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A miúda que decifrou o puzzle

O clique que pôs fim ao meu "Groundhog Day"

Perdoem-me a petulância, mas achei este Dia dos Namorados uma grande banhada. Não é um pensamento novo, mas se no passado o motivo do soslaio era comum à maioria de quem detesta o Dia de S. Valentim (estava solteiro), agora as minhas razões são outras. Celebração do amor? Mas qual amor? Alguém sabe o que isso é?

Não me levem a mal, não quero negar o amor de ninguém. Todas as formas são válidas, desde que ao abrigo da lei e até algumas, que (ainda) não estão reconhecidas, têm o meu apoio (não é disso que eu estou a falar, R Kelly). Amem-se à vontade. Amem-se bués. Amem-se à bruta. Se vos pergunto se sabem o que isso é, é porque tudo à minha volta parece menor, quando comparado com este sentimento esmagador que se abateu sobre mim sem dó nem piedade. Não sei explicar isto. É como se o Benfica ganhasse todos os dias. É como se o Jonas fizesse golo sempre que ela se ri. É como se eu fosse uma panela de pressão que só alivia quando lhe digo que a amo. É como os Pink Floyd: épico, gigante e impossível de categorizar. Notem que não há aqui lugares-comuns, só há os lugares do meu mundo que melhor se adequam ao que sinto. Falo com o que conheço.

O que é que isto tem a ver com música? Como tudo na minha vida, tudo começou com uma música (que ficará em segredo). Depois dessa música, deu-se início ao meu “Groundhog Day”, pleno de caos, equívocos e hedonismo. Mas não é essa a estória que vos trago. Vou fazer fast-forward para o capítulo mais interessante e contar-vos como se resolveu o enigma do dia em time loop. Mais uma vez, tudo começou com uma (outra) música. Dizia o Rui Veloso que “não se ama alguém que não ouve a mesma canção”, mas ninguém leva isso mais a sério que eu.

Não quero nem me atrevo a dissertar sobre o que motiva amar alguém. Mas será pacífico admitir vários estádios desse sentimento, desde a faísca do primeiro olhar, até ao clique mágico que nos deixa ‘head over heels’. O meu clique deu-se quando ela decifrou uma música eu tinha na cabeça. Assim, that simple. Teimosa, a música martelou-me durante semanas a fio, sem que eu soubesse título, letra, ou artista. Sabia apenas trautear um refrão em nananas (devo aqui abrir este parêntesis para dizer que sou um Shazam a reconhecer música). Era por isso uma missão impossível. E no entanto, quando eu lhe trauteei a melodia que me perseguia, ela chegou, ouviu e identificou: “Tonight”, Bryan Adams. O clique.

Era difícil ser mais foleiro, bem sei. Se me tivesse sido dado a escolher, teria matutado um tema obscuro do David Bowie, ou um Lado B dos The Smiths. Mas a vida não espera pelo lance da nota artística e decidiu resolver a contenda com um minor hit dos anos 80. Naquele momento, tive a certeza que era ela quem eu procurava. Se esta miúda era capaz de decifrar os puzzles da minha mente, era tudo o que eu queria.

Como explicar os mistérios do amor, quando é nas coisas mais simples que ele se descobre? Quando as peças se juntaram naquele clique, ficou tudo tão claro, tão nítido. Porra. Como é que eu perdi tanto tempo? Foi como se tivesse desperdiçado todos os dias desde que a conheci. Como se tivesse vivido o mesmo dia, repetido e cinzento, num “Groundhog Day” em time loop até que tudo se encaixasse no lugar certo. Quando ela decifrou o puzzle, eu pude finalmente acordar para um novo dia; com uma vista ainda melhor do que o Bill Murray para a Andie McDowell. E assim, um amor que começou confuso e desconfiado, transformou-se num furacão de loucura, paixão e desejo de mais e mais e mais, porque tudo nunca é demais. Tudo por causa de uma música. Sabem o que isso é?