OPINIÃO

O dia em que o Rock morreu

O 21.º aniversário do último grito de glória do Rock à escala global. É hoje.

Mad fer it

Knebworth Park, 10 de Agosto de 1996. Noel Gallagher entra no palco cheio de si: “THIS IS HISTERAY! THIS IS HISTERAY! Right here, right now, THIS IS HISTERAY!” grita, ciente de que naquele momento estava sentado no topo do mundo. Ao seu lado, o irmão Liam podre de bêbedo, como sempre (naquela altura). Na sua cabeça, tudo normal; afinal, ele já se sentia no topo do mundo desde que cantava nos bares de Manchester “Tonaaaaaaaaaaaaaaaaaaa-ite I’m a Rock N’ Roll staaaaaaaaaaaar” para dez bifes saídos das obras. Knebworth Park era por isso somente o cumprimento do óbvio para Liam. A sua maior preocupação naquela era a cerveja, que não estava suficientemente fresca.

Mas Noel sabia da efeméride que Knebworth encerrava. Depois de ditar que todos os que estavam ali, naquele momento, presenciavam História, Noel dá as boas vindas oficiais com um “bom dia, planeta Terra!”… e arranca para um eufórico “Columbia” (do álbum de estreia “Definitely Maybe”). Basta ouvir os gritos de “Yeah-yeah-yeah!!! Yeah! Yeah! YEAAAAAH!” do Noel nas backing vocals e medir, de zero a Knebworth, o quanto ele estava a flutuar acima do chão.

Nunca fui a Knebworth Park. Com muita pena minha, nunca tive oportunidade de ir ao local sagrado onde os Pink Floyd enterraram o “The Dark Side Of The Moon” em 1975, os Led Zeppelin enterraram os seventies em 1979 e os Queen se enterraram em 1986. Por alguma razão, Knebworth parece estar sempre associado a uma imagem bipolar de apogeu e fecho de ciclo. Qual acaso profético, foi também o local escolhido pelos Oasis para celebrar aquele que seria o pináculo da Britpop e último grande grito do Rock no mainstream musical, com um fim-de-semana de concertos esgotados em Agosto de 1996. Faz hoje exactamente 21 anos. Sem saberem, na sua noite da sua maior bebedeira, os Oasis estavam também ali a enterrar o Rock.

A ressaca da bebedeira viria logo a seguir. Numa perversa coincidência, ao mesmo tempo que se fazia a festa em Knebworth, um grupo de raparigas desconhecidas — umas tais de Spice Girls — saltava para o primeiro lugar das tabelas do Reino Unido e da Irlanda com o tema “Wannabe”. Mal sabiam Noel, Damon, Jarvis e seus pares, que tudo iria mudar a partir dali. Atrás das Spice, vieram as Britneys, os Backstreets e até por cá os Excesso. O Rock tinha deixado de ser o estilo com maior projeção e em breve deixaria de ser tocado nas rádios generalistas.

Esta troca de poderes fez-me ganhar uma aversão especial às Spice Girls. Na verdade, hoje posso confessar que “Wannabe” tinha aquele hook de piano (ba-bada, badá-bababada) que até nem era mau de todo. Somaram-se uns bons hooks a uma imagem polida e milimetricamente medida e mudou-se todo um panorama musical.

Desde então, o mais próximo que o Rock esteve do mainstream e das rádios generalistas terá sido na vaga de Nu Metal do final dos anos 90; ou quando os White Stripes lançaram “Seven Nation Army”, em 2003; ou talvez quando Foo Fighters encheram o Wembley em 2008, cavalgando no sucesso do single “The Pretender; ou mais recentemente quando os Arctic Monkeys lançaram “A.M.” e o single “Do I Wanna Know?”, em 2013. Em 21 anos, não houve muitas bandas Rock a ocuparem novamente a cadeira dos deuses.

Quanto aos Oasis, o melhor que poderiam ter feito a seguir a Knebworth seria gozar umas merecidas férias para limpar a cabeça. Mas Noel e a Creation (a editora da banda) queriam capitalizar o momentum e como tal afogaram-se em cocaína para fazer o álbum “Be Here Now”, lançado um ano mais tarde, em Agosto de 1997. O mundo recebeu “Be Here Now” em euforia, mas rapidamente se apercebeu que não era assim tão bom como desejava. O álbum denotava clara falta de quality control: metade brilhante, metade decepcionante, mas todo ele dilatado ao máximo. Quando a banda se apercebeu disso, já o mundo tinha seguido em frente e trocado os riffs de guitarra pelos “zig-a-zig-ahhh”. Terminava assim a última dinastia do Rock no mainstream.

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