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“Desta Terra Nada vai Sobrar a Não ser o Vento que Passa” é o “1984” de 2019

A escritora e cronista da NiT Filipa Martins escreve sobre o novo livro de Loyola Brandão.
A obra é livre do ponto de vista da estrutura.

Em 1949, George Orwell apresentava-nos o Grande Irmão de “1984”, o livro que se tornou a parábola da época que vivemos. Algoritmos, inteligência artificial, fake news são formas evoluídas e aparentemente menos violentas da polícia do pensamento de Orwell. Em 2019, Ignácio de Loyola Brandão traz-nos “Desta Terra Nada vai Sobrar a Não ser o Vento que Passa” (Teodolito, 2019) com o mesmo fôlego visionário de Orwell. O autor chamou ao título a frase de Bertold Brecht e tornou a obra o “1984” de 2019.

Loyola Brandão imaginou o Brasil dantesco do futuro. Por essa altura, a população atingiu os trezentos milhões de habitantes, existem mais de mil partidos políticos e já se deram 113 impeachments de presidentes, os políticos nunca são vistos e há alguns que vão diminuindo de tamanho por receberem subornos, chegando a medir 22 centímetros. Os magistrados vivem num bunker e aos velhos, depois dos 60 e poucos anos, resta a auto-eutanásia, entretanto legalizada e promovida.

O caos do trânsito nas principais artérias das cidades, tão característico do Brasil, tendeu a pior com a passagem de vagões e vagões dos chamados comboios dos mortos. A morte é banal e morre-se de quase tudo, incluindo de corrupção. Ajuda o facto de os ministérios da Saúde, Segurança Social, Educação, Cultura e Meio Ambiente terem sido extintos. No meio deste aparente apocalipse, há um homem que luta por reaver o amor de uma mulher.   

O autor prepara, nos primeiros parágrafos, o leitor para a turbulência do que se adivinha, mas o que ele nos serve é um terramoto. “Desta Terra Nada vai Sobrar a Não ser o Vento que Passa” é uma distopia que em muito vai beber ao hiper-realismo característico de Loyola Brandão. E nós, a partir do nosso mundo, quase que tocamos com as pontas dos dedos nesse cenário futurista que se desvela.     

Livre do ponto de vista de forma e estrutura, feito com profunda ironia, à passagem das páginas podemos encontrar no romance frases garrafais provocadoras, como o autor, com vocação inata para serem instagramáveis: “Cuidado, antes de abrir a porta, verifique se o abismo está parado neste piso” ou “Da Gosma Nasceste. Gosma Foste a Vida Inteira. Da Gosma te Alimentaste, à Gosma Retornarás” são disso exemplo.    

E é inevitável, a cada capítulo, decalcarmos as frases do autor sobre o mapa do Brasil atual; porém, como Loyola Brandão referiu, ‘não tem ninguém identificado, mas todo o mundo se pode identificar, porque a grande jogada da ficção é contar disfarçando’. Apesar de os detalhes mais sórdidos nos parecerem plausíveis (como a possibilidade de serem instaladas câmaras nos preservativos para vigilância da população), é a aceitação do absurdo com resignação ou sem questionamento que torna esta distopia mais perigosamente próxima da nossa forma de viver atual.   

O final é, como a crítica tem referido, surpreendente e, acrescentaria, com pinceladas de fim do mundo. Não deixamos, porém, de ver na proposta do autor uma destruidora regeneração que só o vento, à sua passagem, consegue imprimir. Talvez por otimismo, chamo a esse vento democracia.