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A apologia de Phil Collins — Uma reapreciação

Phil Collins faz hoje 65 anos e reedita a sua discografia a solo. Tempo para uma reapreciação.

Durante toda a minha infância, eu cresci rodeado de Phil Collins. Começando pela música que se ouvia em casa, espólio do meu Pai, passando pela rádio, lesta a passar os êxitos de Phil e dos Genesis, até às inúmeras colaborações de Phil com artistas de nomeada. Phil esteve no Live Aid, no Band Aid, nos concertos do Prince’s Trust, tocou com Eric Clapton, Elton John, George Harrison, Sting, Mark Knopfler (Dire Straits), Robert Plant (Led Zeppelin), Peter Gabriel (já lá vamos) e isto sem ter que sequer recorrer ao Google. Phil estava em todo o lado. Ele era “o” baterista de referência. Se havia uma superbanda, ele estava lá, ter Phil era sinónimo de qualidade. Foi assim que eu cresci com ele, como um tio não muito afastado, cuja presença era instantaneamente reconhecível e reconfortante.

Qual não é o meu espanto, quando começo a ganhar consciência da cultura popular e me apercebo que Phil Collins é, afinal, o músico mais odiado do Mundo. Um baterista prodigioso, dono de um sentido rítmico e melódico único, com qualidade reconhecida por uma lista infindável de outros artistas é, afinal, uma valente merda. Os próprios artistas que em tempos trabalharam com ele já lhe viravam as costas com medo que as nuvens negras que o atormentavam fossem contagiosas. A opinião pública foi de tal forma intoxicada que as gerações que estiveram expostas apenas à arvore das baladas marteladas diariamente na rádio, se apressam a desqualificar à partida o trabalho de Phil Collins. Eu, que sou um privilegiado por conhecer a floresta de toda a sua obra, não caio nessa armadilha.

Eu entendo que a ubiquidade de Phil durante duas décadas tenha saturado o público. Claro que entendo. Quantas vezes não vemos as canções que gostamos serem usadas e abusadas pela rádio, televisão e publicidade, numa repetição violadora que as despe de significado? Olhem para o que estão a fazer ao “Don’t Stop Me Now” dos Queen. É indigno. Experimentem dizer “cadeira” 100 vezes consecutivas. À vigésima, já nem se lembram para que serve. Mas se entendo a saturação, não compreendo a radicalização das opiniões aos extremos do ódio e do escárnio. Acima de tudo, não é justo.

Agora que Phil Collins faz 65 anos e vai reeditar os seus álbuns a solo, é tempo de fazer uma reapreciação a Phil e dar-lhe o devido reconhecimento. Os seus skills na bateria são inatacáveis (ouçam “The Musical Box” ou “Fountain Of Salmacis” dos Genesis, se quiserem ser esclarecidos acerca deste assunto), mas dizer que Phil Collins foi um dos melhores bateristas da sua geração é redutor para descrever o seu impacto como artista. Em 1979, quando Peter Gabriel procurava uma sonoridade nova para a bateria no seu 3º álbum a solo (“Melt”), foi buscar Phil Collins, pois claro. Phil e Peter, juntamente com os produtores Hugh Padgham e Steve Lilywhite, foram responsáveis por um estilo de bateria que marcaria toda a música nos anos 80: o “gated drum” e a ausência de pratos. A estreia desta sonoridade foi em “Intruder” de Peter Gabriel, mas foi com “In The Air Tonight” que se celebrizou. A impressão digital de Collins ficou então espalhada por todas a música que se ouvia.

Uma das críticas que é comum ouvir a Phil é a sua suposta plasticidade. Ora, os seus álbuns a solo são plenos de sentimento e de raiva. São reais. Talvez não todos, é certo. Eu próprio sinto que quando Phil deixou os Genesis em 1991, perdeu algum contacto com a realidade. Phil passou a ser um artista circunscrito e aborrecido e os seus álbuns seguintes pareciam mostrar isso. Mas ouçam os seu dois primeiros álbuns — “Face Value” e “Hello… I Must Be Going” — escritos na ressaca de um divórcio e verão que ele é a sério.

Só há uma coisa que a imprensa gosta mais que a ascensão de uma estrela, é a sua queda. A queda de Phil já durou tempo suficiente, atirou-o para uma depressão e por pouco não lhe tirou a vida. É tempo de lhe dar um abraço e agradecer-lhe tudo de bom que nos deu. Se fazem parte do grupo dos incautos que desconhece a floresta da obra de Phil, abram a mente e atrevam-se a dar uma espreitadela na playlist. Pode ser que se surpreendam.

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