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Barnes e uma história de encantar com epílogo de réquiem

A cronista Filipa Martins fala sobre o livro "A Única História", de Julian Barnes.
Filipa Martins lê Julian Barnes.

“Preferia amar mais e sofrer mais; ou amar menos e sofrer menos?” É este o arranque que Julian Barnes nos oferece em ‘A Única História’ (Quetzal, 2019). Uma espécie de tautologia em que amor e sofrimento são uma função linear e o amante é o corpo despido exposto, sem proteção, ao clima de um país estrangeiro.

O amor que Barnes nos serve, entre um jovem de 19 anos e uma mulher casada de quarenta e muitos, é extraído dos romances clássicos que lemos na escola. Uma amor que se instala como uma verdade absoluta a que só uma alma virgem, sem tropeços ou mágoas passadas, se pode sujeitar sem puxar freio.

Compreender o amor será sempre para mais tarde, “compreender o amor raia o sentido prático, compreender o amor é para quando o coração arrefece”, diz-nos o autor.

Este é o primeiro amor, aquele que é alheio à dureza do colchão, à temperatura da água, à qualidade do sexo ou à beleza da paisagem que rodeia os amantes, é o amor – e perdoem-me o auto-plágio  – para muros virgens antes de qualquer fuzilamento.  É também um território de terror porque é um território de limite e perigo, do qual o experimentado foge e no qual o néscio embarca em deleite. É o amor pleno, que o autor garante só poder ser vivido uma vez por incluir um desfloramento irrevogável.

Barnes, como é de seu hábito, faz-nos volver a última página do livro com o amargo do réquiem no palato. Ao contrário dos romances clássicos, que findam com os amantes vencidos pelo contexto que lhes tira a vida ou sucumbindo ao amor na sua essência mais concentrada, o autor mostra-nos da forma mais cruel como o dia-a-dia torna a explosão amorosa lenta e arrastada, antecipando a deformidade do fim.

Serve de consolação a certeza de que será a exposição ao limite que definirá a vida do amante e o acompanhará até à morte, nessa partilha que os amores impossíveis e a morte têm na eternidade.  Bravos são aqueles que, já tendo sentido muito, se expõem como desnascidos.