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“Cai a Noite em Caracas”: como fugir à desumanização

A cronista da NiT, Filipa Martins, escreve sobre o romance de estreia de Karina Sainz Borgo.
Uma obra importante.

“Naquele dia pari-me”. É desta forma que a protagonista de “Cai a Noite em Caracas”, o romance de estreia de Karina Sainz Borgo (Alfaguara – Penguin Random House, 2019), sintetiza a metamorfose que vivenciou. A obra conta a história de Adelaida, que, para abandonar a realidade que a esvaziava de si própria, preparar a fuga de uma Venezuela entregue ao caos e à morte e, como diz, parir-se, tem de assumir a identidade de uma cidadã espanhola falecida.  Tratou-se – efetivamente – de um segundo nascimento, não apenas de uma renovação de pele.  Adelaida desnasceu, num processo inexorável de desumanização que a empurrou para a franja do humano: enterrou a mãe, perdeu a casa, temeu pela vida, roubou a comida, o teto, o dinheiro e a história a um cadáver. A isto foi obrigada pelo contexto, vivendo num país dominado por um ditador, com as ruas a saque, onde imperava a violência e a extorsão, e sem acesso a bens de primeiro necessidade vendidos no mercado negro.

Karina Sainz Borgo, jornalista natural de Caracas a viver em Madrid, é fiel ao nome da capital Venezuelana, mas fica por aí nas referências. A obra não nos revela um tempo preciso, não atribuí nome ao ditador no poder e reinventa a nomenclatura das milícias que impunemente dominam as ruas e esmagam a população pela fome, a violência e o medo. Porém, a autora não nega que a obra é uma forma de expiar os fantasmas da sua relação com o seu país de origem e as notícias que nos chegam corroboram as semelhanças entre ficção e realidade, tornando “Cai a Noite em Caracas” numa alegoria precisa sobre os malefícios do poder totalitário.