canela assassino, tinham de ter também produtos com canela. E agora esse combo explosivo está bem identificado num cesto encarnado a meio da dispensa, que é para o Tomás saber que não pode sequer tocar. Exato, porque todos sabemos que dizer a uma criança que não pode fazer uma coisa é o suficiente para que ela não o faça. Só faltava mesmo pôr uma seta em néon a piscar, mas acho que a IKEA não vende.