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“Dumbo”: pouca imaginação, nenhuma ciência — só o elefante é fofinho, como sempre

Crítica: Tim Burton dá vida à versão animada de 1941 num filme sem intensidade nem muito interesse.
A versão animada continua a ser melhor.
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Se fosse de olhos vendados para o filme — nas salas portuguesas desde quinta-feira, 28 de março — sem saber nada de nada, sairia do cinema a pensar em Danny Elfman. Simplesmente porque há ali um acorde ou outro a fazer lembrar “Eduardo Mãos de Tesoura”. Também há Arcade Fire e Aurora. Além de “Baby Mine”, já presente na versão animada de “Dumbo” (1941) e agora interpretada pela mulher-sereia Miss Atlantis (Sharon Rooney). O resto é paisagem. Fogo de vista, vá.

As personagens não atam nem desatam, muito cinzentas e pouco exploradas. Claro, há Danny DeVito, o maior dos sub 1,50 metros de altura, como Max, o dono do Irmãos Médici, um circo em decadência pela crise instalada nos EUA com a entrada na 1.ª Guerra Mundial. E, claro, há Michael Keaton como V. A. Vandevere, um magnata tão enigmático como cruel. Aqui sim, pensaria em Tim Burton como eventual realizador do filme (se se mantivesse aquele jogo dos olhos vendados). Porque não há quem goste tanto de Michael como Tim – estou a escrever os nomes próprios, sim, sou amicíssimo dos dois.

Muito bem, DeVito e Keaton (ooohhhhhh, cobri-me de vergonha e voltei à estaca zero, a dos apelidos). Rivais no segundo “Batman” de Burton (1992), fazem-se companheiros de estrada no “Dumbo”, com ideias antagónicas sobre amizade e liderança. Inspirados, lideram a tela com algum charme. Os outros adultos, como Colette (Eva Green) e Holt (Colin Farrell), deixam-se ficar para trás, sem chama nem intensidade. Ao contrário das crianças Milly (Nico Parker) e Joe (Finley Hobbins), cheias de energia e vontade de dar espetáculo, sobretudo ao lado do elefante bebé de orelhas grandes.

Pormenor: a versão animada de 1941 é mesmo animada — só a vi agora e apanhei-me a rir sem querer. A versão recente de 2019 é aborrecida. Pouca imaginação, nenhuma ciência. O Dumbo é o maior, sempre. E é fofinho, óbvio. Só que deveria ser mais bem explorado. E animado. Já agora, se não fosse pedir muito, com a voz do Alan. Ups, volto a ser amigo dos atores.

Alan Arkin tem a voz mais potente e carismática do cinema. Atenção, direi o mesmo de Sean Connery e Anthony Hopkins numa ou outra situação. Agora, digo-a a respeito de Alan. Que categoria. Só o seu timbre aliado ao tom irónico da personagem (Griffin Remington, um magnata de Wall Street) dá vontade de entrar pelo filme dentro e falar com ele sobre circo, elefantes e nomes próprios.