Já não se fazem biopics como antigamente

De “Lawrence da Arábia” até “Steve Jobs”, os biopics fazem parte da história do cinema desde 1899 — sim, isso mesmo.

O filme "Gauguin" com Vincent Cassel.

Confesso que este texto começou por ser uma lista, a propósito da estreia de “Rodin” e “Gauguin“, dois filmes sobre a vida dos respetivos pintores, e de “England is Mine – Descobrir Morrissey“, sobre o ex-vocalista dos The Smiths. Seria sobre os cinco, ou sete, ou dez, melhores biopics de sempre, conforme a lista preliminar que me lembrasse. Mas acabei por desistir na segunda tentativa de enumerar um número aceitável de filmes, porque são simplesmente demasiados.

Vejamos a definição mais simples de biopic: um filme não-documental sobre a vida de uma pessoa real. Que pode assumir uma multitude de formas, conforme a narrativa escolhida pelo argumentista e realizador. Ora, isto engloba uma quantidade absurda de filmes e qualquer pessoa será capaz de dizer, de cabeça, uns dez (ou vinte) títulos merecedores de atenção. Considerem Martin Scorcese: “Touro Enraivecido” é um biopic sobre o pugilista Jake LaMotta, “Kundun” é um biopic sobre o 14.º Dalai Lama, “Tudo Bons Rapazes” é um biopic sobre Nicholas Pileggi, “O Lobo de Wall Street” é um biopic sobre o corretor de ações Jordan Belfort, “Casino” é um biopic sobre dois mafiosos em Las Vegas, “O Aviador” é um biopic sobre o milionário Howard Hughes. Daria para fazer uma lista do género só com a filmografia do realizador nova iorquino.

Os biopics fazem parte do ADN do cinema, desde muito cedo. Há uma lista sobre os mesmos no Wikipedia que começa com “The Story of Ned Kelly” de 1906, mas George Meliés já tinha feito um filme chamado “Jeanne D’Arc” em 1899 que, tecnicamente, se poderá considerar um biopic. Além da ligação umbilical com a sétima arte, o biopic também sempre granjeou de um reconhecimento artístico que começou logo na segunda edição dos Óscares em 1930, quando George Arliss venceu o Óscar para Melhor Ator, com o filme “Disraeli“. Não vou tornar esta crónica num debitar de datas, no entanto; basta ficar assente que sim, os biopics existem desde sempre. E que já eram uma boa maneira de assegurar prémios em 1930, uma tendência que continuou até aos dias de hoje.

O interessante é que os biopics evoluíram ao longo dos anos. Já não se fazem épicos de três horas sobre figuras históricas, como “Lawrence da Arábia“, “Patton“, “Gandhi” ou “Amadeus“, projetos ambiciosos que tentam contar a história completa de uma vida. Ou como o incrível (e exigente) “Andrei Rublev” de Andrei Tarkovsky. Os anos 80 (“O Meu Pé Esquerdo“) e 90 (“Shine – Simplesmente Genial“) praticamente esgotaram essa fórmula, o que obrigou a uma reinvenção do género.

Claro que ainda temos filmes a seguir o estilo clássico e que continuam a agradar a Academia (Cannes e Berlinale não tanto), como o previsível “A Teoria de Tudo“, que deu o Óscar de Melhor Ator a Eddie Redmayne pela sua interpretação de Stephen Hawking.

A maior evolução que os biopics sofreram no século XXI é na estrutura dos guiões. Em 2007 saiu “Walk Hard: A História de Dewey Cox” que satirizou na perfeição a fórmula de filmes como “Ray” ou “Walk the Line“. Anos mais tarde, Don Cheadle (“Miles Ahead“, sobre Miles Davis) e Danny Boyle (“Steve Jobs“) tiveram o cuidado de analisar a comédia para não repetirem o padrão. Mas “Walk Hard” limitou-se a expôr as convenções do género, que estavam gastas há muito e que já muitos realizadores tentavam contornar. Como no óptimo “I’m Not There – Não Estou Aí” (2007) de Todd Haynes, uma coleção atípica de vinhetas onde Bob Dylan é interpretado por seis atores diferentes, uma espécie de biopic pós-modernista.

Em “Love and Mercy – A Força de um Génio” (2014), Bill Pohlad ilustra a personalidade de Brian Wilson dos Beach Boys com duas histórias paralelas, onde o músico é interpretado por Paul Dano e John Cusack em alturas diferentes da sua vida. Em “Steve Jobs” (2015), Michael Fassbender interpreta o criador da Apple em três situações distintas da sua vida, como se fosse uma peça de teatro em três atos, uma opção claramente superior à do argumento de “Jobs” (2013). E, claro, o melhor biopic dos últimos anos: “A Rede Social” (2010), onde David Fincher tomou algumas liberdades criativas por forma a contar a melhor história possível sobre Mark Zuckerberg e o Facebook, e que se distingue do modelo clássico pelo simples facto de retratar uma imagem presente e não passada. Zuckerberg tinha apenas 26 anos quando saiu o filme.

A tentativa mais clara de distanciamento dos biopics foi, curiosamente, de Steven Spielberg, que ao discutir o seu filme “Lincoln“, disse que este não pertencia ao género: “Às vezes refiro-me ao filme como um retrato”. Spielberg pode chamar o que quiser a “Lincoln”, e até podemos mudar o nome do rótulo para acomodar o senhor, mas o certo é que os biopics estão em constante evolução e continuam a estrear nos cinemas. E são tantos que não vale a pena meterem-se com listas, acreditem.

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