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opiniao

“Era Uma Vez em… Hollywood” é o filme menos sanguinário de Tarantino

O realizador leva-nos aos anos 60, à boleia do Cadillac de Michael Madsen e em direção à Cielo Drive.
Brad Pitt e Leonardo DiCaprio são as maiores estrelas.
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Ponto prévio: pagava na boa para ter vivido todas as emoções das filmagens de “Era Uma Vez em… Hollywood”, especialmente a longa cena com Bruce Lee, iniciada com uma conversa entre Leonardo DiCaprio e Kurt Russell na auto-caravana até à discussão de marido e mulher entre o mesmo Kurt Russell e Zoë Bell. Ou a cena do lança-chamas na piscina. O novo filme de Quentin Tarantino estreou a 15 de agosto.

Ponto prévio (outro): pagava mais na boa ainda para ter estado por dentro das múltiplas decisões de Tarantino em transformar atores de agora em figuras dos anos 60, como Steve McQueen (Damian Lewis), Charles Manson (Damon Herriman), George Spahn (Bruce Deen; a escolha inicial foi Burt Lancaster), Lynette “Squeaky” Fromme (Dakota Fanning), Jay Sebring (Emile Hirsch), Roman Polanski (Rafal Zawierucha) e Bruce Lee (Mike Moh), entre outros. Mais Sharon Tate (Margot Robbie), óbvio. É um festim.

Ponto prévio (só mais um): fez 50 anos a 9 de agosto o fim do tempo de paz e amor em Hollywood, por culpa de um assassínio em massa provocado pela família Manson na famosa casa em 10050 Cielo Drive (Los Angeles), que pertencia ao realizador polaco Roman Polanski — que se encontrava a filmar na Europa. Ao todo, morreram cinco pessoas mais o feto de Sharon Tate, grávida há oito meses e meio de Polanski. A brutal notícia apanhou todos de surpresa, é um choque imenso, sobretudo pela total falta de ligação entre Charles Manson e as vítimas. O único elo é Terry Melcher, morador naquele casa até janeiro de 1969 e produtor musical que conheceu Manson através de Dennis Wilson (um dos fundadores dos Beach Boys) e manifestou interesse em ouvi-lo tocar. Aconteceu que o negócio foi por água abaixo e Manson convive mal com a nega. Por mais de uma vez, é visto a cirandar o 10050 Cielo Drive à procura de Melcher, quando o dito cujo já fora substituído pelo casal da moda Polanski-Tate.

Ponto final. Parágrafo.

O nono filme de Tarantino é o menos sanguinário. Dizemos nós, assim de cabeça. Só tem duas cenas assim a puxar para o tarantinês. As restantes fazem parte de uma deliciosa viagem pelo tempo, uma carta de amor aos anos 60, vá, com outfits, dinners, cocktails, lojas, expressões e carros da moda — neste aspeto, o pormenor do Cadillac de Ville ser o mesmo de Vic Vega, aka Mr. Blonde, no “Cães Danados”. A história, nem sempre linear e contada na voz off de Kurt Russell, começa em fevereiro de 1968 e acaba em agosto de 1969.

Por um lado, há a dupla Leonardo DiCaprio (Rick Dalton, um ator frustrado por se ter transformado em vilão em todos os papéis depois do sucesso na série de cowboys “Bounty Law”) e Brad Pitt (um duplo chamado Cliff Booth, companheiro e ama-seca de Rick, dono de um passado tenebroso relacionado com a morte da mulher num barco, estilo Robert Wagner e Natalie Wood). Os dois, amigos para sempre, seja nos EUA ou em Itália (incursão pelos spaghetti western, à boleia do produtor Marvin Schwarz = Al Pacino), abusam do álcool e deixam-se preguiçar durante o dia, com ressacas brutais entre filmagens e viagens de carro.

Por outro, há Margot Robbie a fazer de Sharon Tate, cuja personagem é mais cândida e repleta de humanismo, como os pés sujos em cima da cadeira na sala de cinema e o ressonar mais que sonoro. Rick e Sharon vivem um ao lado do outro na Cielo Drive e só cruzam no último fotograma, ultrapassado o terrível susto de três intrusos invadirem a casa de Rick para iniciar uma matança. Resolve Brandy, o cão de Cliff, com uma série de dentadas nos sítios mais improváveis e ainda o tal lança-chamas na piscina. É ver para crer. E rir, às vezes (insistimos na cena da coça ao Bruce Lee). E pensar, muito.