OPINIÃO

O Hip Hop dos Língua Franca salvou a noite do pior concerto da minha vida

A crónica de um roqueiro no dia do Super Bock Super Hip Hop.

Os salvadores da noite.

Ao longo da minha vida fui muitas vezes acusado de “não perceber o hip-hop”. Todos os que fizeram esta abjecta e caluniosa acusação estavam completamente certos (eventualmente percebi que estavam a citar Sam The Kid). Devo por isso avisar-vos à partida de um pormenor importante: sou um roqueiro. Se já leram qualquer coisa minha já devem ter percebido isso; se não leram, ficam a saber. Porém, sou igualmente um apologista da máxima Salvadoriana de que “música é sentimento” e como tal estou aberto a todo o tipo de música. Pelo menos tento.

Por isso fazer a crónica de um dia dedicado ao Hip Hop no Super Bock Super Rock (pausa para rir no “Super Rock”) foi acima de tudo um exercício de coragem. Tudo o que vão ler daqui para a frente é a perspectiva de um peixe fora de água. Se estão à espera de arcos-íris e unicórnios, esqueçam. Portanto, se conseguirem lidar com isto, continuem a ler. Se não conseguirem, leiam também. Só não digam que não vos avisei.

Língua Franca (Palco EDP, 22h45)

Para quem não conhece, Língua Franca são os Rio Grande do Hip Hop em língua portuguesa (e digo isto como um elogio) — um supergrupo de rappers que junta nomes fortes de Portugal (Valete e Capicua) e do Brasil (Emicida e Rael). A Capicua disse à Andreia que estava no SBSR para conquistar o público e eu fui de mente aberta para ouvir o que tinham para me mostrar. E fiquei positivamente surpreendido. 

Desde logo pela preocupação em mostrar um espectáculo pleno de arte e talento. Para além dos quatro rappers, os Língua Franca apresentaram-se em palco com D-One nos pratos, Fred Ferreira na bateria e, last but definitely not least, o Vítor Ferreira (obrigado Capicua!) a desenhar (excelente) artwork das músicas, a qual era projectada no fundo do palco ao vivo, ao mesmo tempo que os MCs actuavam. Impressionante.

Os quatro MCs alternaram na frente do palco, às vezes sozinhos, às vezes em duo ou em trio. Capicua foi quem brilhou mais na primeira parte do set (o nervosismo era injustificado) e quando chegou Valete, os níveis de entusiasmo do público descarrilaram; primeiro com “Fim Da Ditadura” (pesquisei no Google) e depois com “Rap Consciente” (esta reconheci), denunciando como “emporcalharam o hip-hop” com “alianças com kizombeiros”. Impossível não gostar de um gajo com opinião forte e eles no sítio.

A seguir, por volta das 23h30, deu-se uma debandada geral para ver Future no Meo Arena. Não percebi. “Até se está bem aqui; talvez Future seja melhor”, pensei. Mas decidi ficar até ao fim.

“Somos mais iguais que diferentes”, atirou Emicida depois. Ele falava das diferenças entre portugueses e brasileiros, mas eu ouvi aquilo como uma referência ao rock e ao hip hop. Acho que também serve. “Tudo começa com a porra de um sonho!”, acrescentou. Diferentes, sim, mas pelo que eu vi aqui no Palco EDP, a paixão é a mesma. Só por coisas diferentes.

Apesar de me sentir desajustado, os Língua Franca foram para mim uma bela surpresa. Mesmo fora da minha praia, vi um bom espectáculo, onde houve empenho e preocupação com a arte e, mais importante ainda, se sentiu alma de quem estava em palco. É o que se pede quando se vai a um concerto.

Future (Palco Super Bock Super Rock, 00h)

Depois de ter saído satisfeito do espectáculo de Língua Franca, fui para Future a pensar que “isto não pode ser assim tão mau”. E se houve grande debandada no Palco EDP para guardar lugar em Future no Meo Arena, é porque Future é melhor, certo? God, no. À chegada ao Palco Super Bock Super Rock, o cenário não estava muito animador; meia casa, se tanto. Uma sombra do dia anterior, onde não cabia uma agulha mais para ver Red Hot Chili Peppers. Pode ser que a organização aprenda a lição. Se a tendência nos próximos anos for esta, o tamanho que podem esperar da audiência está à vista.

Vou ser o mais directo possível. O concerto de Future — aquilo que fui fisicamente capaz de suportar — foi a experiência mais penosa da minha vida. E estou a contar com aquela vez em que vomitei compulsivamente durante duas horas numa viagem de barco em Portimão. Foi absolutamente impossível de estabelecer uma relação de afecto com a música, isto quando se conseguia distinguir do ruído opressivo que vinha das colunas.

Já devem ter adivinhado. O som do concerto de Future estava ao habitual nível a que o Atlântico nos habituou, entre o indecifrável e o puramente doloroso. Aquele dilúvio de baixo de que vos falei em The Weeknd, que assoberba o pavilhão auricular e castiga os ouvidos (e que parece lesar tudo o que seja Hip Hop ao vivo), aqui estava ainda mais proeminente. Mas não eram só os baixos que estavam fora de controlo. Os agudos estavam tão estridentes que picavam os tímpanos. Nunca tinha sentido tal coisa na vida. E acreditem que já vi muitos concertos com volume tão alto que até arrebitam os pêlos das partes baixas.

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