opinião

Crítica: “Arranha-Céus” é grande mas não é lá grande coisa

Dwayne Johnson é o protagonista de “Arranha-Céus”, num desafio corajoso à lógica, leis da gravidade e às suas capacidades de representação.

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É difícil não ficar impressionado com o ritmo de Dwayne Johnson. O wrestler-feito-ator-e-produtor tem 38 filmes no bolso desde 1999, contando com as aparições secundárias, e dez para sair. É obra. Infelizmente, The Rock usa a quantidade para compensar a falta de qualidade, visto que a grande maioria dos seus filmes são fraquinhos.

Apesar de ser um dos grandes action heroes do século XXI, Dwayne Johnson perde em toda a linha para os homólogos dos anos 80: Sylvester Stallone brilhou em “Rocky” e em “Rambo: A Fúria do Herói”; Arnold Schwarzenegger superou as expetativas em “Total Recall – Desafio Total” e “Predador”, Van Damme teve o épico “Força Destruidora” e Bruce Willis foi inesquecível em “Die Hard – Assalto ao Arranha-Céus”. Quanto a Dwayne Johnson, fica-se pelo pobre “Arranha-Céus”. Que, comparando com o do filme de John McTiernan, não parece ter mais de dois andares.

Em “Arranha-Céus”, o ator interpreta Will Ford, um ex-marine (e ex-FBI) que se retirou depois de um acidente que lhe levou a perna esquerda, e que trabalha agora como especialista de segurança. Will é contratado para trabalhar no maior edifício do mundo, na China, levando para lá a esposa (Neve Campbell, que tem aqui um merecido regresso ao cinema) e os dois filhos. Depois de uma visita guiada às maravilhas tecnológicas do arranha-céus, Will vê-se metido num golpe elaborado de motivos misteriosos e é incriminado por um incêndio que ameaça destruir o edifício. Como não poderia deixar de ser, a pobre família de Will está também presa num dos andares superiores, por isso, o veterano terá que encontrar a maneira mais espetacular de entrar no arranha-céus, despachar os vilões e salvar os entes queridos.

Tudo aqui em “Arranha-Céus” é produzido de um modo genérico, embora competente. A realização parece feita a meias entre Rawson Marshall Thurber e um exército de realizadores assistentes, com todas as cenas a serem filmadas com pelo menos três câmaras. A edição segue religiosamente o manual de normas de Michael Bay (“Transformers”) — é raro haver um plano com mais de 5 segundos. A banda sonora tem a qualidade de um álbum sem direitos de autor e o argumento diverte-se a espaços com as situações absurdas que vai plantando ao longo do filme. Como o diálogo de uma personagem que faz notar que havia maneiras mais fáceis de matar alguém em alternativa a invadir e incendiar o edifício mais alto do mundo, ou o momento em que Dwayne Johnson repara numa grua relativamente perto do arranha-céus e decide num instante que sim, é mesmo isso que ele vai fazer. Essa sequência é a única parte memorável de “Arranha-Céus”, pela possibilidade de provocar os espectadores com vertigens. Isso e, claro, o uso criativo que Will Ford vai dando ao seu membro artificial: num filme cheio de tiros, Dwayne Johnson consegue usar mais a prótese de perna que qualquer arma de fogo. Fica-lhe bem.

O melhor elogio que se pode fazer a “Arranha-Céus” é que tem noção do que é: o suficiente para desligar o cérebro durante hora e meia — se é isso que procuram num filme — mas que se evapora da memória em menos de 24 horas.