Viagens

As “novas” viagens aos olhos de uma médica portuguesa— de autocaravana pela Islândia

Como é viajar num mundo onde há Covid-19? As primeiras respostas pela experiência de Andreia Castro, uma médica que é viajante.
Na Islândia (foto do Instagram).

A pandemia do novo coronavírus mudou muita coisa, inclusive a forma como encaramos as viagens. Até há uns anos, muitos de nós viviamos na sofreguidão de viajar, de conhecer destinos, de explorar mundo —até que tivemos de parar. É possível que, para algumas pessoas, viajar nunca mais volte a ser igual, com todos os cuidados e receios que agora o rodeiam. Mas para a portuguesa Andreia Castro, que mistura precisamente estes dois mundos que desde março colidiram: a medicina e as viagens, não é uma pandemia que a vai parar. Tanto que já partiu, para a aventura da sua vida.

Andreia tem 34 anos, é médica e bloguer de viagens. Neste momento encontra-se a viajar pela Islândia, onde chegou no dia 3 de julho e onde estará até ao próximo dia 14, explorar numa autocaravana. 

Dado o contexto actual, com todo o receio inerente aƒ voltar a viajar, a portuguesa acredita que mostrar uma experiência em tempo real, com todos os cuidados que podem e devem ser seguidos, pode ter um impacto positivo para relançar a confiança no turismo nacional e internacional.

E é precisamente isso que tem feito: no seu blogue, Me Across The World, e Instagram, relata na primeira pessoa a experiência e a sensação de voltar a viajar após o confinamento, o que tem sentido e vivido enquanto turista e “frequentadora” do Aeroporto de Lisboa e dos procedimentos de entrada na Islândia. para começar; e depois claro, de toda esta aventura que está a realizar.

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Uma vez que o Me across the World tem de estar parado por motivos de força maior, vamos avançar com uma nova temática: o "Me across the Hospital"!! Segue então aqui a rubrica estilo “diário de um SU”, onde vos contarei as peripécias de quem está a viver esta situação do Covid com direito a declaração de cirulação.. para trabalhar claro! De resto.. boa Páscoa! 🐰 As notícias da epidemia soavam já desde Dezembro, vindas da China (lá no fim do mundo). Parecia daquelas coisas que só se viam nos filmes, e a comunicação social muito fazia para que assim fosse: em breve, tudo seria mais uma notícia esquecida no meio de tantas outras, mais uma história alarmista sem motivos para tal. Como tanta gente, fui uma das que desvalorizou o problema e as proporções que o mesmo viria a tomar. Contudo, nunca a China foi tão perto, nunca foi tão fácil de viajar, nunca foi tão fácil de acordar numa ponta do planeta e adormecer noutra. Em 3 meses tínhamos o primeiro caso em Portugal. No Serviço, as nossas chefias desdobravam-se em reuniões. Um das unidades periféricas do grupo fechou primeiro, e era fácil de antever que seriamos os próximos. Cada caso “suspeito de Covid” metia medo e impunha respeito. As equipas receavam o desconhecido, enquanto nos atabalhoávamos com todos os procedimentos de isolamento e desinfeção. Pessoalmente, o medo de escapar um possível diagnóstico era bastante maior do que o risco de me infectar. Nessa altura estávamos ainda dependentes da validação superior com critérios epidemiológicos, o que rapidamente deixou de dar resposta: os contactos multiplicavam-se, as exceções às normas cresciam e criavam espaço para dúvidas, e rapidamente foi claro que tínhamos chegado ao estado de mitigação. . Em casa, o telefone toca: do outro lado o meu chefe anuncia-me diretamente que o meu serviço também iria fechar no dia seguinte. “Mas como pode um SU fechar nesta altura?..” Eu, como todos, compreendemos o motivo mas não a forma: juntar doentes de risco acrescido (como os oncológicos) num ambiente mais protegido covid-free, era imperativo, razoável e sensato – e para isso tínhamos de encerrar portas. Porém, e de um momento para o outro, fiquei pela 1a vez desempregada.

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À NiT, a médica e viajante de coração conta a sua história, também na primeira pessoa. E tudo o que pode esperar quem já só pensa em viajar — pelos olhos de uma amante de viagens que é também profissional de saúde.

Quem é a médica viajante

Sou a Andreia Castro, 34 anos. Actualmente moro na Parede, embora seja natural de Sintra e tenha residido em Oeiras assim que comecei a minha actividade profissional em 2011. Especializei-me em Medicina Geral e Familiar porque gosto de tudo o que a medicina envolve e não conseguia limitar-me a uma especialidade mais focada numa área concreta. O médico de família trabalha a pessoa como um todo, na componente física e psicológica, e acho isso fascinante. Exerci a profissão em Centros de Saúde até 2017, altura em que me desvinculei do SNS por não me identificar com alguns modelos de funcionamento, e por sentir que precisava de mais da minha vida privada.

Em paralelo, sempre trabalhei em contexto de urgência, e essa passou a ser, juntamente com a Consulta do Viajante que faço online em plataforma própria (www.consultadoviajanteonline.pt) os meus principais focos ocupacionais. Com a pandemia o trabalho ficou por motivos óbvios focado em dar assistência hospitalar aos “doentes covid” e “não-covid”. Foram tempos inicialmente de muita ansiedade até para nós — profissionais de saúde — e de grande desgaste físico e emocional. Encontro-me apreensiva por esta época de outono-inverno que se avizinha e que acredito que não vá ser nada fácil para nenhum de nós.

O mundo das viagens

O mundo das viagens começou muito cedo, porque os meus pais faziam por me levar com eles de férias apesar dos custos acrescidos. Uma das melhores experiências que tive em família foi viajar de carro até ao Luxemburgo, durante um mês, tendo ficado sempre em parques de campismo, isto com apenas 8 anos de idade. Aos 13 anos fui seleccionada para participar num intercâmbio que me levou por duas semanas ao Japão, onde fiquei em casa de uma família japonesa. Claro que isto vai abrindo a mente de qualquer pessoa, por muito nova que seja… Aos 21 anos optei por fazer Erasmus em Paris, onde vivi durante um ano. Foi nesta altura que comecei a ganhar autonomia, marcando as minhas primeiras viagens sozinha e ficando em hostels. Aos 25 fui terminar uma pós-graduação em Saúde Mental em Cuidados de Saúde Primários a Londres, onde também vivi durante um mês.

A vontade de viajar foi sempre crescendo, assim como a experiência adquirida nas mesmas. Com amigos ou em grupo, visitei países com a China, Madagáscar ou Birmânia e viajei de autocaravana por alguns dos Parques Naturais dos Estados Unidos. Em voluntariado, trabalhei nas roças e no Hospital da Ilha do Príncipe (S.Tomé e Príncipe), onde fiz rastreios e consulta.

Em 2017 tive a minha primeira experiência de viajar realmente sozinha, e de cinco dias na Eslovénia passei para cinco meses de mochilão pelo Hawaii e América do Sul. Foram dos dias mais felizes da minha vida, conheci imensas pessoas a quem posso chamar de amigos e com quem ainda hoje mantenho contacto (e que também já recebi em minha casa) e nunca me senti realmente em perigo. Pelo contrário, fui sempre extremamente bem recebida por estranhos que me ajudaram em várias ocasiões, desde facilitar alojamento até me oferecerem refeições, boleias ou bilhetes de transporte.

A América do Sul guarda, por motivos óbvios, um lugar muito especial no meu coração, pela mudança que trouxe na minha vida. Depois de regressar a Portugal, e ainda com algumas viagens pelo meio, decidi que ainda tinha de experimentar algo que estava pendente há muito tempo — trabalhar num cruzeiro. Inscrevi-me online, passei nas várias entrevistas e em menos de dois meses estava em Miami e prestes a embarcar para as Caraíbas, onde integrei a equipa de um cruzeiro de luxo ao longo de três meses. Foi nesta ocasião que explorei melhor locais idílicos como Barbados, Turcos e Caicos, Antigua, St. Lucia e as Ilhas Grenadinas, entre outras.

Actualmente encontro-me na Islândia, o meu 66º país, e posso já dizer que muito provavelmente ficará no topo dos meus favoritos a par com o Chile. As paisagens são singulares, deslumbrantes e muito ricas. É bom podermos sair da vida da cidade e encontrarmos a natureza em estado selvagem, sem a pegada do homem.

O blogue de viagens

O Me across the World, o meu blogue de viagens, nasceu também em 2017 sem intenções de maior: digo meio a brincar que “não sei quando virá o Alzheimer”, e o meu sonho foi sempre deixar as minhas memórias organizadas para os netos poderem ler um dia mais tarde e pensarem: “que grande maluca que era a minha avó!” Obviamente que até esse dia chegar, foi um meio de os meus pais, amigos e restante família irem estando a par das minhas aventuras, sentirem-se próximos e viverem um bocadinho daquilo que eu estava a viver. Por esse motivo, o blogue tinha inicialmente um cunho muito pessoal, de vivências, emoções e opiniões, e só ultimamente com o seu crescimento é que tenho criado textos mais voltados para o uso público.

A viagem à Islândia

Ainda em tempos de confinamento, nunca deixei de estar atenta às directivas internacionais no que a viagens diz respeito — até porque parte da minha actividade profissional, a Consulta do Viajante, é dela dependente. Receosa de um novo fecho de fronteiras, não deixei de acreditar que estes meses poderiam constituir uma oportunidade única para sair do país antes de começar a época outono-inverno, que para nós profissionais de saúde será especialmente dura.

A Islândia apresentava-se não só como um destino possível como também reunia muitos factores que tornaram esta viagem uma realidade: é um país membro do espaço Schengen, protegido por leis e formas de estar comuns à maioria dos países europeus. Pelo facto de ser remoto e pelas próprias características da sua geografia, teve muito poucos casos de Covid (cerca de 1855 — há dias que tem apenas cinco casos por dia dia; e apenas 10 mortos no total para uma população de apenas 364 mil habitantes, cerca de 3.5 por quilómetro quadrado).

Os receios prenderam-se naturalmente com a possibilidade de eu ser uma portadora assintomática do vírus, o que significaria que caso acusasse positivo no rastreio estaria condicionada a uma quarentena de 14 dias no destino, sem possibilidade de qualquer “passeio”. Felizmente o teste deu negativo, e obtive o resultado em menos de 12 horas. A Islândia implementou um sistema muito eficiente, em que é feito um pré-registo pela internet com possibilidade de pagamento do teste online (cerca de 60 euros) ou já no aeroporto (80 euros), aquando da testagem. O resultado é enviado por sms para o telemóvel.

Assim, encontro-me agora de forma segura e tranquila e viajar pela Islândia, numa pequena auto-caravana sem cozinha ou casa de banho, até ao próximo dia 14 de julho, num percurso de cerca de 11 dias que pretende dar a volta à Ilha. Ainda no primeiro dia visitei a magnifica Gullfoss, uma das maiores cascatas da Europa e uma soberba obra da natureza e da sua força, Strokkur (um geiser que atinge os 40 metros de altura!), e passeei pelo Parque Nacional Thingvellir, com paisagens incríveis, campos verdejantes debruçados sobre os lagos, imponentes escarpas verticais de magma com quilómetros de extensão e alguma componente histórica — é aqui que se localiza o primeiro parlamento da Islândia e que remonta ao ano 930 e onde a separação de placas tectónicas entre a Europa e a América é visível à superfície.

Como foi voltar a voar

Após seis viagens canceladas nos últimos meses, voltar a voar após o confinamento trazia tanto de curiosidade quanto de expectativa e excitação associadas. Apesar de todos os receios, marquei ainda nos primeiros tempos de confinamento a minha primeira viagem, para a Islândia.

Imagem de Andreia Castro.

Assim, malas feitas, foi altura de rumar ao aeroporto. Apesar de todos os procedimentos que poderiam ser necessários realizar, ainda não foi desta que cheguei mais cedo que o previsto. Com cerca de uma hora de antecedência, encontro um aeroporto desoladoramente vazio, mas o meu coração não podia ir mais cheio: este será sempre um dos meus lugares favoritos do mundo, por tudo aquilo que simboliza.

É tempo de avançar e entregar a mala para o porão. Nota-se que os funcionários estão mais relaxados — provavelmente resultado do menor fluxo e stress laboral —e sou extremamente bem atendida e com uma atenção acima do habitual.

Atravesso o duty-free, a área de lojas e a da restauração, apercebendo-me de vários pontos de desinfecção das mãos. A sinalética é simples e eficaz, tornando-se apelativa sem ser intrusiva. Sim, faz-nos querer cumprir as normas de segurança. Próxima paragem, verificar o boarding pass no sistema automático, passar outra barreira de segurança e a mochila nas máquinas de Rx. Ao longo de todo o percurso, o chão assinala devidamente o distanciamento social, que as pessoas fazem por cumprir.

Chegando à porta de embarque, noto novamente alguns bancos devidamente assinalados para garantir o distanciamento, mas que por esse motivo tornam os disponíveis insuficientes para toda a gente. Ninguém parece estar muito incomodado: as pessoas esperam de pé, sem aglomerados, e no geral parecem contentes por finalmente poderem voltar a viajar.

E, finalmente, o momento pelo qual esperava há meses. É tempo de embarcar. Respeitando a fila, mantendo sempre a máscara desde o início de entrada no aeroporto, sou recebida pelos comissários de bordo que com a simpatia habitual me dão as boas vindas e uma toalhita desinfectante. É tempo de sentar e relaxar. É tempo de voltar a viajar. Em Portugal ou fora dele, que viajemos e desconfinemos com segurança e responsabilidade.

 

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