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Amor disfarçado com filtro sépia

Não me venham dizer que não sou feliz. Há duas semanas comprei um selfie stick e deixámos de ter duplo queixo nas fotos que tiramos ao pôr do sol na Caparica.
Tenho duas selfies em frente às pirâmides de Gizé por isso não me venham dizer que não sou feliz

Tenho duas selfies em frente às pirâmides de Gizé por isso não me venham dizer que não sou feliz. Numa delas, o pináculo da pirâmide está encostado ao meu dedo indicador por milagre óptico, o que me valeu mais de 30 likes. Na outra, o João beija a esfinge e eu tenho as olheiras disfarçadas pelo filtro sépia do Instagram. O João é a pessoa que aparece ao meu lado nas selfies e o outro nome que consta na minha declaração de rendimentos que entrego às Finanças.

Recebi no Facebook a seguinte frase: “É sobre miúdas como tu que se escrevem letras de música”. Uma mensagem privada de um desconhecido logo depois de eu ter postado a selfie com o João. O sépia nas fotos costuma ter esse efeito porque me dá um ar saudável e atenua as rugas de expressão.

Há uma torneira que pinga cá em casa. Oiço-a perfeitamente. O João tentou arranjar. Só a pôs pior. Quando a abro, apenas corre um fio triste, mas leva a vida a pingar, um remoque no inox do lava-loiças minuto após minuto. Toque, toque, toque. O João diz-me “amo-te” com o mesmo remoque da torneira que pinga. O resto da conversa dele é um fio triste.

Não dei hipóteses ao tipo do Facebook e ele passou a escrever frases de letras de músicas no meu mural. “I want hold your hand”; “you are too good to be true”; “baby one more time”. Tipo insistente. As minhas amigas garantem que eu gosto de dar trela, mas não é verdade. E não me venham dizer que não sou feliz. Há um mês postei um sashimi de atum braseado e taguei o João num dos pauzinhos do chinês. Fiz cinco tentativas e a foto ficou quase perfeita. Postei-a quando o João me disse “já posso comer, foda-se”!

Não dei hipóteses ao tipo do Facebook e ele passou a escrever frases de letras de músicas no meu mural. “I want hold your hand”; “you are too good to be true”; “baby one more time”. Tipo insistente

Não me venham dizer que não sou feliz. Há duas semanas comprei um selfie stick e deixámos de ter duplo queixo nas fotos que tiramos ao pôr do sol na Caparica. O João não costuma olhar para o telemóvel nas selfies, vê pelo canto do olho a empregada do café da Caparica e diz-me “amo-te” com o remoque da toneira que pinga. Também faço check-in em restaurantes pelo menos três vezes por semana. E ponho corações nos olhos de bonecos amarelos para atestar o quanto estou apaixonada. Logo, não me venham dizer que não sou feliz.

Há uns dias o tipo desconhecido do Facebook escreveu no meu mural “Somewhere beyond the sea / somewhere waiting for me / my lover stands on golden sands” e fomos tomar café à beira mar. Tirámos quatro fotografias com o iphone a fazer caretas e ele teve de ir para casa a correr porque também tem um torneira a pingar, toque, toque, toque, no inox do lava-loiças. À despedida disse-me, num fio de voz, “big girls don’t cry” e eu respondi-lhe “I will survive”.

Ontem tirei uma selfie com a torneira que pinga e passeia-a pelo Instagram. Talvez o tom sépia mude o remoque do “amo-te” do João.