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Crítica: “It”, um novo significado para palhaçada

Prepare-se para sustos, arrepios e nós no estômago, cortesia do palhaço medonho de Stephen King.

Pennywise, o palhaço que arruina a fama de todos os outros.

A infância tem o que se lhe diga. Primeiro é o boneco da Michellin. O que é aquilo, é suposto ser fofinho e querido? Não, não é. É feio e ligeiramente escanifobético. Se o visse a meio da noite, numa rua qualquer, mudaria de passeio. Na hora. Depois desse susto, um outro: Pierrot. Quando me presenteiam com a colecção de cromos do palhaço triste, guardo-a bem lá no fundo da última gaveta, longe de tudo.

Michellin e Pierrot, os meus pesadelos estéticos da infância. Uma pessoa cresce e, vá, convive assim-assim com os dois. Sem alegrias nem alergias. São só bonecos, caramba. O medo ganha outro élan e entramos numa outra dimensão, a da racionalidade. Então? Entããããão? Essa é boa. Dou quatro alternativas, só quatro: Reese Whiterspoon com um Óscar de melhor actriz bem seguro na mão direita, apito final do árbitro alemão Markus Merk na final do Euro-2004, fecho das salas de cinema King e ausência do cozido à portuguesa nas listas dos restaurantes entre Junho e Agosto só porque é verão. Qualquer uma destas verdades incontornáveis assustam-me. Muito mesmo, até porque o corpo age por conta própria, sem nos dar cavaco. Por muito que queiramos dar o braço a torcer, é um cocktail explosivo entre pele arrepiada, pêlos dos braços eriçados, frio no estômago e boca seca. What da hell?

Até que entramos na sala de cinema com um balão vermelho na mão e, pronto, está o caldo entornado. Desde o primeiro frame, a música de Benjamin Wallfisch indica-nos perigo a todo o instante e a filmagem de Andy Muschietti deixa-nos colados à cadeira, completamente paralisados. Nem três minutos de filme e já há uma vítima. ‘Tadito do Georgie, irmão mais novo de Bill (Jaeden Lieberher). A culpa é do palhaço Pennywise (o sueco Bill Skarsgard, a segunda escolha após a recusa do inglês Will Poulter por problemas de agenda).

Numa primeira fase, até se parece com o palhaço do McDonald’s. Só que não. Bem vistas as coisas, acumula uma série de defeitos. Quer dizer, poderia ser o Ronald menos o ar afável. Menos aqueles riscos vermelhos do fim dos lábios até à cabeça. Menos aqueles olhos amarelos. Menos tudo. Este palhaço de Stephen King (ah é verdade, este senhor é que é o responsável por esta brincadeira sem graça nenhuma de duas horas-e-tal) é a Reese Whiterspoon e o Markus Merk juntos. Credo.

Segue-se o salto temporal, de Outubro 1988 até Junho 1989. Eeep eeep huraaaay, é tempo das férias de Verão na cidade de Derry. Isto agora vai animar. Ou não. Um grupo de quatro amigos nerds, com um vocabulário puxado para a idade e época, reciclam os livros escolares e planeiam aventuras mil, entre mergulhos na pedreira e passeios de bicicleta. O problema é Bill, que simplesmente não aceita a morte do irmão e dedica o tempo à procura do seu corpo contra o desejo do pai. E, já agora, o problema também é o palhaço, damn it. A coisa, como lhe chamam, acorda de 27 anos em 27 anos e diminui consideravelmente a população da cidade, sobretudo crianças, vítimas flutuantes no fundo de um poço numa casa abandonada. O precioso dado estatístico-temporal é dado por um quinto elemento jovem. Entregue à solidão, por força da falta de entrosamento com os restantes elementos da escola durante o primeiro ano na cidade, Ben entretém-se a conhecer o passado de Derry na biblioteca e descobre uma série de trágicos acontecimentos ao longo das épocas. Scary? Muuuito.

O ziguezague narrativo de Stephen King apresenta-nos então a representante feminina Beverly (Sophia Lillis) e o afro-americano Mike para compor o denominado Losers Club. Sete, ao todo. Sete magníficos? Hope so, senão pobre Derry. Pormenor, todos os actores nascem depois de 2001. Ou seja, putos do século XXI. Terá o maléfico Pennywise caparro para aguentar tanta juventude? Baaaaaah, tudo depende do medo. Se existir, “It” é uma série de murros no estômago. Porque o palhaço nunca nos deixa em paz, aparece sempre no momento mais inoportuno e assume qualquer forma de medo, seja um pai abusivo, uma pintura macaca ou um leproso. Reese Whiterspoon, volta que estás perdoada.

nota NiT: 66%