opinião

Os melhores álbuns de 2017: de Neil Young a Morrissey

O crítico de música da NiT fez uma lista dos melhores álbuns deste ano que está quase a terminar. Se tiver algum problema com as escolhas, fale com ele.

The War on Drugs teve um dos álbuns do ano

Chegámos àquela altura do ano. Listas, listas e mais listas. Adoro. Sabem o que ai vem, por isso não vos vou fazer perder tempo. Sem mais demora, eis a lista daqueles que foram — considerados por mim — os melhores álbuns de 2017. E no fim uma playlist para ouvir tudo de uma vez.

10. Neil Young — “Hitchhiker”

Os melhores álbuns de 2017: de Neil Young a Morrissey

Será que um álbum que foi gravado há mais de 40 anos (1976), mas lançado apenas em 2017, conta para as contas de melhor álbum no ano em que finalmente foi editado? É um dilema recorrente em artistas como Neil Young e Bruce Springsteen, adeptos de guardar na gaveta algumas das suas melhores pérolas durante longos períodos de tempo. No ano passado, tive uma dúvida semelhante com “The Gouster” de David Bowie e este ano com “Man Of War” dos Radiohead — o melhor tema de 2017, mas gravado em 1997 (com faixa vocal de 2017?).

Seja de que forma olhemos para “Hitchhiker”, o resultado da análise será sempre superlativo. Seria um grande álbum se fosse lançado em 1976 e é-o igualmente saindo em 2017. Gravado numa única noite de lua cheia no Verão de 1976 (Neil insistia em gravar em noites de lua cheia), nos estúdios de Indigo Ranch em Malibu, “Hitchhiker” materializa em disco um momento mágico em que a interpretação imaculada e um lote de canções inatacável são somados.

A maioria das canções foi lançada em diferentes álbuns ao longo dos anos, com excepção de “Give Me Strength” e do maravilhoso “Hawaii” (como é que é possível?); o próprio tema-título — “Hitchhiker” — só apareceu em 2010, no álbum “Le Noise”. Mas não pensem que o facto de já conhecermos a maioria das canções torna “Hitchhiker” irrelevante. O álbum apresenta versões definitivas de todos os seus temas, salvo “Powderfinger” e “Pocahontas” — ambas regravadas em 1979 para “Rust Never Sleeps”.

Melhor momento: O falsetto em “Hawaii”iiiiii. 

9. Mount Eerie — “A Crow Looked At Me”

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É possível que nunca tenham ouvido falar nos Mount Eerie. Eu também não, até este ano. Um pouco de contexto então: os Mount Eerie são o projecto musical do músico e produtor Phil Elverum, que contou com diversos colaboradores ao longo dos anos. Entre eles, a sua mulher Geneviève Castrée, que participou em quatro álbuns da banda. Em Julho do ano passado, Geneviève morreu com um cancro no pâncreas, um ano a seguir ao diagnóstico. Phil foi atirado contra a brutalidade dos acontecimentos com uma única defesa: a música.

Menos de um ano volvido, chega-nos um novo álbum dos Mount Eerie, com o relato cronológico do processo de luto de Phil Elverum. E é brutal. Não é aquele brutal de quando saímos do cinema depois de uma reposição do “Blade Runner” e dizemos “ei, foi brutal!”. Não. Isto é brutal no sentido bruto da palavra. É dor transformada em arte (embora o própria diga que tal é impossível) e é de partir o coração: “I don’t want to learn anything from this, I love you”.

Melhor momento: O niilismo de “Real Death”.

8. VA — “Twin Peaks: Limited Event Series Original Soundtrack” / “Music from the Limited Event Series”

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Vou ser o mais directo possível. As melhores coisas que aconteceram no mundo em 2017 foram o Tetra do Benfica, o “The Legend Of Zelda — Breath Of The Wild” para a Nintendo Switch e a terceira série de “Twin Peaks”. Quaisquer palavras são parcas para descrever a experiência quimérica daquelas 18 horas de televisão, algo nunca antes visto e dificilmente repetível.

Para lá das dimensões filosóficas e visuais da série, também a música assume um papel fundamental, tanto na narração da história, como no fecho de cada capítulo da mesma. Isto porque a série é na verdade um longo filme de 18 horas, dividido em 18 partes de uma hora. Os marcadores que separam cada um dos capítulos são performances ao vivo na Roadhouse. A quantidade de música nova que David Lynch deu a descobrir na série é assombrosa, pelo que foram lançadas duas bandas sonoras para cobrir todo este espectro: “Twin Peaks: Limited Event Series Original Soundtrack”, uma banda sonora mais tradicional e “Twin Peaks: Music from the Limited Event Series”, com maior foco nos temas apresentados na Roadhouse. Ambos essenciais.

Melhor momento: A sombria versão instrumental de “Saturday” pelos Chromatics, superior à versão original de Johnny Jewel com lírica, incluída no seu álbum “Windswept”. 

7. Cigarettes After Sex — “Cigarettes After Sex”

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Os Cigarettes After Sex já andavam a prometer um álbum há vários anos; há 5 mais precisamente, altura do lançamento do seu primeiro EP — “I.”. Desde então, o momentum da Dream Pop oscilou vigorosamente depois da sua expansão no início da década e já está longe do lugar de proa conquistado por discos como o homónimo dos The xx (que também tiveram novo trabalho este ano, mas abaixo das expectativas). Depois de vários singles dispersos ao longo dos últimos anos, os Cigarettes After Sex deram-nos finalmente o seu primeiro long play em 2017 e não desapontaram. O que não significa que nos dessem algo diferente do que esperávamos. Pelo contrário.

Se alguma coisa pode ser dita contra o álbum de estreia dos CAS é que é um disco de um mood só e só de um mood. Mas esses presumíveis desdéns podem ser vistos como virtudes por quem procura simplesmente um álbum introspectivo, ambiental e pacífico. Um álbum ao mesmo tempo vagaroso e poderoso. O disco descolou da pequena pista da banda texana e voou para alturas bem acima da dimensão do grupo, algo bem patente no concerto do Mexefest há poucas semanas. À imagem dos The xx, seguir-se-á o inevitável disco irrelevante dentro de dois anos.

Melhor momento: O riff de “K.” que abre o álbum e estabelece o mood.

6. Slowdive — “Slowdive”

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Entre muitas coisas, 2017 foi o ano da “second coming” do Shoegaze. E faz todo o sentido que assim seja. Numa altura em que há uma demanda por sonoridades cheias, projectadas em formato IMAX, o Shoegaze assenta que nem uma luva neste nicho do mercado.

Tivemos assim o regresso dos Ride — que voltaram a contar com Andy Bell, depois de 18 anos a colaborar com os irmãos Gallagher — e mais importantemente, vimos os Slowdive aterrar com um álbum astronómico, um dos melhores dreamies dos últimos anos. “Star Roving” é uma das grande malhas do ano.

Melhor momento: “Star Roving” a levar-nos às estrelas.

5. IDLES — “Brutalism”

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Em tempos de incerteza, os IDLES trazem-nos carnificina concisa. Em tempos de mentira, os IDLES trazem-nos honestidade. Em tempos de Photoshop e body shaming, os IDLES trazem-nos uma barragem visceral de bílis alegre e jovial. Não são palavras minhas, são retiradas (e traduzidas) do site da banda, mas nem por isso deixam de ser a perfeita descrição do primeiro álbum da banda de Bristol, depois de “Welcome EP” (2012) e do “Meat EP” (2015). “Brutalism” é feroz, visceral e sucinto.

O impacto dos IDLES na cena underground não é de somenos. Numa das melhores (e mais deliciosamente exageradas) reviews que li este ano, o crítico descrevia o álbum de estreia da banda como a soma de “Never Mind the Bollocks, Here’s the Sex Pistols”, “It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back” (Public Enemy), “Fresh Fruit For Rotting Vegetables” (Dead Kennedys) e “Bad Brains”, tudo ao mesmo tempo. Embora a descrição tenda muito para o lado da hipérbole (e eu adoro reviews desavergonhadamente hiperbólicas) e beneficie do marasmo em que vive a up-and-coming cena Rock em 2017, já dá para perceber o entusiasmo gerado pelos IDLES.

Melhor momento: O furioso “Mother”, tema sobre a falecida mãe do vocalista Joe Talbot… e os Tories. 

4. The War On Drugs — “A Deeper Understanding”

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O novo dos The War On Drugs (que é o mesmo que dizer, de Adam Granduciel) era um dos discos mais esperados de 2017. O lançamento do épico “Thinking of a Place” no Record Store Day de Abril antecipava algo em grande e felizmente que as expectativas não foram defraudadas. “A Deeper Understanding” é um grandíssimo álbum e um grandíssimo candidato a álbum do ano. É certamente um dos mais sólidos — entra forte em “Up All Night” e mantém a bitola lá em cima até ao fim.

Cosendo texturas com as mesmas linhas do anterior “Lost In A Dream”, o novo álbum dá uma sensação de continuidade na discografia dos The War On Drugs, como se de uma única música de 2 horas se tratasse. Este mesmismo funciona como um pau de dois bicos — por um lado, oferece conforto e segurança ao ouvinte; por outro, não oferece nada de novo. Porque sejamos sérios: a verdade é que The War On Drugs são tão variados como os AC/DC. Not that there’s anything wrong with it. É o que é. Eu também passo o Verão inteiro a comer sardinha e o Inverno a comer bitoque e nunca me canso.

Melhor momento: O glorioso glockenspiel roubado a “Born To Run” de “Holding On”. Tema do ano?

3. Roger Waters — “Is This The Life We Really Want?”

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Uma esmagadora surpresa. Não devem encontrar o novo álbum de Roger Waters em muitas listas de final do ano e isso deve-se a duas razões: 1. Estamos em 2017 e Roger Waters já não é um artista relevante há quase 40 anos; 2. A maior parte do público não ouviu ou não prestou a devida atenção a “Is This The Life We Really Want?”, devido à razão número 1.

Como toda a gente, também eu não tinha grandes expectativas para o novo disco de Roger. Mas acabou por ser uma das grandes obsessões deste ano. Para lá da visão niilista da vida e do mundo, “Is This The Life We Really Want?” é um exercício de introspecção implacável. Roger despe-se por completo, olha para dentro e escava a fundo em si mesmo. Nu e cru. Sem medos. E desta vez, não é só a interminável saga do pai que morreu na guerra; é o próprio Roger que morreu por dentro e quer falar sobre isso. Este é o álbum mais pessoal de toda a sua carreira e se eu tivesse que apostar, diria que só chegou agora, porque só agora é que Roger aprendeu a olhar para dentro. Um disco intenso e extenuante, dissecado aqui.

Melhor momento: A intensa trilogia que fecha o álbum — “Wait For Her” / “Oceans Apart” / “Part Of Me Died” — tão pessoal, que chega a ser desconfortável.

2. Ryan Adams — “Prisoner” 

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“If loving you is wrong, I am a criminal. I am a prisoner for your love.” é talvez a melhor linha que eu ouvi este ano. É simples, tão simples que arranha o lugar-comum, mas tão certeira. E não é assim que nasce a melhor Pop? As canções de “Prisoner” foram escritas na ressaca do divórcio de Ryan Adams com a actriz Mandy Moore. Na altura, em vez de se enclausurar para escrever e gravar esses temas, Ryan preferiu lidar com a separação através da desconstrução de “1989” que, tal como toda a música que Ryan escrevia na época, também é sobre amor perdido e corações partidos.

“Prisoner” é um álbum pejado de canções de amor (e falta dele), obrigatório para quem vive as canções Pop como o Tom do “500 Days Of Summer”. Esteve “assim” do galardão de álbum do ano (o álbum foi dissecado aqui), mas acabei por me deixar ir para onde me mandou o meu coração. E o meu coração mora em Manchester.

Melhor momento: “If loving you is wrong, I am a criminal.” Tudo dito. E não esquecer o álbum de B-Sides com 17 (!!!) faixas bónus.

1. Liam Gallagher + Noel Gallagher — “As You Were” + “Who Built The Moon?”

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Tenho a perfeita noção de quão polémica arrisca a ser esta escolha. Não é segredo para ninguém que sou um apaixonado dos Oasis e dos irmãos Gallagher. Sim, sou um Parka Monkey. Prendam-me. Este ano cobri extensivamente o regresso glorioso do “nosso miúdo” (RKid para os fãs dos Oasis) Liam Gallagher, as bulhas com o mano mais velho, a crise de meia-idade de Noel, bem como o seu ambicioso álbum novo. Não há aqui sequer qualquer tentativa de imparcialidade — se estamos num ano em que um dos manos Gallagher lança um álbum, é muito provável que ele apareça no meu Top. Ora, 2017 viu não um, mas dois álbuns dos manos — “As You Were” de Liam e “Who Built The Moon?” de Noel. E não poderiam ser mais diferentes.

A pergunta óbvia é qual deles o melhor. É óbvia, mas não é a pergunta correcta. Porque ambos se complementam. Algures entre “As You Were” e “Who Built The Moon?” está o álbum do ano. Pensem nestes discos como dois volumes da mesma obra, duas faces da mesma moeda. Liam tem as melhores canções, Noel tem a melhor produção. Liam tem o foco, Noel tem a ambição. Liam tem as melhores partes, Noel tem o melhor todo. Entre os dois, está o balanço perfeito entre canções e produção, atmosfera e atitude. E se Noel passou o ano a ser um idiota, não estou a ver nada que o irrite mais a ter que partilhar o primeiro lugar com mano mais novo. As you fucking were.

Melhor momento: O sincero e comovente pedido de desculpas de Liam em “For What It’s Worth”. 

11-20. Menções honrosas

20. Brand New — “Science Fiction”

19. The Orwells — “Terrible Human Beings”

18. Spoon — “Hot Thoughts”

17. Morrissey — “Low In High School”

16. LCD Soundsystem — “American Dream”

15. Kaitlyn Aurelia Smith — “The Kid”

14. Waclaw Zimpel / Jakub Ziolek — “Zimpel / Ziolek”

13. Ride — “Weather Diaries”

12. Kurt Vile / Courtney Barnett — “Lotta Sea Lice”

11. Destroyer — “Ken”

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