Cinema

Crítica: A Floresta das Almas Perdidas — entre e desfrute

A primeira longa de José Pedro Lopes só tem duas cores. À moda antiga, com uma premissa sempre moderna: a do suicídio.

Carolina, a alma perdida.
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Do arco da velha, a nossa cabeça. À entrada para uma casa de banho pública, imagino sempre o tímido hamish Lukas Haas a tentar controlar a respiração como único observador de um crime brutal perpetrado por Danny Glover, no início de “A Testemunha“. Do arco da velha, a nossa cabeça. Quando a sede aperta e a procura por um copo de água (ou três, vá) bloqueia-me mil e um pensamentos, só consigo visualizar a cena inicial de “Silverado” em que Scott Glenn descobre Kevin Kline no meio do deserto e dá-lhe de beber antes de receber o thank you mais inaudível da história do cinema.

Do arco da velha, a nossa cabeça. Na hora da dor lancinante de uma pancada infeliz numa porta ou num móvel, só me lembro daquele salto trapalhão de Tom Berenger para o carro em “Os Amigos de Alex“. Do arco da velha, a nossa cabeça. Quando leio filme português de terror, pestanejo uma, outra vez e nada. Isto não anda nem desanda. Não ata nem desata. Nada, nada me ocorre. Que branca. Retificação: branca e preta.

Sim, o filme só tem duas cores. À moda antiga, com uma premissa sempre moderna: a do suicídio. Do arco da velha, a nossa cabeça. Lembro-me imediatamente daquela floresta japonesa chamada Aokigahara, no monte Fuji. Quem ali entra, sonha acabar com os sonhos. Às vezes, arrepende-se e volta para trás. Outras, não e acaba mesmo com a própria vida. O número de suicidas cresce anualmente (de 30 em 1988 para 108 em 2004) e o mês mais fatídico é Março, o fim do ano fiscal do país. Pior que Aokigahara, só mesmo a ponte Golden Gate, em São Francisco (mais de 1600 suicídios nos últimos 80 anos).

E agora? Tem a palavra José Pedro Lopes na sua primeira longa-metragem. Se a ideia é assustadora, o cenário arrepia: uma catrefada de cadeados pendurados numa série infinita de árvores assentes em mil folhas espalhadas ao calhas. Há uma floresta assim na Rússia (e o diretor de fotografia sabe-o bem). De repente, assim como quem não quer a coisa, um lago sem corrente, do degelo. Há um igualzinho em Espanha, no Parque Natural da Sanábria (mais uma vez, Francisco Lobo capta-o com sabedoria). A trama junta esses dois mundos e desagua num encontro fortuito entre Ricardo (Jorge Mota) e Carolina (Daniela Love) no meio da Floresta das Almas Perdidas, um lugar ficcional na zona fronteiriça entre Portugal e Espanha, eleito pelos suicidas para o toque final.

Ele é um pai destroçado e quer saber o sítio exato onde a filha adolescente Irene (Lília Lopes) acaba com a vida. Ela é também adolescente, filha e irmã de alguém, fã de Arcade Fire, com um fascínio mórbido sobre a morte. Os diálogos curtos e incisivos nem sempre nos deitam abaixo. Fala-se de suicídio, é verdade, e então? Há lá uma passagem deliciosa sobre as redes sociais. Pergunta pertinente de Ricardo sobre o porquê de Carolina passar o tempo a laurear a pevide entre os suicidas: “Não tens pais e amigos que se preocupam contigo?” Resposta pronta: “Eles sabem que estou bem, posto fotos no facebook.”

Outra parecida, a cultura das sms – às tantas, há quase mais diálogo na troca de mensagens do que propriamente nas palavras ditas. Que o diga Filipa (Mafalda Banquart), irmã da suicida Irene e sem paciência para os desvarios do pai nem para a cultura alcoólica da mãe (Joana = Lígia Roque).

Se o suicídio lhe dá voltas à cabeça, fique ligado. Mesmo. Porque o que se segue é uma cambalhota improvável no guião, à conta da party girl-noir Carolina. Tudo, atenção, com uns quantos gatos à mistura. Do arco da velha.