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“Casados à Primeira Vista”: Ana Raquel e a cobiça do homem alheio

O cronista e humorista Miguel Lambertini analisa o último episódio do programa da SIC.
Ana Raquel levou outras candidatas para o "dark side".

No terceiro episódio grande de “Casados à Primeira Vista”, transmitido este domingo, 27 de outubro, na SIC, assistimos aos últimos dias de lua de mel dos casais e ao seu regresso a Portugal. Todos ficaram a conhecer aqueles que serão os seus novos lares nos próximos tempos — e todos percebemos que serão tempos não muito extensos, tendo em conta o nível global de atritos que já atingiu a magnitude de 6.5 na escala de Gisela, do “Masterplan”.

O grupo conheceu-se pela primeira vez num jantar em que o chef teve dificuldade em servir pratos quentes porque sempre que chegavam à mesa arrefeciam imediatamente com o olhar gélido da Ana Raquel. Foi também uma noite de primeiras impressões, onde ficámos a perceber algumas cumplicidades entre os participantess, como o facto de o Pedro falar mais que todos os homens juntos desta e da temporada anterior e de a Liliana comer de boca aberta. Há lá coisa melhor para fazer num serão de domingo do que ficar a ver estas personagens? Só acho é que abusam um bocadinho dos efeitos sonoros, com tambores e ruídos metálicos estridentes cada vez que querem dar emoção à coisa — isso acaba por ser um bocado incomodativo. É que se eu quisesse ver o programa como se estivesse dentro de uma oficina, tinha feito uma marcação para a Midas. Parem com isso, pode ser?

Anabela e Lucas: a religião mórmon devia proibir adereços ridículos

Na sua lua de mel na Tailândia, o casal parece estar a dar-se bem, com troca de carícias e beijinhos pelas ruas de Banguecoque. Mas na segunda parte da viagem a relação começa a esfriar e Lucas queixa-se: “Não sei se é da rotina, de estarmos 24 horas juntos…” Já Anabela parece estar satisfeita, desde que Lucas continue a garantir que ela tem fotos com poses à frente de Budas gigantes para postar no Instagram.

“O Lucas está a ser um bom fotógrafo”, diz com ar satisfeito. Coitado do Lucas, pensava que se estava a inscrever no “Casados à Primeira Vista” e afinal saiu-lhe o “Like Me”. Sugiro fazer um minuto de silêncio por todos os namorados e maridos de influencers por esse mundo fora que sofrem com este trabalho escravo e desumano. Força, não se deixem ir abaixo. O truque é nunca dar opinião sobre a foto mas esperar que ela diga qual é que acha melhor. “Gostas mais de qual? Não sei querida, destas 130, de qual é que tu gostas mais? Humm, talvez esta aqui, com o sol a bater. Era mesmo essa que eu estava a pensar, isso é foto de capa, mor”.

Anabela e Lucas estão com alguma crise.

Entretanto, para tentar espicaçar ainda mais o casal, a produção envia um envelope com uma questão a que devem responder: “Como é que é o teu lado mais sensível e frágil?”. Lucas, que enverga um chapéu de palha em bico e uns óculos com lentes cor-de-rosa em forma de coração, recusa-se a responder porque acha que há questões que são mais adequadas às mulheres. É uma pena a religião mórmon proibir tatuagens mas não proibir a utilização de adereços ridículos. 

“Ele tem ali qualquer coisa contra as mulheres, que eu ainda não percebi”, diz Anabela. E acrescenta: “Eu pergunto-me: será que o Lucas tem a noção que se queria casar com uma mulher?” Não tenho dúvida nenhuma de que o Lucas queria casar-se com uma mulher, até porque não há melhor forma de arranjar maquilhagem, vestidos e adereços femininos à borla do que passar a partilhar casa com uma mulher. 

Ana Raquel e Paulo: “Tudo o que tens de bom no interior não é importante para mim”

Na sua lua de mel na Turquia, Ana Raquel continua a rejeitar o marido. “Ele já viveu meio século e eu ainda estou nos quarenta”, diz indignada, como se o marido fosse um velho caquético que se meteu com ela, uma teenager inocente, na fila para o autocarro. Paulo convida a mulher para ir um pouco à praia, mas Ana recusa e diz, peremptória: “Comigo não!” As primeiras palavras que os meus filhos aprenderam foi “papa” (embora eu tenha tentado vender que era na realidade papá) e “não”. No fundo, são as duas coisas que as crianças precisam de saber quando chegam ao mundo: “papa”, que é bom; e tudo o resto que não é “papa” e é mau, que se traduz no vocábulo “não”. Como é o que eles mais ouvem, há uma fase em que estão constantemente a dizer “não”, mesmo quando querem dizer “sim”. Depois tendem a crescer e acabam por enriquecer o seu léxico com outros advérbios, substantivos e adjetivos mais complexos, até chegarem à adolescência e passarem novamente a utilizar um discurso monossilábico, como “ya, meu puto”. Ana Raquel é capaz de sofrer do complexo de Peter Pan e, por isso, ficou retida na fase do “não”, o que faz com que ao longo destes três programas tenha proferido uma média de 750 “nãos” por episódio. 

“Tudo o que tens de bom no interior não é importante para mim.” A Ana Raquel preferia que lhe tivesse calhado um assassino psicopata lindo de morrer na casa dos 30 do que um homem decente com mais de 50 anos. Já na casa nova, cada um mostra os objetos pessoais que trouxe. Ana Raquel, na sua eterna negação, trouxe essencialmente roupa, já Paulo levou um tabuleiro de xadrez, com uma caixa antiga em veludo mas com um aspeto incrível. Claro que a pirralha da Ana Raquel tinha de ser do contra e dizer que não gosta de xadrez, “porque é um jogo de raciocínio e eu não estou aqui para raciocinar.” Fiquei só na dúvida se seria, aqui no programa ou aqui na vida mesmo?  

Marta e Luís: o casal cool onde tudo é awesome

O casal cool do programa terminou a lua de mel nas Maldivas em clima de romance e nem os óculos escuros da Marta com lentes redondas que a fazem parecer a Yoko Ono fizeram esmorecer o interesse do Luís. O ex-emigrante na Austrália está a achar a experiência completamente awesome, embora tenha medo que aquela química entre os dois seja apenas fruto do espírito de fairy tales do resort de luxo nas Maldivas, onde foram instalados pela produção do programa. Ao que parece, Luís tem um problema com diminutivos, um issue, no fundo, e não consegue dizer as palavras sem pôr um “inho” no fim, o que enerva Marta. No entanto, o facto de esta falar como se estivesse em direto para o Jornal da Noite não incomoda Luís, que é um paz de alma. Um Pázinho de alminha. 

São o casal cool da temporada.

António e Lurdes: chapéus há muitos — e custam todos mais de 20€ 

A relação entre o casal sénior do programa está muito tremida, ao ponto de ter havido troca de acusações na lua de mel. António teve de emprestar dinheiro a Lurdes, que quis comprar um chapéu de 20€, o marido não concordou e ficou irritado com o dinheiro que a mulher gastou. “Não gosto de ser chulo nem otário”, disse para as câmaras. Percebo o ponto do António, hoje gasta 20€ a comprar um chapéu para a mulher, amanhã ela vai querer que ele lhe pague um jantar ou ofereça uns brincos da Bimba y Lola. Não senhor, então mas o que é isto? Casados, sim, mas com separação de bens, que o António não está interessado em esbanjar a sua fortuna milionária por nenhuma mulher.

No restaurante, Lurdes não quer dar a mão a António porque acha que ele é antiquado. Não sei onde é que Lurdes foi buscar esta ideia estapafúrdia. “Eu não vejo nada em ti que me desperte interesse”, diz Lurdes. “És interesseiro, forreta, frustrado e mal amado”. António não se fica e contrapõe: “És vazia, não tens conteúdo.” Como António tem uns olhos muito pequeninos não percebi se estava a falar de Lurdes ou da garrafa de vinho que estava na mesa. “Também não te vou fazer chorar”, acrescenta, ao que Lurdes responde prontamente: “Ai não vais não, levavas um soco nessa cara que até andavas de lado.” Corta para cena dos especialistas no primeiro episódio a juntar os casais e a dizer: “A Lurdes e o António são um match perfeito”. #risos

Inês e Hugo são uma espécie de André Ventura e Joacine

A Inês e o Hugo são o casal boa onda desta temporada. Têm tanta chance de se envolverem romanticamente como o André Ventura e a Joacine Katar Moreira, mas dão-se bem como amigos. Já na nova casa, Hugo mostra os itens pessoais que levou na sua mala. “Sabes o que é isto?”, pergunta à mulher que reconhece o objeto como sendo uma almofada para se sentar nas bancadas de um estádio. Hugo explica: “Pois mas esta é para ir ver touradas”. Inês parece lidar bem com isso. Sim, foi uma piada tauromáquica.

O casal prepara um jantar para a irmã Ana Raquel e o seu novo marido para poderem contar as suas experiências nas respetivas luas de mel. Ana Raquel detesta o jantar, claro, mas parece pela primeira vez apresentar alguma evidência de que não é um icebergue e até se riu durante o encontro a quatro. Quando Inês comenta que tem uma cumplicidade e estão a aproveitar a experiência ao máximo, Ana Raquel não se contém e sai-se com a frase: “Que giro, que fofinhos”, embora faça ao mesmo tempo uma cara de quem acabou de comer duas taças de Nestum com vómito.

Ana afirma durante o jantar que não gosta de surpresas, e por isso confessa que não percebe porque é que se inscreveu neste programa. Provavelmente quando lhe perguntaram se queria inscrever-se disse “não”, mas toda a gente pensou que era por estar nessa fase da vida e na verdade queria dizer sim.

Lurdes e António trocaram insultos.

Pedro e Liliana: nem o Frodo perdeu o anel

Pedro continua muito apaixonado pela sua nova mulher Liliana. Sendo que ao fim de dois dias de lua de mel, perdeu a aliança de casado. Digamos que não é grande presságio, mas, pronto, pode acontecer a qualquer um, principalmente se esse qualquer um for mega excitadinho e não parar quieto um segundo. No último dia da lua de mel, ao ver o pôr do sol junto do mar, Pedro pergunta a Liliana: “Queres namorar comigo amanhã?”. Silêncio total, só não se ouviram grilos porque até esses ficaram embaraçados com o momento, e Pedro diz: “Aceito como um sim”.

O Pedro é o oposto da Ana Raquel, para ele tudo é “sim”, e se calhar por isso é que os opostos se atraíram, mas já lá irei. Ainda na lua de mel Liliana ofereceu um porta-chaves ao Pedro e este ofereceu um anel noivado, o que é burro, porque se há alguma vantagem em casar sem conhecer a noiva é que pelo menos não tens de gastar dinheiro num anel de noivado. Não percebem nada disto…

O primeiro jantar de grupo

O primeiro casal a entrar na sala foi o Hugo e a Inês, mas nesse momento mostraram também imagens dos especialistas e da Diana Chaves na sala ao lado e eu fiquei ofuscado pelos brincos da apresentadora — pareciam uns olhos de vidro a baloiçar num trapézio de circo e sempre que ela aparecia desconcentrava-me a atenção. Não sei como é que a Diana conseguiu aguentar aquelas duas mini esculturas nas orelhas, mas tiro-lhe o chapéu. 

Depois de Inês e Hugo, chegou a vez de Paulo e da mana Ana Raquel, que entrou como se fosse pegar um touro. Felizmente, o Hugo é um homem precavido e deve ter levado a almofadinha, já a imaginar que ia haver festa rija.  

Liliana e Pedro foram o terceiro casal e aqui houve espaço para mais um conjunto de ruídos estridentes como se o Freddy Krueger estivesse prestes a entrar na sala com uma bandeja de canapés. Desta vez os ruídos do inferno acompanharam uma edição de imagens que saltava entre as caras da Ana Raquel e do Pedro, como que a dizer: “reparem telespectadores que há aqui potencial para marosca marota entre estes dois”. Devo dizer que já está um pouco batida essa fórmula do engate adúltero, recordo que também nos tentaram vender isso com o Dave e a Ana e depois não deu em nada! Por isso não se ponham a dar-me falsas esperanças de ver peixeirada e gritaria, se depois não se concretiza em nada.

Entretanto, Lucas e Anabela entram e integram-se bem com o restantes participantes. Seguiram-se Lurdes e António, que ficou triste por constatar que os restantes casais eram de uma faixa etária mais jovem e ele era “o mais idoso”. Ou seja, ficou preocupado que a juventude se pusesse a beber copos à maluca e depois tivesse de ser ele a pagar a conta no fim. Não, meus meninos, nem pensem, porque o António pode ser forreta e mal amado, mas não é chulo nem ótário, hein?

Por outro lado, Liliana, embora com algum receio de poder transformar-se numa estátua de gelo, arrisca aproximar-se de Ana Raquel e pergunta: “É impressão minha ou estás assim um pouco desgostosa?” Ana Raquel responde, fingindo um ar surpreendido: “Nota-se assim tanto?” Eh pá, não, Ana Raquel, quase não se percebe, não fosse teres esmagado um copo de vidro com a tua mão e teres dito 30 vezes na última meia hora que o Paulo é velho,  quase que não se notava a tua vontade de entrar de rompante na sala ao lado e degolar os especialistas.

O último casal foi Luís, e Marta, que surgiu determinada, como se estivesse prestes a entrar em direto da Casa Branca. A especialista Cris Carvalho sentiu alguma tensão na sala e notou que Liliana demonstrou no olhar que se sentia ameaçada pela presença de Marta. Entretanto, já na mesa, Pedro estava em mega excitação e Lucas só se ria. Não sei porquê, mas dá-me ideia de que a parte das drogas não serem aceites pela sua religião também foi uma regra que o Lucas descurou. 

No final do jantar percebemos que Lurdes, Anabela e Liliana fizeram uma troika de negativismo, todas a cascar forte e feio nos seus maridos, para contentamento da Ana Raquel, que, com a sua aura negra durante toda a noite, conseguiu arrastá-las para o dark side dos Casados. A aveirense fecha o episódio com uma revelação: “Há ali uma pessoa com a qual eu me identificaria, mas não vou dizer quem é…” Sim Ana Raquel, vamos deixar a surpresa para o próximo episódio que neste já esgotámos a quota de barulhinhos estridentes de acordar um perdigueiro a dois quilómetros de distância.