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Crítica: “Três Cartazes à Beira da Estrada”: caos, paz de espírito e uma mãe furiosa

Divinal, a combinação caos, gargalhadas e paz de espírito com Frances McDormand, Woody Harrelson e Sam Rockwell.

Frances McDormand é uma badass
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“Great Scott”, lembra-se? É uma exclamação de surpresa, uma catchphrase da ficção popular, atribuída a Mark Twain, Dr. Watson do Sherlock Holmes e Doc Emmett Brown do “Regresso ao Futuro”. Também poderíamos exclamar Great Scott para um sushi de ostras. Ou Great Scott para uma equipa da 3.ª divisão na meia-final da Taça de Portugal. Ou Great Scott para o “Três Cartazes à Beira da Estrada”, um filme estonteante em que todos os actores jogam o papel da sua vida com uma categoria infinita.

A começar por Frances McDormand. Que desempenho notável. Entre as dezenas de cenas arrebatadoras, há duas simplesmente sensacionais pela maneira como o seu rosto se transforma e a tristeza se apodera em todo o seu esplendor (salvo seja). Uma em casa, quando o ex-marido Charlie (John Hawkes) lhe faz uma visita ameaçadora, e outra na rua, em conversa com o xerife Bill Willoughby (Woody Harrelson). Em ambas, é possível ver as veias todas esticadas, sinónimo de raiva incontida, e os olhos a tremelicar como lâmpadas em fim de carreira.

Frances é Mildred Hayes, mãe de Robbie (Lucas Hedges) e Angela (Kathryn Newton). Em casa, convive com os dois de maneira diferente. Porque Robbie está lá e Angela já não – a filha está morta há sete meses, vítima de violação. Como? Quem? Onde? Porquê? Ninguém sabe nada. Nem a polícia de Ebbing, Missouri. À falta de novidades na investigação, Mildred avança por conta própria e aluga três cartazes publicitários à entrada da cidade, com dizeres provocatórios em sequência: “Raped while dying” (violada enquanto morria), “and still no arrests?” (ainda nem uma detenção?), “how come, chief willoughby?” (porquê chefe willoughby?).

A ideia, conta o realizador Martin McDonagh, nasceu-lhe “há uns 17 anos, durante uma viagem de autocarro entre os estados Georgia, Florida e Alabama, em que vi cartazes a pedir justiça”. Mais de uma década depois, McDonagh identifica o destinatário como uma mãe e começa a escrever o guião. E aqui começa um braço-de-ferro com Frances, que se vê mais como avó. Quem decide é Joel Coen, marido de Frances desde 1984. O papel é de mãe, está decidido. E que mãe.

Força da natureza, Mildred desafia a ignorância dos outros todos, sejam eles dentistas, anões ou polícias. É uma justiceira à solta, capaz de enfurecer quem quer que seja, sem ligar a mínima para os efeitos perversos (ou não) das suas ações. Que o diga o xerife, em palpos de aranha com a situação. Outro desempenho fora de série, o de Woody Harrelson, entre a dor do caso por resolver e a do cancro do pâncreas.

O seu deputy mais fiel é Jason Dixon e aqui mais palmas para a extraordinária atuação de Sam Rockwell. Digno de um gigantesco Great Scott. O homem é um furacão humano, sem qualquer sentimento pelo próximo, à exceção da mãe, com quem ainda vive (mais a tartaruga de estimação). Os três ocupam a ação como gente grande e deixamo-nos guiar pelo triângulo raiva, frustração e ódio, sem direito a perdão ou entendimento.

Daí que permaneçam no ar as tais perguntas: Como? Onde? Quem? Porquê? em relação à morte de Angela. O filme é sobre as consequências desse brutal assassinato e de como as vidas se entrelaçam umas nas outras, entre o caos e a paz de espírito, que andam espantosamente de mãos dadas. E ainda nos sacam umas valentes gargalhadas. Great Scott.