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“Botched”, o programa que transforma zombies em modelos de revista

O humorista e cronista Miguel Lambertini escreve sobre o programa que é transmitido diariamente pela SIC Caras.
Terry Dubrow é um dos cirurgiões do programa.

Há zombies em “The Walking Dead” com melhor aspeto do que alguns dos pacientes de “Botched”, transmitido diariamente na SIC Caras. O consultório dos cirurgiões plásticos Terry Dubrow e Paul Nassif é a última gota de esperança para criaturas que fazem a figura do quadro “O Grito” de Munch, parecer o Brad Pitt.

Por falar em pintura, a melhor analogia para as situações retratadas em “Botched” talvez seja a história viral do quadro “Ecce Homo”, alterado por uma idosa em Saragoça que, ao tentar restaurá-lo, danificou de forma irreparável a obra do século XIX. No fundo a intenção era boa, mas o resultado final acabou por ser desastroso (embora divertido). A maior parte dos que procuram ajuda neste programa também partiram do mesmo princípio: “vou só dar uma de mão aqui na cara, sem gastar muito e ninguém vai topar nada”.

Passado um mês descobrem que ficaram com a cara de um desenho animado japonês, ou que no sítio onde era suposto haver dois seios firmes e redondos, há agora uma escultura moderna do Cutileiro. O problema destas pessoas foi terem achado que fazer uma operação plástica era o mesmo que ir àquela oficina bate-chapas no Cacém que é muito mais barata do que ir à marca e no fundo “vai dar ao mesmo, porque o que interessa é a pintura ficar bonitinha”. Isto, claro, é uma boa opção apenas para pessoas como eu, que não ligam muito ao aspecto exterior e têm um carro com mais de dez anos e umas pequenas amolgadelas que são como as rugas de expressão, cada uma conta a sua história (de road rage).

Aliás, normalmente quando vou ao mecânico com o meu carro já interiorizei que há uma forte probabilidade de ser enganado, porque eu não percebo patavina de motores e por isso basta que ele fale em nomes de peças que eu nunca ouvi na vida, tipo a polia da cambota (que podia perfeitamente ser o nome do novo álbum do Sérgio Godinho) ou que eu tenho uma avaria, sei lá, no jato do escafandro, que eu vou acreditar.  “Ui, xô Miguel, você tá com o escafandro todo entupido pá… isto mais uns tempos assim e o meu amigo dava cabo da sua cinta de orion…” Ora, quando se escolhe a oficina do “xô Nunes” para poupar, não nos podemos queixar do resultado final, da mesma forma que quando os pacientes de “Botched” optaram por um cirurgião em Marrocos, não podem protestar quando acordaram com duas bossas em vez de mamas de silicone. “Botched”, que pode ser traduzido como “estragado”, procura não só expor os estragos de intervenções mal sucedidas, mas também perceber qual a possibilidade de as remendar, por muito ínfima que esta pareça.

É o caso de Elmira, uma jovem de origem iraniana a viver nos EUA, que estava muito desgostosa com o resultado da sua operação plástica ao nariz. Então não é que depois da cirurgia, o nariz de Elmira ficou com pior aspecto do que estava originalmente, sendo que nada o faria supor tirando talvez apenas o simples pormenor de que o médico que a operou ser o seu dentista… Elmira foi tirar os dentes do siso e o médico que notou que ela tinha o septo nasal desviado sugeriu operar-lhe também o nariz. Eu já tinha ouvido falar que a anestesia nos dentistas dos Estados Unidos dava uma moca valente, há até um vídeo viral com o puto que vem do dentista e parece que tomou meio quilo de metanfetaminas com chocapic, mas ao ponto de aceitar fazer uma rinoplastia, já é demais. Felizmente Terry Dubrow e Paul Nassif — uma versão canastrão da série “Nip Tuck” — não deixam passar um bom desafio e aceitaram operar Elmira.

Os cirurgiões desenharam, como é habitual, aqueles tracinhos a caneta azul no rosto de Elmira, um procedimento fundamental porque sem esse tracejado sabe Deus como é que eles iriam saber onde espetar o bisturi e tiraram um pedaço de cartilagem da costela da jovem que usaram para reconstruir o nariz. Curiosamente uma prática semelhante à que eu fazia com as Barbies da minha irmã, quando lhes arrancava um braço e substituia pelo de um GI Joe. Elmira ficou muito feliz com o seu novo look e prometeu nunca mais fazer intervenções estéticas sem ser com profissionais especializados. O seu dentista continua a tirar sisos e a fazer rinoplastias e instalações de fibra ótica aos fins de semana. Já eu, hoje fico por aqui porque tenho de ir renovar o cartão de cidadão e quero aproveitar para pedir à senhora da loja do cidadão para me tirar um sinal que me apareceu aqui no ombro…