opiniao

Crítica: “Carga” é bem pesada, por sinal

A vida vai torta e jamais se endireita: Viktoriya dá a volta ao texto num filme com Vítor Norte, Rita Blanco, Ana Cristina de Oliveira e Sara Sampaio.

77

Castelo Branco, Fundão, Louriçal do Campo, Covilhã, Serra da Estrela e Belmonte. O verde árido do interior de Portugal é revisitado pelo olho clínico de Bruno Gascon, a propósito da atual e incómoda temática do tráfico sexual feminino. Já vencedor do “Rising Star Award” no Canada Internacional Film Festival pela curta do thriller psicológico “Boy”, em 2015, o realizador francês mete-se agora numa longa metragem com atores de primeira água, entre portugueses, polacos e bielorrussos, e o resultado é um filme sensorial.

As cenas passam, as imagens ficam. O cenário degradante, os diálogos corrosivos, as caras mal amanhadas sobretudo a esborratada Sveta (Ana Cristina de Oliveira). Tudo, tudo, tudo sem exceção é deprimente. É-nos impossível descansar a vista e recuperar a paz de espírito. A força da história começa ainda antes do primeiro frame propriamente dito, com um “podias ser tu”. E logo entramos no camião guiado pelo católico António (Vítor Norte), com a jovem Viktoriya (Michalina Olszanska) escondida no contentor, à espera de melhores dias num país infinitamente mais confortável que a sua casa. Ou não. A verdade é que Viktoriya é apanhada desprevenida na teia da escravatura sexual e vai conviver com todo o tipo de homens por dias a fio sem ver um único raio de sol, remetida num quarto impróprio para consumo.

Viktor (Dmitry Bogomolov). É ele, com a ajuda da irmã Yulia (Kim Grygierzec), quem orquestra todo este processo sinistro e quem decide para onde vão as mulheres raptadas: Madrid, Amesterdão ou ali mesmo. A maldade está dentro dele. Bastam-lhe as cicatrizes espalhadas pela cara como uma doença incurável. Só que os gestos, as palavras e os olhares descarregam ainda mais a falta de sentimentos per se. António, por seu lado, tem rugas em vez de cicatrizes e um olhar bondoso/cansado em vez de cuspir fogo por todas as dioptrias.

É o oposto de Bogomolov, não é? Nada disso. É tão ou mais culpado. Sem António, não existiria a figura de Bogomolov. Se Bogomolov é indiferente às lágrimas e súplicas das suas escravas, António sente-as como se tivesse cometido um erro maiúsculo, imperdoável, mas sem vontade de voltar atrás na sua decisão de ganhar dinheiro fácil a transportar mulheres e crianças da Europa de Leste até Portugal no seu camuflável camião TIR. Aliás, António é todo ele camuflável. Que o diga a sua mulher Luísa (Rita Blanco), cuja voz ao telemóvel dá corpo a uma vida monótona.

O filme percorre todos os impressionantes estádios do tráfico sexual. Há clientes, ponto – só isso já é escanifobético, esquisito, sem pés nem cabeça. E há clientes para tudo. Cheios de dinheiro e cheios de nada. Só há uma maneira de escapar ao inquietante esquema montado por Bogomolov e Anna (Sara Sampaio) dá o corpo ao manifesto. É o seu salto para o nada que flecte uma mudança estrutural na narrativa, provocada por uma reacção em cadeia sem precedentes. O ponto final é de cortar a respiração. Certo, António?

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

NiTfm

AGENDA NiT