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Crítica: “Blade Runner 2049” é um tipo de magia

A chuva, a neve, o oceano, a paisagem, os prédios, os personagens e os diálogos: 30 anos depois, tudo é quase tóxico, definitivamente asfixiante

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Bom casaco, carro incrível.
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Pancada = choque, baque. Agora a sério, pancada é o quê? É muita coisa, como isto aqui, ó.
Rachael: “Do you like our owl?”
Deckard: “Is it artificial?” 
Rachael: “Of course it is.”
Deckard: “Must be expensive.” 
“Very. I’m Rachael.”
“Deckard.”
Rachael: “It seems you feel our work is not a benefit to the public.” 
Deckard: “Replicants are like any other machine. They’re either a benefit or a hazard. If they’re a benefit, it’s not my problem.”
Rachael: “May I ask you a personal question?”
Deckard: “Sure.” 
Rachael: “Have you ever retired a human by mistake?”
Deckard: “No.” 
Rachael: “But in your position, that is a risk.”

Volta e meia (que é como quem diz, umas quantas vezes por semana), vou ao YouTube, escrevo “Blade Runner” e deixo correr uma hora e tal de Vangelis com frases soltas do filme de 1982. Yup, é isso mesmo: enquanto trabalho, ouço Vangelis misturado com as vozes de Harrison Ford e Sean Young. Que pan-ca-da. True. Posto isto, o Blade Runner de Ridley Scott é claramente um dos meus filmes preferidos. O ambiente de 2019, o estilo Lucky Luke de Harrison Ford, a música de Vangelis, a chuva miudinha constante, as piruetas da Daryl Hannah, o emotivo “like tears in rain” do Rutger Hauer, o picante “is this testing whether I’m a Replicant or a lesbian, Mr Deckard” da Sean Young. Tudo é sensorial.

Passam-se 35 anos e eis-nos de novo a saltar para um futuro distante, o de 2049. Perguntas mais que óbvias: o filho do Ronaldo vai dar alguma coisa no futebol? Aquele programa “Danças do Mundo” já é “Ganzas do Mundo”? O concurso da Miss Universo já foi ganho por alguma representante fora do planeta Terra? Enquanto as respostas andam perdidas no espaço e no tempo, palmas para Denis Villeneuve. O realizador franco-canadiano agarra-se ao projeto one-of-a-kind e sai-se com notável distinção. É uma sequela daqui (e estou neste preciso momento a segurar o lóbulo da orelha direita com o polegar e o indicador).

O tempo avança 30 anos e tudo continua nublado, quase tóxico, definitivamente asfixiante: a chuva, a neve, o oceano, a paisagem, os prédios, os personagens e os diálogos. Subsiste a dúvida interior do herói sobre a sua condição: humano ou Replicant? O caminho da verdade é tricky, daí que Ryan Gosling (Officer K) passa o tempo todo dividido, qual bola de pinball indecisa a bater naqueles elásticos laterais. Pelo meio, o polícia de Los Angeles vai à procura de Harrison Ford (Deckard), desaparecido há precisamente 30 anos, para resolver um dilema que provocará um caos ilimitado na já fragmentada sociedade mundial. O encontro dos dois é um acontecimento, em tons alaranjados. Há uma épica troca de murros — um deles atinge Ryan com tanta força que a filmagem é interrompida para entrar o massagista em campo. Que cena. Literal e metafórico. Sem perder a compostura, Ryan diz de sua justiça: ‘É uma honra levar um soco do Indiana Jones”.

Bom, adiante. Porque isto do “Blade Runner 2049” inclui mais substância e encanto com a presença feminina da cubana Ana de Armas (Joi), um holograma HD a fazer marcação cerrada a K. Um pouco à imagem de Robin Wright (Joshi, sua superior hierárquica na LAPD) e ainda Sylvia Hoeks (Luv, a número 2 da empresa Wallace, fabricante de Replicants em massa).

E o número um dessa estrutura, quem é? Ladies and gentlemen, Jared Leto. Para interpretar Niander Wallace, um homem de negócios bem sucedido, sem escrúpulos e cego, usa lentes de contacto especiais e faz-se acompanhar sistematicamente de David, um deficiente visual. Resultado? “Raramente vi o Harrison Ford”. A queixa de Leto é cómica. Ou não fosse proferida no Comic-Con em San Diego. Curiosamente, San Diego faz parte do filme de duas horas e 43 minutos como porta de entrada para as memórias mais antigas de K, ainda como miúdo de tenra idade a fugir dos mais velhos com um cavalo de madeira na mão. Memórias reais ou implementadas num chip? Synchronise watches, já só falta um dia. Até lá, é viver ainda em 2019.