Crítica: “Todo o Dinheiro do Mundo” — uma avareza sem fim

Kevin Spacey fez de homem mais rico do mundo até ser substituído por Christopher Plummer, a troco de 10 milhões de dólares, por conta do escândalo do assédio sexual.

O maior sovina que o mundo já conheceu: Jean Paul Getty.
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Hôtel de la Plage, 1953. Um homem entra na vila com um carro barulhento, estaciona à frente da praia e sai carregado de malas, malinhas e outros que tais. Quando abre a porta do hotel, de cachimbo em riste, toda aquela pasmaceira vai ao ar. É o senhor Houlot em todo o seu esplendor. Um elemento há mais incrível ainda, o empregado do hotel sempre a barafustar, entre encolheres de ombros até monólogos silenciosos. Se um casal se senta na mesa do canto, ele protesta. Se um cliente chega 10 segundos depois do toque do sino para o almoço, ele protesta. Se a menina pede sal, ele protesta. Se alguém diz obrigado, ele protesta. É um refilão por natureza.

Ora bem, eu sou esse senhor durante o “Todo o Dinheiro do Mundo”, um filme de Ridley Scott sobre a história verídica do rapto de John Paul Getty III, neto do então homem mais rico do mundo (Jean Paul Getty), em Roma, a 10 Junho 1973. Nada a apontar sobre a preferência em privilegiar o drama familiar, personificado pela mãe Gail (Michelle Williams) e a sua batalha constante pelo pagamento do resgate de 17 milhões de dólares contra o desejo do ex-sogro (Christopher Plummer), só que a acção varia rapidamente entre o psicadélico e a inércia sem magia pelo meio.

Se o começo da trama é uma série de viagens pelos quatros do mundo (Arábia Saudita, Marrocos, Itália e EUA) dos anos 40 até à década 70, os flashes repentinos cedem lugar a uma pasmaceira infinita até ao epílogo. Quer dizer, há ali momentos engraçados, salvo seja, como o jogo de luzes (soberbo), a claustrofobia da mãe (superior, em determinada escala, à do filho, preso em cativeiro) e a decisão em cortar a orelha do raptado de 16 anos de idade, porque o avô do dito cujo não liga patavina ao assunto. Que, insista-se, é o neto. Ainda por cima, o seu neto preferido. Diz ele, o avô, um sovina de primeira apanha.

É um senhor com uma conta bancária na ordem dos seis mil milhões de dólares à altura da sua morte em 1976 e, mesmo assim, prefere lavar/secar a sua roupa na casa de banho do que entregá-la a uma lavandaria.

Imagine-se agora pagar um resgate de 17 milhões? Essa é boa. “Se pago o regaste, raptam-me os outros 14 netos”, diz ele, sem pestanejar, aos jornalistas plantados à porta da sua mansão. O homem paga, vá, dois ponto dois e e e e e já vais com sorte ò ‘Ndrangheta (mafia calabresa, responsável por todo este embaraço). Dois ponto dois, só? Indeed, 2.2 milhões de dólares – a quantia máxima dedutível nos impostos. Uff, afinal a avareza até nem é ilimitada.

Dinheiro, avareza etc e tal: “Todo o Dinheiro do Mundo” é sobre isso no seu todo. Senão veja-se, o papel de Jean Paul Getty é entregue a Kevin Spacey, entretanto apanhado naquele turbilhão mediático das acusações de assédio sexual. E agora? Ridley Scott passa-se. “Esperava uma chamada do Kevin para esclarecer o assunto. E ele nada. Primeiro fiquei desapontado, depois ‘i got mad’.” E substitui-o por Christopher Pulmmer, assim sem mais nem menos.

Refilmam-se então algumas cenas. A troco de quê? Dez milhões de dólares. Dez. Como se isso fosse pouco, o Sindicato dos Atores descobre uma diferença mínima de 1% nos pagamentos entre Michelle Williams e Mark Wahlberg (ah é verdade, ele é Fletcher Chase, antigo agente CIA, conselheiro de Jean Paul e, às tantas, confidente de Gail), com desvantagem para a atriz.

 

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