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“Casados à Primeira Vista”: O inseguro, a surda e o tipo que é “feio que nem trovões”

O cronista e humorista Miguel Lambertini analisa o último episódio do programa da SIC.
António e Lurdes são o casal geração X.

Depois da tão esperada estreia, onde não faltou amor mas essencialmente ódio à primeira vista, no último episódio de “Casados à Primeira Vista” ficámos a conhecer novos matches e alguns momentos da lua de mel dos restantes casais. Nunca é demais referir que eu não sigo os compactos emitidos ao longo da semana, porque a essa hora estou a ver o “Preço Certo” em homenagem à minha avó que não perdia um e sempre me disse: “Tarde sem Lenka, noite de encrenca”. É tramado fazer uma rima com o nome Lenka, mas já era altura de alguém tentar.

Dito isto, a análise que aqui deixo nas próximas linhas baseia-se inteiramente nas imagens apresentadas no episódio deste domingo, 20 de outubro. Na Turquia, a lua de mel da Ana Raquel e do Paulo continua de vento em popa. Isto, claro, se o vento estiver a levar a embarcação diretamente contra uma parede de rochas. Logo quando chegaram ao quarto de hotel, Raquel detestou a cama decorada com pétalas e balões em forma de coração. A senhora até tem razão: aquilo era bastante piroso, mas também não precisava de reagir como se estivesse o Erdoğan todo nu à espera deles em cima dos lençóis. Bem, mas com o nível de exigência que a Ana Raquel tem, até podia estar o Brad Pitt deitado na cama todo nu com chantilly nas partes baixas que a senhora ia detestar na mesma.

Já a irmã de Ana Raquel foi para o Quénia com o seu novo marido, Hugo, e nem as imagens bonitas de felinos a acasalar, ou o pôr do sol africano, foram suficientes para despertar a química entre o casal. Pelo contrário, o casalinho fofinho desta edição, a Liliana e o Pedro, continuam demasiado in love e nem o facto de Liliana se ter vomitado toda na viagem de avião para a Ilha Maurícia fez com que o Pedro deixasse de querer beijá-la a cada três segundos.

O casal Tinder desta edição, Marta e Luís, foram passar a sua lua de mel às Maldivas. A jornalista e o fisiologista (o que quer que isso seja) conheceram-se online e sobre essa experiência Marta comentou: “Foi uma noite simpática, agradável e depois cada um foi à sua vida”, que é o mesmo que dizer “perdi quatro horas da minha vida e nem sequer pinámos.” Quando soube que o casal já se conhecia, Diana Chaves atirou para a multidão: “Talvez seja o destino a querer juntar-vos”. Claro, então não é, ou é isso ou é o destino a dizer “parem de tentar juntar casais, vocês não têm jeito para isto!” Mas se calhar estou a ser demasiado exigente, porque como disse o Dr. Alexandre Machado: “O nosso trabalho está feito. Agora só depende mesmo é do fator humano, aquele fator que é imprevisível”. Pois, realmente é pena este concurso ser feito com humanos, porque se fosse para juntar sapatos tenho a certeza de que ia ser um sucesso.  

Vamos então conhecer quem são os novos sortudos que agora passam também a poder fazer presenças em discotecas no Algarve e a ter a sua vida devassada na capa das revistas cor-de-rosa. 

Lurdes e António: o casal Geração X 

António tem 65 anos e Maria de Lurdes, 54. São o casal Geração X, um género de Graça e Zé Luís parte II. Ele é aposentado e vive na Parede, ela está desempregada e vive na Póvoa de Santa Iria. Acreditam que nunca é tarde para amar, claro. Aliás deve ser obrigatório dizer esta frase quando se participa num dating show e se tem mais de 50 anos. “Nunca é tarde para amar”, “a vida já me trouxe muitas surpresas”, e “ele não tem nada a ver comigo, foda-se” são as minhas frases favoritas, mas da Ana Raquel já falámos.

No dia do casamento, António ficou de imediato positivamente surpreendido com a noiva, mas pareceu-lhe que o sentimento não era retribuído. “Ficou muito desiludida?”, pergunta meio a medo, quando estão a sós na sessão fotográfica. Lurdes não percebe, talvez por não ter ido ainda à Minisom fazer o seu teste de audição e responde: “Como é a minha vida?” Prevejo aqui algum potencial de humor estilo “Trapalhões em Portugal” para os próximos episódios: ”Vamos visitar esta adega?” “Não, eu não uso Corega”… “Arô comadre Marcela, é eu Severina”. António tem a auto-estima de uma chinchila de laboratório e bastou a primeira meia hora de casado para achar que a sua mulher o detesta e que ele não é suficientemente bom para os parâmetros de Lurdes. 

Já a madrinha da noiva ficou muito desconfiada quando António entrou e disse para a amiga: “Eu conheço este homem… não sei de onde mas eu conheço-o”. Na cabeça da senhora, aquele indivíduo que estava ali prestes a casar com a sua amiga Lurdes era quase de certeza um traficante de órgãos ou algo igualmente perverso, porque ela conhecia aquela cara de algum lado e coisa boa não era, provavelmente de um Alerta CM. Ao que parece António participou no programa “O Carro do Amor”, por isso a senhora não estava enganada, mas lá ficou um pouco mais tranquila porque o único órgão que António poderá roubar a Lurdes é o coração. ALERTA PIROSADA.

Anabela e Lucas formam um dos novos casais.

Anabela e Lucas: “Ele é feio que nem os trovões”

Anabela tem 32 anos, vive na Serra d’Aire e tem um toquezinho de Blaya. Trabalha como empregada de mesa e frequenta um curso de cabeleireira. Já foi casada mas não guarda boas lembranças da relação. Já Lucas, de 30 anos, é barbeiro no Seixal. Cresceu numa comunidade mórmon e esteve a viver dois anos em Moçambique. Um dos critérios para os especialistas juntarem este casal foi o facto de ele ser barbeiro e ela estar a fazer um curso de cabeleireira. Neste momento os nossos amigos doutores já estão por tudo. É tentar até dar, alguma coisa há de funcionar! “Olha, este candidato daqui é viciado em ansiolíticos, eu propunha juntá-lo com esta candidata que é farmacêutica. Acho que tem tudo para dar certo.” Segundo Lucas, os seguidores da religião mórmon não podem beber álcool, nem café, e sexo só pode haver depois do casamento. Também não podem ter tatuagens mas, apesar de ir contra os princípios da igreja, Lucas não quis saber e tatuou o seu corpo. Atendendo a que o Lucas tem 30 anos, estou em crer que é capaz de haver mais uma ou duas regras que o barbeiro não cumpriu, tipo beber café.  

Quando chegou ao altar, Lucas foi escrutinado da cabeça aos pés pela futura sogra, num momento de simpático enxovalho. “É pequeno!”, diz indignada a mãe da noiva. “Se calhar tem a pilinha grande”, comenta a madrinha. Quando a amiga diz que o noivo se chama Lucas a mãe pergunta “mas ele é brasileiro?” E diz um dos amigos: “Pelo menos não é chinês”. Este comentário nem sequer fez sentido, é só mesmo aquela tirada xenófoba para participar na conversa. E acrescenta a madrinha: “É um bocadinho barrigudo também”.

Coitado do Lucas, há trinta anos sem saber o que é o prazer de um bom café logo pela manhã e agora ainda tem de levar com estes comentários em plena televisão nacional. Mas o remate final foi a apreciação da mãe da noiva quando Lucas se vira no altar: “Ele é feio que nem os trovões.” Que exagero. O rapaz não é assim tão feio, só precisa de dar uma poda de motosserra ali nas sobrancelhas e fica impecável. No fim da cerimónia, Lucas quis dar um beijo na boca à mulher, mas Anabela preferiu baixar a cabeça e acabou por receber o beijo na testa. “E já vais com muita sorte”, diz a mãe da noiva com ar sobranceiro. Sim, tudo bem que a tua religião permite sexo depois do casamento, mas calma, não é logo ali, Lucas.