OPINIÃO

Deftones criaram a sua república e Seu Jorge levou-nos às estrelas

A crónica do último e mais esquizofrénico dia do Super Bock Super Rock e o rescaldo do festival

O presidente Chino Moreno

O Super Bock Super Rock 2017 terminou com o mais esquizofrénico dos cartazes deste ano. No palco principal, juntou-se Indie Pop, Nu Metal e Electronica; isto enquanto se ouvia Stoner cá fora e Bossa Nova no Pavilhão de Portugal (quando o público deixava). Eu percebo, há muita gente para agradar. É muito bonito querer juntar tudo e dizer que vivemos todos em harmonia, mas no mundo real a maioria das pessoas que vai a um festival, vai à procura de um destes estilos; ou dois, três no máximo. O melhor dos festivais é poder descobrir bandas novas, mas isso é mais complicado quando saltamos sucessivamente para pontos opostos do espectro musical.

O resultado disto é que o público junto aos palcos se desinteressa pela música que não é a “sua” e aí começa a conversa que, quando multiplicada por milhares, resulta num ruído que muitas vezes se sobrepõe à própria música. Como se esperaria num cenário que quer agradar a toda gente, quem lá foi pode ter ficado com a sensação que soube a pouco. Mas já chega de preliminares, vamos ao que se passou nos concertos.

Foster The People (Palco Super Bock Super Rock, 20h20)

Os Foster The People abriram o palco principal para um Meo Arena ainda a meio gás. A colocação da banda de Indie Pop californiana antes de Deftones é difícil de entender, mas felizmente o público português já não é tão impaciente como o de há 15 anos (que o digam os Nickelback) e o concerto correu sem problemas. Também ajudou o facto de terem trazido muitos fãs.

A banda de Mark Foster apresentou um set enérgico e positivista, carregado com os seus êxitos mais catchy como “Don’t Stop (Color On The Walls)”, “Coming Of Age” e “Pumped Up Kicks”, alinhados para fazer o público cantar e saltar. Cumpriram o que se propuseram. Música fácil de ouvir, sem esconder alguma juvenilidade e superficialidade, mesmo quando Foster tentou puxar por um lado mais denso, afirmando (e muito bem) que “what makes the world great is our differences not our similarities”. A verdade é que todos os presentes aceitaram os Foster The People, mesmo tendo em conta que a maioria estava ali para a banda que ia tocar a seguir.

Black Bombaim (Palco LG/SBSR.fm, 20h55)

À saída de Foster The People, ainda consegui apanhar o fim de Black Bombaim no palco LG e tenho que lhes fazer referência. Outra loiça. A música fácil de ouvir ficou obviamente dentro do Meo Arena e cá fora mergulhamos nos longos instrumentais psicadélicos dos rapazes de Barcelos, entre o pôr do sol e o cheiro a erva. É como se de outra dimensão se tratasse.

Deftones (Palco Super Bock Super Rock, 22 horas)

Se já esperava a meia casa em Foster The People, fiquei mais surpreendido com a não enchente em Deftones. O tempo áureo do Nu Metal já lá vai e o cartaz heterogéneo não ajudou a cativar mais público desta franja. E se soubessem que o concerto duraria pouco mais de uma hora, menos teriam comparecido. Só vieram os fiéis, mas estes ocuparam a primeira metade do recinto num imenso mosh pit, onde se fundou uma república metaleira para quem o concerto não tinha como dar errado.

Aqui tenho desde já que apresentar o meu acto de contrição. Ao contrário do que é hábito, não fui para o mosh pit (comecei a ter mais cuidado desde que parti quatro dedos do pé direito há dois anos em The Prodigy) e sinto que por isso perdi o algum do mojo do concerto. Deftones não é a mesma coisa se não se estiver lá em baixo a sujar os pés. Vi o concerto da bancada e lá em baixo, o ambiente pegou fogo por diversas vezes. A loucura explodiu em “Change (In The House Of Flies)”, altura em que se provou que é possível música pesada no Atlântico sem violar os tímpanos da audiência.

O concerto de Deftones proporcionou também o momento de maior beleza de todo o festival, quando Chino Moreno se chegou perto das grades e um fã abraçou-o a chorar compulsivamente, como se naquele momento estivesse ali a expelir todos os seus demónios. E não é para isso que serve a música?

Seu Jorge (Palco EDP, 22h50)

O Palco EDP teve a sua maior enchente ao longo de todo o festival ontem em Seu Jorge, que (em boa hora) trouxe ao SBSR o seu tributo a David Bowie. Este tributo consiste na apresentação integral da banda sonora de “The Life Aquatic with Steve Zissou” de Wes Anderson (que já remonta a 2004) e que é composta por covers de David Bowie com “tradução livre” em português. “Tradução livre” porque Seu Jorge não percebe muito da língua (ou pelo menos na altura não percebia) e como tal, quando Wes lhe apresentou o desafio de fazer as covers de Bowie, ele limitou-se a inventar a letra que melhor lhe soava naquela música. Os resultados foram interessantes, tão interessantes que mais de 10 anos depois, o brasileiro ainda anda aqui a cantar esses temas.

Seu Jorge chegou 10 minutos atrasado e ainda bem, porque me permitiu ver um dos melhores concertos do Super Bock Super Rock na íntegra. Um gajo e uma guitarra. Só. Às vezes não é preciso mais nada. O silêncio era (devia ser) um elemento essencial do espectáculo, mas eu cedo me apercebi que ia ser muito difícil respeitá-lo. Aparentemente, este era ‘the place to be’ na noite de sábado —tranquilo, música baixinha, à beira rio, ambiente perfeito para conversar. Até porque os Deftones fazem muito barulho, um horror, e não dá para falar em condições. Está explicada a enchente. Mas voltemos à música que é o que importa e foi tão, tão boa.

O concerto começou com o inconfundível “Ziggy Stardust” e o mais difícil foi resistir ao ímpeto de gritar “SO WHERE WERE THE SPIDERS” no refrão, que aqui foi substituído por “meu instinto não falha!”. Nada a ver, mas é bonito ver que a barreira da língua não impediu Seu Jorge de fazer a sua interpretação. Depois contou a história do telefonema de Wes Anderson que começou tudo e que ele não quis atender porque estava num dia de folga, em casa a jogar FIFA. Seu Jorge foi apanhado desprevenido uma vez que os únicos temas que conhecia de Bowie eram “Let’s Dance” e “This Is Not America” — “menino preto da favela não ouve Rock ‘n’ Roll” justificou, tocando a seguir “O Samba Da Minha Terra” como um exemplo do que ouvia. 
 
Ao longo do concerto, o carioca foi contando as histórias da génese de cada uma das suas covers. Como “Rebel Rebel”, que foi escrita em 15 minutos na caravana do set do filme, porque se tinha esquecido de ouvir este tema. Seu Jorge estabeleceu uma ponte com quem o queria ouvir (e foram muitos que o respeitaram) e abriu portas para uma visão ainda mais profunda da música que tocava. Ficámos por exemplo a saber que esta digressão se deve à morte do seu pai, dois dias depois da morte de David Bowie, alinhando as estrelas para este tributo a Bowie. “Acredito que eles estão os dois a viver em Marte”, atirou.
 
Os clássicos foram desfilando sem parar ao longo de uma hora, mas o público só ficou totalmente rendido quando chegou o cover de “Life On Mars?” (terá entrado nalguma novela?) e enfim cantou, aplaudiu e fez tudo o que se pede num espectáculo ao vivo. Pela minha parte, fiquei rendido logo de início à simpatia, honestidade e simplicidade de Seu Jorge. Um gajo, uma guitarra e as estrelas. Melhor concerto do dia, quiçá do festival.
 

Fatboy Slim (Palco Super Bock Super Rock, 23h50)

O Super Bock Super Rock fechou o palco principal com um DJ set, sublinhando ainda mais a heterogeneidade do cartaz deste ano. Não foi a primeira vez que vi Fatboy Slim ao vivo, mas admito desta vez estava com um problema de enquadramento que me impediu de melhor curtir o DJ britânico — estava sóbrio.

Fatboy Slim começou forte, a tentar captar o público com cânticos de “hey ho, let’s go!” roubados aos Ramones, mas depressa começou a ficar muito repetitivo. Num set pejado de diversos samples de outros artistas (“Radio Ga Ga” dos Queen teve especial ênfase), esperava-se que Norman Cook deixasse os seu próprios hits para o fim, até porque êxitos são coisa que não lhe falta. Mas eles nunca vieram. Só teasers de poucos segundos para deixar água na boca, mas dos singles que todos conhecem e amam, nada. No fim de contas, acabou por ser um DJ set um tom acima da média, mas pouco mais que isso. Gostei muito mais do concerto de Fatboy Slim no Sudoeste 2005. Mas admito que aí estava bastante mais bezano.

Rescaldo

O SBSR terminou e o saldo não é especialmente positivo. O festival parece estar com graves problemas de esquizofrenia, na dúvida se é ainda é o Super Rock, se é Super Hip Hop, ou se é o Sudoeste In The City. Para além do problema da aleatoriedade, o cartaz deste ano foi particularmente fraco em comparação com os anos mais recentes. Também é preciso dar mais tempo de palco aos cabeças de cartaz, que são eles quem traz mais gente ao festival. Mas o ponto mais negativo do festival são sem dúvida as obscenas condições acústicas do Meo Arena, um problema antigo para o qual urge encontrar solução, nem que para isso tenhamos que regressar ao místico Meco.

No pólo positivo, tivemos o tão aguardado (ainda que curto) regresso a Portugal dos Red Hot Chili Peppers, a revelação dos The Orwells, a humanidade dos Língua Franca e a pureza de Seu Jorge. As condições de mobilidade do festival também são extraordinárias e o conforto de estar em casa meia hora depois de sair do recinto (para quem mora em Lisboa, obviamente) é um luxo que não tem paralelo nos festivais em Portugal. A ideia dos copos alugados continua a ser ganhadora (mas 2€ por um copo?), mantém o recinto limpo e evita a vergonha alheia que é ver pessoas a vasculharem os caixotes do lixo para conseguirem mais um copo para uma t-shirt. Para o ano há mais.

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