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Crítica: “Papillon”, uma cópia sem salvação possível

Charlie Hunnam e Rami Malek até combinam bem, o problema é tudo o resto.

Charlie Hunnam é um dos atores principais.
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Capital da Polónia por troca com Cracóvia desde 1596, Varsóvia é dividida pelo rio Wisla. Do lado de lá, a cidade propriamente dita com todos os seus bairros e encantos. Do lado de cá, o Estádio Nacional e toda uma variedade de edifícios pré-modernos – aliás, ainda nem tinham sequer inventado o termo “pré” quanto mais “moderno” quando edificaram estes blocos rodeados de uma estreita estrada enfeitada com árvores.

Falamos com alguma propriedade porque estamos num desses edifícios. E este edifício não é um qualquer, não senhor. Tem quatro andares e diz ser um hotel. Mentira. Não há elevador nem receção, tsss tsss. Há (poucos) quartos preparados e outros (muitos) por fazer, sem porta nem sequer cama. Todos sem casa-de-banho nem televisão. De dia, respira-se confiança.

À noite, com as luzes apagadas, intimida. Não ajuda ser a única pessoa neste pedaço XXL de betão. E o corredor é enorme. Mesmo, maior que XXL. Contei os passos, da esquerda para a direita. Ao todo, 348 passos com um pé à frente do outro. Qual a solução para passar a primeira das 30 noites do Euro-2012 sem me passar da cabeça? Saco do portátil, atiro um DVD lá para dentro e, enfim, descontraio. É o “Papillon”. Acreditem, é uma sensação libertadora. O que até é um sentimento antagónico: um filme sobre prisão libertar-nos.

“Papillon” é isso e muito mais. Steve McQueen enche a tela (a do portátil; imagine-se a do cinema), Dustin Hoffman é exemplar no papel, digamos, secundário. Falo do “Papillon” de 1973, óbvio. O de 2017, só agora ready to rock ‘n’roll em Portugal, é uma fraca imitação. A primeira cena em que Papillon (Charlie Hunnam) mete a cabeça de fora da solitária até é prometedora. Pela sujidade inerente, desde o aspeto das masmorras até ao olhar perdido através de um cubículo XXS.

O que se segue é uma cópia aborrecida, sem graça. Quer dizer, aqui o termo graça tem o intuito de nos puxar para o sentimento. Seja ele qual for, tem é de ser um sentimento condizente com a situação vivida. Afinal de contas, estamos a assistir à história verídica de um condenado à prisão perpétua em 1933 e a sua luta pela liberdade a todo o custo. E luta a sério: fugas arriscadas, esquemas xpto, informação preciosa a troco de dinheiro preso no rabo (não há forma menos escatológica de o dizer, sorry) guardas amordaçados etc e tal. Todo um mundo novo e penoso. Dá que pensar. Nem sequer é no dia a dia, é mais no segundo a segundo. É desumano, tanto as condições da prisão como a convivência com os presos ou a conivência com a autoridade. Vamos cair no mesmo defeito, o da comparação. O “Papillon” de 1973 deixa-nos abananados, o de 2017 indiferentes.

Tomemos a última cena, pelo exemplo. No “Papillon” de 1973, a caracterização dos personagens está perfeita, as vozes arrastadas pela idade também, o mar lá em baixo bate com força na falésia e transmite-nos a ideia da vitória esperada da natureza sobre a teimosia humana. Quando McQueen dá o salto, a própria maneira de filmar deixa-nos em sobressalto. A queda na água não nos resolve o problema da inquietude. De todo. Nem quando McQueen reaparece. Há toda uma tensão (in)visível.

No “Papillon” de 2017, a caracterização é comme ci comme ça, as vozes soam como sempre, sem rugas nem idade, o mar está manso e o salto para a liberdade é banal. Entre o prometedor início e o aleluia pelo fim, salve-se a química entre Papillon e Dega (Rami Malek). O dinamismo dos diálogos, os olhares cruzados e o entendimento sem uma palavra têm a sua graça. Só que falta tudo o resto. Até a comunidade leprosa, tão bem representada em 1973 e, agora, nada. Se tivesse visto este Papillon naquele hotel fantasma em Varsóvia, o Euro-2012 teria ido para o galheiro.