NiTfm live

opinião

Opinião: Live at Earl’s Court

A história de como se cumpriu o destino londrino do cronista que vos escreve.

London is calling

Tenho pressa de sair / Quero sentir ao chegar / Vontade de partir / P’ra outro lugar / Vou continuar a procurar o meu mundo, o meu lugar / Porque até aqui eu só / Estou bem / Aonde não estou / Porque eu só quero ir / Aonde eu não estou / Porque eu só estou bem / Aonde não estou.

O António Variações é que a sabia toda. O sentimento de inadequação que descreve no seu hit “Estou Além” (“Anjo da Guarda”, 1982) é algo que me acompanha desde sempre, uma armadilha da condição humana diretamente ligada àquela tentação inócua de pensar n’”o que podia ter sido”. Todos o fazemos. Eu talvez abuse mais um bocadinho, porque remoer tudo até à infinita iteração é o modo de funcionamento automático do meu cérebro. Não tenho culpa que a minha cabeça me fustigue incessantemente com universos paralelos d’”o que podia ter sido”, caso tivesse feito as coisas de outra forma.

Pensar n’o que podia ter sido não é mais que uma forma de auto-ressabiamento, mas mais do que ressabiar o que fiz, a minha regra é só me arrepender do que ficou por fazer. É por isso que de todos os” que podia ter sido” da minha vida, o que sempre me bateu com mais força foi aquela vez em que estive a uma assinatura de cumprir o meu destino de viver em Londres. As estrelas estavam todas alinhadas: havia dinheiro em cima da mesa; havia a promessa de uma carreira; havia interesse de todas as partes. Havia tudo. Então por que raio eu não fui?!

Sempre me imaginei a viver em Londres. Londres é o centro do (meu) universo, a capital do país que deu à luz quase todos os meus ídolos, onde todos eles viveram (alguns ainda vivem) e que a todos consagrou em espaços sagrados como o Estádio de Wembley, Earl’s Court, Hammersmith Odeon, Rainbow Theatre, Marquee e por aí fora. Por isso sempre me fez todo o sentido mudar para lá e viver as mesmas experiências que os meu ídolos viveram. Claro que a realidade não funciona bem assim, uma vez que só na minha cabeça é que sou uma “Rock ‘n’ Roll Star”, mas pelo menos poderia estar no sítio onde tudo acontece primeiro e assim poder testemunhar ao vivo o nascimento do meu próximo ídolo.

A música, sempre a música. Notem que em lado nenhum me referi a Londres como um “sonho”. Não é bem disso que se trata. Lá em cima utilizei a expressão “cumprir o meu destino” porque na verdade, sempre achei que Londres era onde eu ia parar, era ali que eu pertencia. Como se a minha mudança fosse uma inevitabilidade. Não é um sonho na medida de, por exemplo, ver o Benfica campeão europeu, ou dar um abraço ao David Gilmour. É sim algo que eu sempre senti que tinha que fazer. Se é que esta dicotomia vos faz algum sentido.

Há cerca de cinco anos, a viver naquela agitação permanente (tão bem descrita pelo António Variações) de nunca estar satisfeito com o que tinha, achei que estava na hora de mandar tudo ao ar e ir atrás do meu destino londrino. Comecei a mandar currículos em Agosto e a resposta foi overwhelming. Estava de férias e na praia o telefone não parava de tocar com propostas para entrevistas. London was calling, literalmente. Para fazer o bingo de coincidências, tinha um concerto do Roger Waters no Estádio de Wembley marcado para Setembro, daí a poucas semanas. Uau. Parecia que o destino queria mesmo que eu fosse para Londres.

Mas já diz o ditado: Careful with what you wish for. Sem que eu tivesse tempo para reflectir, eles meteram-me um contrato à frente. Bastava assinar o papel et voilá, cumpria-se o destino de viver Londres. Não assinei. De regresso a Lisboa, poucos dias depois da entrevista, voltam a ligar-me com uma proposta mais alta. Voltei a rejeitar. Porquê? Fuck knows. De todos os que podia ter sido, este sempre foi aquele que mais dificuldade tive em encaixar. Foi uma decisão que tomei e que nunca soube se foi a mais correcta. Será que Londres não era, afinal, o meu destino? Ou será que simplesmente ainda não tinha chegado a hora de assinar o papel?

Importa agora chamar a atenção que os parágrafos em cima foram adaptados de um texto que escrevi no Verão passado, onde reflectia sobre o meu destino nunca cumprido de Londres. Mal eu sabia que, poucos meses volvidos, chegaria a hora de assinar o papel.

Vou finalmente cumprir o meu destino londrino e para que não falte nada para completar a experiência, vou viver em Earl’s Court, outrora palco que coroou todos os meus ídolos: os Queen em 1977 na digressão da obra-prima da banda “A Day At Races”; os Pink Floyd em 1973 na digressão de “The Dark Side Of The Moon”, em 1980 1981 com o espetáculo megalómano de “The Wall” e em 1994 com catorze concertos (um recorde na altura) que fecharam a digressão de “The Division Bell”; os Oasis em 1995 com a digressão de “(What’s the Story) Morning Glory?”. Percebem a ideia. Agora que o Earl’s Court Exhibition Centre foi abaixo, serei eu “Live at Earl’s Court”.

Mas há mais. Vou também viver ao lado da casa do Rei. A meros 500 metros do Garden Lodge de Freddie Mercury estarei protegido; posso sentir-me em casa. Porque esteja onde estiver, não há para mim sentimento igual ao de casa. Talvez por isso desde o concerto da Passagem de Ano que só ouço música portuguesa. Wait, what? Ainda nem fui e já estou com saudades disto. Et voilá, vejam lá o Variações a acertar outra vez. Agora não há volta atrás. Citando outro clássico do rock português, agora é “carga pronta e metida nos contentores” e “adeus aos meus amores que me vou para outro mundo”. Espero trazer-vos novidades de lá.