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Menos carros e mais esplanadas: é este o plano de Madrid para depois da pandemia

A capital de Espanha quer criar zonas verdes em todos os bairros para que os habitantes não precisem de se afastar de casa.
A cidade está cheia de esplanadas.

Os debates sobre o relaxamento das restrições impostas para travar o surto do novo coronavírus, o regresso das atividades económicas e dos cidadãos aos espaços públicos estão a exigir às grandes cidades uma mudança de paradigma. A reabertura dos restaurantes, comércio e transportes públicos levantam vários desafios, entre eles conseguir manter a distância de segurança necessária para garantir a segurança dos cidadãos.

A primeira conclusão é esta: é preciso repensar os espaços públicos, mudar a urbanização e tirar o máximo partido possível das zonas públicas. A câmara municipal de Madrid, a capital de Espanha, está há alguns dias a focar-se neste tema. Na quinta-feira passada, 23 de abril, foi criada uma estratégia conjunta das áreas de desenvolvimento, ambiente e mobilidade da cidade para encontrar o melhor equilíbrio lógico nesta que será a nova normalidade.

O consenso parte de uma premissa, a de que as pessoas se vão continuar a sentir mais seguras se estiverem perto de casa — cruzar a cidade de metro para ir jantar fora está fora de questão.

Assim, o governo de Madrid decidiu que seria necessário fazer novos pontos de encontro nos bairros e nas praças, que permitam aos cidadãos fazer as compras, passeios ou beber uma cerveja sem precisar de se deslocar constantemente. 

Um dos principais debates gira em torno do espaço ocupado pelos automóveis dos residentes, que preenchem grande parte da via pública, podendo esse, em alternativa, destinar-se a aumentar a capacidade de comércios ou a garantir o distanciamento social. Muitos desses carros estão parados durante várias semanas ou até mesmo meses. A câmara está a ponderar construir parques nos limites da cidade ou disponibilizar parques públicos subterrâneos para os residentes colocarem as suas viaturas.

Apesar de muitos precisarem dos seus carros no dia a dia, há também um grande número de pessoas que pode substituí-los pelos transportes públicos, serviços de car sharing, bicicletas ou deslocar-se a pé. O especialista em mobilidade Miguel Álvarez disse ao jornal espanhol “El Confidencial” que em alguns bairros as ruas se transformaram em parques ao ar livre e os espaços estão todos preenchidos por carros, destacando Vallecas, Usera, Carabanchel e Tetuán.

José Luis Martínez-Almeida, presidente da câmara de Madrid, decidiu fechar o parque do Retiro — o mais importante da cidade — antes de ser implementado o estado de emergência, com o objetivo de evitar as aglomerações características. No entanto, o autarca defende agora que será necessário existirem mais parques e mais zonas verdes por todos os bairros, onde as crianças possam ir brincar sem ser necessário afastarem-se de casa.

A criação de parques é desafiante, já que a cidade se encontra quase toda edificada, mas a ideia passaria por criar zonas de jogos para os miúdos e reutilizar áreas que estejam desaproveitadas. A Alemanha seguiu também este caminho, com muitos mini espaços e pequenos parques que ajudam a dispersar a população, evitando grandes aglomerados.

Na rede de transportes públicos, os especialistas propõem a tecnologia como a melhor resposta. Os ecrãs a informar as horas de passagem dos autocarros, por exemplo, poderão ajudar a evitar que as pessoas se aglomerem na paragem à espera.

O futuro da hotelaria e comércio ainda está a ser debatido pelo governo da cidade. Muitos dos restaurantes têm esplanadas, o que pode consistir a sua salvação, já que o funcionamento nos espaços interiores terá maiores restrições. Alargar a temporada de verão até março de 2021, por exemplo, seria uma solução, bem como aumentar os horários das esplanadas estabelecidos pela câmara. Além disso, será também estudada a possibilidade de aumentar a superfície mantendo o mesmo número de mesas e cadeiras para possibilitar um maior distanciamento entre os clientes.

Uma questão que está a ser também debatida em Madrid é a das residências sem pátios, varandas ou exposição solar, fatores que se revelaram importantes na qualidade de vida dos cidadãos durante o período de quarentena e que, antes, eram ignorados. Muitos dos prédios da cidade têm janelas que dão para o interior. “Quanta gente se terá arrependido de fechar o terraço ou não priorizar as varandas?” questionou o especialista José María Ezquiaga, que defende até uma atualização nas normas de construção vigentes.

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