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Crítica: “Engenhos Mortíferos” é uma pasmaceira pegada

No ano 3000-e-tal, a cidade de Londres quer destruir a muralha da China para viver à conta dos recursos naturais.
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João Chaves. A voz é inconfundível, entre o som das baleias e o das músicas dos 80’s. É o “Oceano Pacífico” em grande estilo, entre as 22 horas e as duas da manhã na RFM. Durante anos (décadas, vá), o João Chaves transmite calma aos mais agitados, seja em Lisboa ou em Tróia.

Hugo Weaving. A voz é inconfundível. Aquele “Mister Anderson” bem soletrado é um hino à dicção na trilogia “Matrix“. O Mister Anderson é Neo (Keanu Reeves) e o Hugo Weaving é Agent Smith, homem-camaleão, capaz de se camuflar em qualquer situação.

Hugo Weaving. A voz é inconfundível. Em “Engenhos Mortíferos” de Christian Rivers, adaptação do livro com o mesmo nome de Philip Reeve, a sua dicção continua do best. O homem (Thaddeus Valentine) é mesmo assim, gosta de falar explicado. Seja com a filha Katherine Valentine (Leila George), seja com a arqui-rival Anna Fang (Jihae). O vozeirão vem meeeesmo do fundo da alma. O problema é tudo o resto: a previsibilidade das cenas, a fartura de diálogos aborrecidos e a insistência nos lugares comuns. Enfim, o filme em si é uma pasmaceira sem rei nem roque.

A história é do ano 3000-e-tal, numa ressaca pós-apocalíptica na apelidada “Guerra dos 60 Minutos”. O mundo é então dividido em cidades montadas em engenharias assim-assim, com muito Old Tech, dignas de um invento do Professor Pardal. Como em tudo, há as grandes e as pequenas.

Quando a pequena é apanhada por uma maior, é como se o Pacman comesse os fantasmas: ganha imunidade, por assim dizer, e cresce em energia à conta das reservas mecânicas (como peças soltas) e naturais (árvores). A maior de todas é Londres. A capital inglesa é gigantesca, dominada pelo mayor Magnus Crome (Patrick Malahide). Abaixo de si na hierarquia política, o ambicioso Thaddeus, de olho na reconstrução da MedU.S.A., uma arma de destruição maciça, responsável pelo fim da humanidade como a conhecemos antes da era das tais máquinas rolantes.

A ideia do mayor é básica (a de dominar o mundo sem ambição desmedida), a de Thaddeus é mais complexa (a de derrubar a muralha da China com a ajuda da MedU.S.A. para dar uma de “king of the world”). No braço-de-ferro destes ideais, Thaddeus é mais persistente. Quer o mundo só para ele e faz tudo para alcançar o objectivo. Até assassinar a mulher Pandora (Caren Pistorius). E atirar a filha Hester (Hera Hilmar) para um poço mortal. É má rés. Só visto. Que o diga o jovem despassarado londrino chamado Tom (Robert Sheehan), admirador de Thaddeus antes de conhecer as suas atrocidades.

A luta pela ordem e progresso do novo mundo é iniciada por Hester (determinada a vingar a morte da mãe Pandora), com a ajuda do destemido Tom e da estilosa Anna Fang. O livro é rico em movimento e acção, o filme é uma chatice pegada. Até porque não há rádio nem Oceano Pacífico neste futuro. Baaahhhh.