opinião

Celebrar o Natal com 10 músicas sobre homicídio

É Natal, é Natal, tralalalala. E estas são as 10 melhores canções sobre assassinatos para ouvir quando lhe apetecer esganar a tia avó.

Psycho Killer.

Natal é tempo de paz, harmonia e daquelas playlists com canções que passam em centros comerciais para maximizar as vendas. E centros comerciais à pinha de gente a ouvir o “Adeste Fidelis” são lugares propensos a ideias desviantes. Tempo por isso para uma resenha de canções sobre homicídios. Não falo de referências metafóricas como a morte em “Bohemian Rhapsody” (Mama, just killed a man…”), ou o afogamento que nunca aconteceu em “In The Air Tonight” (if you told me you were drowning, I would not lend a hand”). Isto é homicídio, assassinato, supressão da vida. Percebem onde quero chegar.

10. Guns N’ Roses — “Used to Love Her” (1988)

O homicídio como break up.

I used to love her, but I had to kill her” — aquela vontade de enterrar a nossa amada sete palmos debaixo da terra. Quem nunca? E mesmo depois de ir de vela, I can still hear her complain”.

Na verdade, segundo Slash, o tema não é sobre uma ex-namorada de um dos Guns, mas sim sobre o cão de Axl Rose que estava doente e teve que ser abatido. Mas não deixemos a verdade intrometer-se no meio de uma história bem mais interessante, não é?

9. Eric Clapton — “I Shot The Sheriff” (1974) 

O homicídio como defesa.

O protagonista do tema de Bob Marley queria defender-se da acusação pelo homicídio do adjunto do Xerife e para isso… admitiu que baleou o próprio Xerife. Negar um crime, confessando outro — uma técnica sui generis de defesa, ou aquele charrito a mais. Para a próxima talvez seja melhor ideia planear a defesa só depois de passar o efeito da moca.

Marley era odiado pelo Xerife da cidade e embora defenda que não sabia porquê, admite que podia ter a ver com aquelas plantinhas que ele tinha a crescer lá no jardim. (na verdade, esta parte era sobre a pílula contraceptiva que a namorada tomava contra a vontade de Bob, mas mais uma vez a verdade não é tão interessante como a nossa imaginação)

Bob Marley escreveu “I Shot The Sheriff” em 1973 para o álbum “Burnin’” dos The Wailers. O álbum chegou a Eric Clapton, que não só incluiu um cover de “I Shot The Sheriff” no seu álbum de rehab “461 Ocean Boulevard” — gravado depois de 3 anos de dependência de heroína  —, como também o lançou em single. A versão de Clapton atingiu o primeiro lugar nos Estados Unidos e acabou por alavancar a difusão da música de Bob Marley e do Reggae no mercado americano.

 

8. GNR— “Bellevue” (1986)

O homicídio como misericórdia.

Se o homicídio em “Bellevue” não é um acto altruísta, é pelo menos inofensivo, ou não fossem as vítimas desempregadas. Que diferença fazem eles à sociedade? — desculpa-se o protagonista imaginado por Rui Reininho, pelos corpos que deixou a boiar no lago “só para brincar ao cinema negro”. Sem mais amigos de sobra, todos enterrados no jardim, o homicida esconde-se solitário na Bellevue, encarcerado na sua própria prisão.

Muito curioso perceber que a referência aos “amigos enterrados no jardim” constante da letra original (e reproduzida na primeira prensagem de “Psicopátria”) foi alterada à última hora na gravação do tema para “as minhas amiguinhas lá no jardim”, que é a linha que se ouve na versão do álbum. Talvez os GNR achassem que a letra estava demasiado mórbida. E estava mesmo. Exactamente por isso é que era melhor.

Foto do LP original de “Psicopátria” cortesia de Paulo Garcia, radialista da Radar FM

 

7. Peter Gabriel — “Family Snapshot” (1980)

 

O homicídio como espectáculo.

Peter Gabriel escreveu “Family Snapshot” com base no livro “An Assassin’s Diary” de Arthur Bremer (1973), um homem que vivia obcecado com a ideia de se tornar uma celebridade a qualquer custo. Inspirado pelo assassinato de John F. Kennedy em 1963, Bremer planeou o homicídio de Richard Nixon como a forma mais fácil de se tornar famoso e só quando percebeu que tal seria extremamente difícil (Nixon era o presidente dos EUA na altura), mudou o seu alvo para George Wallace, político que defendia a segregação racial.

Bremer pretendia obter a maior cobertura mediática possível, pelo que temporizou o ataque de forma a aparecer nos jornais da noite na Europa e de fim de tarde nos Estados Unidos. Chegou até a pensar num soundbite para gritar enquanto atirava em Wallace — “A penny for your thoughts!”—, mas com o nervosismo do momento, esqueceu-se.

“Family Snapshot” acompanha o carrossel emocional do assassino, desde a frieza durante o planeamento do ataque, passando pelo turbilhão nervoso no momento do tiroteio, até à depressão pós-clímax, em que se apercebe que tal como quando era criança, só queria ter a atenção dos outros.

6. Talking Heads — “Psycho Killer” 

O homicídio como desporto.

“Psycho Killer” não é propriamente um tema sobre um homicídio. É sobre muitos. Aqui, o foco de David Byrne é o próprio homicida, um sociopata que age em regime compulsivo. É um dos raros temas que nos conduz à mente tensa, turva e elíptica de um serial killer.

“Psycho Killer” é uma canção nervosa, ansiosa e psicótica; um clássico de culto que se tornou o ex libris dos Talking Heads. Não admira por isso que fossem a banda preferida de Patrick Bateman de “American Psycho” (infelizmente esta informação só aparece no livro e foi omitida no filme de Mary Harron).

5. Nirvana — “Where Did You Sleep Last Night” (1994)

O homicídio como alienação.

“Where Did You Sleep Last Night” tem origem num tema muito antigo. “In The Pines” é um clássico do cancioneiro norte americano que remonta a 1870 e que em diferentes iterações ao longo das décadas (dos séculos!) conta a história de um/uma amante (depende do sujeito) que se portou mal aos olhos do protagonista e de um marido/mulher cuja cabeça foi encontrada ao volante de um carro e o corpo nunca foi encontrado. Independentemente dos detalhes da história, o importante são as emoções obscuras de alienação, traição e culpa, sentidas pelo protagonista. Todas elas estavam próximas de Kurt Cobain aquando da interpretação que vemos em cima, no programa Unplugged da MTV.

Até eu — longe de ser o maior fã dos Nirvana — sou tomado pela intensidade de Kurt Cobain neste tema. Atentem no Kurt aos 4:15 deste vídeo. É um olhar que vale por mil palavras.

 

4. Elton John — “Ticking” (1974)

O homicídio como notícia.

Bernie Taupin viu em Elton John o parceiro ideal para musicar as histórias de bandidos saídas do seu imaginário. Os exemplos ao longo dos anos foram inúmeros, mas destaco “The Ballad of Danny Bailey (1909-34)” (1973), obra-prima maior de Elton que conta a história da (curta) vida errante de um pistoleiro no faroeste americano e “I Feel Like a Bullet (in the Gun of Robert Ford)” (1975), que compara o comportamento de Bernie no seu casamento à bala fatal que atingiu pelas costas o fora-da-lei Jesse James. Qualquer um destes temas seria candidato a esta lista, mas nenhum deles retrata um massacre como “Ticking”.

“Ticking” é um épico que conta detalhadamente a história de um jovem calmo de classe média e boas notas na escola (an extremely quiet child), que um dia se passa da cabeça, entra num bar em Queens (NY) com uma caçadeira e mata toda a gente lá dentro. Uma história do imaginário de Taupin em 1975, mas que poderíamos ver nas notícias a qualquer momento nos dias de hoje.

3. Rage Against The Machine — “Killing In The Name” (1992)

O homicídio como ódio.

Não há nada de imaginário acerca do tema mais célebre dos Rage Against The Machine. “Killing In The Name” é sobre o inexplicável espancamento do taxista afro-americano Rodney King por 4 polícias da LAPD em 1991, os quais foram absolvidos em julgamento apesar das provas em vídeo. Quando as imagens foram parar às televisões, a revolta popular foi de tal ordem que se deram violentos motins em Los Angeles.

Os Rage Against The Machine (que no nome dizem logo ao que vêm) canalizaram a revolta em música e o resultado é o superlativo “Killing In The Name”. O tema teve várias vidas desde o seu lançamento original em 1991 e em 2009 lideraram a icónica Christmas Chart do Reino Unido, devido a uma campanha no Facebook destinada a impedir o single do X-Factor de ser nº 1 no Natal. E ora aí está

2. Pink Floyd — “Careful With That Axe, Eugene” (1969)

O homicídio como arte.

“Careful With That Axe, Eugene” é provavelmente o melhor tema de sempre sobre homicídio. Ou não. Fuck knows. Não sei eu e na verdade ninguém sabe o que em nome de Freddie significa este Mauna Kea psicadélico. Mauna quem? Mauna Kea, amigos, Mauna Kea — o ostracizado vulcão havaiano que é, ele sim, a montanha mais alta do mundo (isto é, que tem a maior distância altimétrica entre a base e o topo (10.2 km), em oposição ao popular rei-do-baile Monte Evereste, que é simplesmente a montanha de maior altitude (8.85 km) — e ora aí está um pouco de trivia para os meus pacientes leitores).  Mas porquê o Mauna Kea? Porque é hipster? Claro, mas mais que isso porque é um vulcão. E “Careful With That Axe Eugene” é um vulcão muito, muito zangado, que entra em erupção sempre que apertam os tomates ao nosso Roger o nosso Roger manda um daqueles gritos maníacos para dentro (já repararam? ele grita para dentro!), logo a seguir a suspirar careful… careful… wi-that-axe Eugeeeeene. Mas divago.

A metáfora da montanha pretendia descrever a estrutura Gaussiana do tema, começando na calmaria aquática das profundezas do Pacífico, subindo paulatinamente até ao momento do homicídio — aquando do grito de Roger — e depois afundando novamente até ao silêncio absoluto do oceano. Estruturalmente, “Careful With That Axe Eugene” é perfeito. Só não é certo que o tema retrate mesmo o homicídio do pobre Eugene, não sendo conhecido (e ainda bem) o real significado do tema mais misterioso e intenso da discografia dos Pink Floyd. Não há aqui qualquer palavra discernível, só o grito maníaco da morte.

1. Nick Cave and the Bad Seeds + Kylie Minogue — “Where The Wild Roses Grow” (1995)

O homicídio como epítome do romantismo.

“Where The Wild Roses Grow” conta a lenda de Elisa Day, de quem se dizia que era tão bonita como as rosas silvestres que cresciam à beira do rio. É uma história de amor que acaba com a morte de Elisa, porque “toda a beleza deve morrer”. A supressão da vida como a expressão máxima da paixão. Um sentimento tão grande que a vida não pôde conter. Ou haverá algo mais visceral que o homicídio?

O tema de Nick Cave (a fazer de assassino, com Kylie Minogue a fazer de Elisa) é uma história de amor com fim trágico… ou será que é? Falta contar o outro lado da história. Elisa vivia infeliz. Ela esperou toda a vida por um amor torrencial, mas estava condenada a ser tratada como um bibelot por homens que viam nela um mero troféu. “I wish I was scared that you killed me, but I guess that will never happen.” — pensou tantas vezes com antigos namorados. Quando finalmente chegou à cidade um homem que a amava com toda a intensidade que sempre sonhara, ela não se assustou quando o viu com uma pedra na mão e lhe sussurrou “all beauty must die”. Elisa respondeu com a calma de quem sente um amor maior que a vida — “You can murder me if you want” — e deixou pacificamente que ele esmagasse a sua cara à beira rio, onde o seu fantasma vive desde então.

25-11. Menções honrosas

15 temas que não entraram na lista, mas poderiam ter entrado.

25. Sufjan Stevens — “John Wayne Gacy Jr.” (2005)
24. The Decemberists — “Shankill Butchers” (2006)
23. The Police — “Murder By Numbers” (1983)
22. Richard Marx — “Hazard” (1991)
21. Tom Waits — “Murder In The Red Barn” (1992)
20. Bob Dylan — “Hurricane” (1976)
19. The Smiths — “Suffer Little Children” (1984)
18. Bauhaus — “Bela Lugosi’s Dead” (1979)
17. Johnny Cash — “Folsom Prison Blues” (1957)
16. The Beatles — “Maxwell Silver Hammer” (1969)
15. Pearl Jam — “Jeremy” (1991)
14. Bruce Springsteen — “Nebraska” (1982)
13. Neil Young — “Powderfinger” (1979)
12. Misfits — “Die Die My Darling” (1984)
11. Eminem ft. Dido — “Stan” (2000)

Para finalizar, uma playlist à Patrick Bateman com o serviço completo. É muita morte junta.

Feliz Natal, madafacas.