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“Luanda, Lisboa, Paraíso”: as geografias do sonho, da desilusão e da miséria

A escolha desta semana da escritora e cronista da NiT, Filipa Martins, é um livro de Djaimilia Pereira de Almeida.
Mais uma recomendação da cronista da NiT.

Foi a ouvir a canção ‘Try a little tenderness‘, na versão de Otis Redding, que iniciei a leitura de “Luanda, Lisboa, Paraíso“, Companhia das Letras (2018), o segundo romance de Djaimilia Pereira de Almeida. A escolha musical foi sugestão da autora, referenciada em entrevistas que deu a respeito do novo livro.

A explicação chegou logo depois: “Procuro de uma forma premeditada uma certa gentileza no ponto de vista, como forma de fuga ao cinismo”, disse. É nessa gentileza poética — acrescento — onde o leitor encontra abrigo para a dureza da narrativa que vai pernoitando nas paragens apresentadas no título — “Luanda, Lisboa, Paraíso”.

À semelhança do primeiro livro editado no mercado português (“Esse cabelo“, Editorial Teorema), Djaimilia não percorre ambientes que lhe são completamente estranhos. Entre o romance e o ensaio, acompanhamos a vinda para Lisboa de Carlota e Aquiles, pai e filho, que abandonam Luanda para que Aquiles seja operado na capital portuguesa. Em causa, um calcanhar defeituoso de nascença, que valeu ao rapaz o nome helénico. 

Será esse calcanhar — porque ‘”se uma história se parece com o corpo de um animal, então pode começar pelo calcanhar” — que se transcenderá e irá espoletar o pathos das personagens. Chegados a Portugal nos anos 80, num período pós-descolonização, e deixando para trás a guerra civil angolana, os protagonistas estão longe de pensar que esta seria uma viagem sem retorno. Em “Luanda, Lisboa, Paraíso”, sonho, desilusão e miséria sucedem-se como as geografias, para, no final, termos a redenção garantida que só o entendimento entre duas almas permite.