OPINIÃO

O dia em que Marilyn Manson apontou uma arma ao público

Foi durante a música “We Know Where You Fucking Live” e foi a melhor coisa que ele fez nos últimos 20 anos.

Marilyn Manson de metralhadora em punho

Num dos seus melhores bits, o falecido comediante, filósofo mundano e meu camarada rocker Bill Hicks dizia que queria ver as suas Rockstars a entrar em palco com o instrumento numa mão e uma arma na outra, despedindo-se do público com um tiro na cabeça no fim do concerto. Isso sim, seria o clímax perfeito para um espectáculo que se quer o mais visceral possível.

Marilyn Manson elevou a parada esta semana e subiu a palco no tema “We Know Where You Fucking Live” com o que parecia ser uma metralhadora. Sem mais, apontou a arma ao público e “abriu fogo”. Na verdade, a metralhadora era só um microfone, mas deve ter pregado um belo susto a quem lá estava.

Roger Waters já tinha aventado esta ideia na preparação do espectáculo original do álbum The Wall. Farto do público nos concertos dos Pink Floyd, Roger imaginou bombardeamentos sobre a audiência como metáfora do famoso incidente da cuspidela em Montreal (Roger chamou um da fila da frente para cima do palco e cuspiu-lhe na cara). O efeito nunca foi posto em prática, mas se havia alguém capaz de levar uma ideia arriscada deste tipo adiante, esse alguém seria Marilyn Manson. Só que ele fez isto no mesmo dia em que um homem entrou numa igreja com uma arma automática e matou 26 pessoas. Não é preciso ser bruxo para adivinhar que a reacção da inquisição moralista das redes sociais e da brigada do bom-gosto de alguns órgãos de comunicação social foi implacável, ao ponto de superar a indignação relativamente ao próprio atentado do Texas. 

Os espectáculos de Marilyn Manson são provocatórios e ofensivos. Sempre foram. Noutras notícias, a água molha e o sol queima. Não sou o maior fã da música de Marilyn Manson, a banda; mas sempre tive um certo fascínio pela figura de Marilyn Manson, o homem. Brian Warner, o auto-proclamado “God of Fuck”, é um one of a kind; foi ele a última estrela rock capaz de chocar o mundo com histórias tão macabras que todos queríamos acreditar que fossem verdade. Retirar costelas para fazer um auto-felácio? Por que não? Vazar o próprio olho para substituir por um de vidro? Claro que sim. Antes dele, houve Iggy, Ozzy e Alice. Depois dele, mais ninguém.

numa era em que os tiroteios em massa se transformaram numa ocorrência diária, este foi um ato teatral numa tentativa de marcar uma posição

É como diz MM. Uma vez que os atentados terroristas são um acontecimento quase diário nos Estados Unidos, estes raramente já são notícia. Até porque neste caso o atirador não era islamita e como tal, já não é terrorismo, é só “um louco com uma arma”. Até porque se há mais armas que pessoas no território americano, então é normal que isto aconteça com frequência e cada vez mais vezes. Portanto compreendamos os órgãos de comunicação: aqui a verdadeira notícia não é um gajo entrar numa igreja a varrer com uma metralhadora, é o Marilyn Manson entrar em palco com uma metralhadora de brincar.
 
Foi punk, genial e a melhor coisa que Marilyn Manson fez desde 1997. Ou vá, pelo menos desde aquele maravilhoso cover do “Personal Jesus” em 2004. Não só canalizou sobre si a atenção que pretendia, como também abriu alas ao ridículo que são os indignadinhos do mundo moderno, preocupados com merdas sem interesse nenhum, deixando as verdadeiras aberrações votadas à normalidade. Se a arma de brincar do Marilyn Manson nos aterroriza mais que as armas a sério, devem ser essas que devemos banir.
 
Quanto a quem estava na sala, pelo menos saíram de lá aterrorizados com o susto de uma vida. Se isso não é um espectáculo como se quer, não sei.
Quero sugerir uma alteração ao texto ou enviar uma mensagem ao autor deste artigo