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A biografia de Agustina Bessa-Luís que a família não queria e o leitor aplaude

A cronista da NiT escreve sobre o livro "O Poço e a Estrada", escrito por Isabel Rio Novo.
Filipa Martins é cronista da NiT.

O Poço e a Estrada (Contraponto, 2019), uma biografia de Agustina Bessa-Luís escrita pela romancista Isabel Rio Novo, é, já no título, um piscar de olho à obra da autora de “A Sibila”.

Finalista do Prémio LeYa com os seus dois últimos romances, “Rio do Esquecimento” e “A Febre das Almas Sensíveis”, Isabel Rio Novo consegue reunir nesta biografia as características de uma grande romancista e o método do discurso académico e historiográfico.

O retrato de “O Poço e a Estrada” é múltiplo, explorando velhos mitos em torno desta figura maior da cultura portuguesa e destronando outros. À figura doméstica e conservadora, vista como proto-reacionária no pós-25 de Abril, Rio Novo contrapõe uma mulher complexa e polémica, capaz de levantar a voz num contexto adverso e masculino, impermeável a juízos de valor e feminista na linha de pensamento.

Sabemos que a família se distanciou da pesquisa da autora, vedando o acesso a informação e transformando o livro numa biografia não autorizada. Esta posição dos familiares de Agustina terá, todavia, levado Isabel Rio Novo a um sublinhado empenho na investigação, separando a especulação da intuição e do facto. Com a certeza, porém, de que todo o discurso — mesmo o histórico e biográfico — é uma narrativa e, por conseguinte, uma versão.

O que Isabel Rio Novo nos oferece não é um trabalho hermético, pretensioso ou doutoral, mas não deixa, ainda assim, de ser rigoroso e sistemático. Prova disso são as dezenas de páginas de notas que abrem, só por si, novas sendas de pesquisa. Garantidos estão o gosto de contar e o saber contar, que faz com que o galgar de páginas seja feito com deleite.