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Opinião

Filipa Martins: Tantas palavras de Chico Buarque

A cronista da NiT fala sobre o livro que reúne todas as letras das canções do músico brasileiro.
Filipa Martins lê um poema de Chico Buarque.

De “Tem Mais Samba” (1964), que Chico Buarque considera o arranque da sua carreira, até “Tua Cantiga” (2017), cuja letra valeu ao compositor brasileiro acusações de machismo, contamos mais de 300 canções e que seja por muito tempo ainda. É esta a viagem proposta em “Tantas Palavras”, editado pela Companhia das Letras (2018), que nos oferece uma antologia da oralidade aprumada e poética das canções de Chico Buarque.

São 53 anos a compor, escrever e interpretar canções e 74 anos de vida reunidos, pela primeira vez, num único volume editado no mercado nacional. Os versos de Chico Buarque ganham enquadramento com a reportagem biográfica de Humberto Werneck e uma seleção cuidada de fotografias e recortes de imprensa.

A adolescência transgressora do músico, a criação da primeira canção, apresentada com as cordas do violão ainda quentes para um comercial, a militância e o exílio, as podas da censura durante a ditadura ou a babá Benedita Motta, detentora da única telefonia da casa, aparelho de relevo na formação musical do compositor, formam um mosaico que dão relevo, luz e sombras ao génio do artista.

Quando o frio se impõe, demos tréguas à invernia com as palavras de Chico. Compostas na febre na noite ou no prolongamento do chuveiro, são sentidas como sol tardio dos dias longos na pele repuxada pelo sal. Muitas continuam verdadeiros enigmas.

Leia também o poema de Chico Buarque na íntegra, tirado do livro “Tantas Palavras“. 

Tem mais samba no encontro
que na espera
Tem mais samba a maldade que a ferida
Tem mais samba no porto que na vela
Tem mais samba o perdão que a despedida
Tem mais samba nas mãos 
do que nos olhos
Tem mais samba no chão do que na lua 
Tem mais samba no homem que trabalha
Tem mais samba no som que vem na rua
Tem mais samba no peito de quem chora
Tem mais samba no pranto de quem vê
Que o bom samba não tem lugar nem hora
O coração de fora
Samba sem querer
Vem que passa
Teu sofrer
Se todo o mundo sambasse 
Seria tão fácil viver
 
Tem Mais Samba (1964)