Chris Cornell, a estrela que era um de nós

Memórias da noite em que vi os Soundgarden ao vivo no Hyde Park.

Tinha 52 anos e morreu esta quinta-feira, 18 de maio

“Devem estar todos aqui para ver os Black Sabbath. Mas não faz mal, nós estamos aqui para o mesmo”. Foi com esta nobreza e humildade que Chris Cornell saudou a audiência no Hyde Park em 2014, quando tive o privilégio de ver os Soundgarden abrir para os Sabbath. Já era fã de Chris, o vocalista – dono de um vozeirão de potência hercúlea; fiquei imediatamente fã de Chris, o homem.

Chris Cornell era um de nós. Um rocker como eu e milhões mais, que gostava de Beatles, David Bowie, Black Sabbath, Led Zeppelin, Bruce Springsteen, Pink Floyd, Metallica, U2… Se tivéssemos andado juntos na escola, seríamos amigos. Fazemos parte do mesmo grupo, sentimos a música da mesma forma; idolatramos os nossos artistas preferidos da mesma maneira, porque são eles que nos acompanham no nosso quotidiano, nos altos e baixos, na saúde e na doença e naquela lenga-lenga toda que o padre canta no casamento. Aliás, não deixa de ser curioso que seja com “eles” o mais sólido e eterno dos matrimónios que alguma vez contraímos.

Chris também queria ser um deles. No início de carreira, Chris despedia-se do público com um bazofe – “Boa noite, nós somos os Black Sabbath” –; era a expressão de um sonho. Os Soundgarden acabariam por ganhar fama mundial, primeiro quando correram o mundo a abrir para os Guns N’ Roses, depois com o êxito global de “Black Hole Sun”; mas nunca tiveram o reconhecimento que mereciam.

De todas as bandas de Seattle (que adoramos chamar de Grunge), os Soundgarden eram a mais completa. Apresentavam uma fusão de Hard Rock britânico, Metal californiano e Psicadelismo Floydiano, que resultava numa amálgama de música quente do deserto asfixiada dentro de uma cave fria de Seattle. Há uma ansiedade na música dos Soundgarden, uma vontade de sair, um desejo em explodir que não pode ser mais reprimido. O desejo é reforçado pela voz mastodôntica de Chris Cornell, que parece estar sempre à beira de rebentar. Como a minha, sempre que (tento) cantar o “Beyond The Wheel” no carro.

Apesar de se ter tornado num deles, Chris Cornell nunca deixou de ser um nós. Foi esse sentimento que transmitiu quando entrou em palco a abrir para os seus ídolos Black Sabbath. Foi a única vez que vi as duas bandas ao vivo. Não haverá uma próxima.
No início de uma noite mágica que acabou benzida em chuva londrina, os Soundgarden entraram em palco com uma surpresa: “Acabámos de decidir há 15 minutos que vamos fazer pela última vez algo que só fizemos duas vezes no passado. Vamos tocar o álbum “Superunknown” na íntegra”. Loucura.

O concerto foi como uma reunião do Liceu, com o regresso de Matt Cameron à bateria (Matt era o baterista original dos Soundgarden, mas quando a banda se separou no final dos anos 90, juntou-se aos Pearl Jam) e a aparição de Mike McCready, também dos Pearl Jam, para o tema-título de “Superunknown”.

Foi uma festa de Seattle, todos juntos como nos tempos dos Temple Of The Dog, só que em vez de uma cave em Seattle, estávamos num parque em Londres.

Foi esta a última vez que os Soundgarden tocaram na Europa (Chris regressaria no ano passado, mas a solo) e é a memória que levo de Chris Cornell. Um de nós.

 

 

 

 

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