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Depois da pandemia a reflexão: em Veneza pede-se o fim do turismo em massa

A cidade lutava contra a saída de residentes, descaracterização, questões ambientais. Muitos querem que se aproveite para mudar.
A cidade dos canais mudou.

Estávamos ainda em fevereiro quando surgia a noticia: dias depois de começar, o Carnaval de Veneza, um dos eventos mais importantes no circuito turístico a nível mundial, tinha sido cancelado. O motivo parece agora meio surreal — ainda que a decisão se tenha vindo a provar acertada ou até tardia, sobretudo depois de sabermos a dimensão do embate terrível que a Itália viria a ter, e ainda tem, na luta contra o coronavírus: mais de 227 mil casos e de 32 mil mortes, até à data.

Mas nesse dia em que se anunciava o cancelamento do seu Carnaval, Veneza tinha apenas três casos. Na Itália toda, havia 132. Três meses depois, a cidade dos canais, tal como o seu país, ainda não está recuperada da crise do coronavírus — tecnicamente, ainda nem sequer saiu dela. Mas aqui, como em todo o mundo, já se começa a pensar o futuro. E a analisar que mensagens e recados tudo isto poderá deixar.

Em Veneza não só se espera uma retoma do turismo; em grande medida precisa-se mesmo dela, já que, tal como noutras cidades, este era o principal setor da economia, interligado com praticamente todos os outros. 

A cidade está há vários meses deserta, os restaurantes fechados, as multidões desapareceram e, sem gondolas e barcos a circular constantemente, até os canais estão mais claros e limpos.

Agora, relata a “CNN Travel“, enquanto a Itália começa suspender as restrições em grande parte do país depois de estar totalmente fechada desde 10 de março, as ruas de Veneza estão a começar a voltar à vida. Não com turistas ainda, nem teriam como lá chegar; mas de equipas de limpeza e desinfeção, donos de lojas e restaurantes.

Esta semana, o país anunciou que vai reabrir todos os aeroportos a partir de 3 de junho, dia em que também reabre as fronteiras, depois do encerramento provocado pela pandemia de Covid-19. Quem visitar a Itália, não terá à partida de ficar em quarentena.

Mas, na cidade dos canais e dos 30 milhões de turistas anuais, o canal norte-americano relata que paira muita incerteza. A maior fatia do turismo não era de italianos: e sim de pessoas vindas de todo o mundo.

Por isso, muitos comerciantes perguntam-se se alguma vez as coisas voltarão a ser as mesmas; e vários cidadãos questionam se é sequer do interesse da cidade que sejam.

À CNN, Jane da Mosto, do grupo sem fins lucrativos We Are Here Venice que tem lutado por um turismo sustentável para a cidade — sem cruzeiros, filas, turismo em massa — frisa que a pandemia pode e deve ser um ponto de viragem.

Veneza é um caso típico, um exemplo, da subida galopante do turismo e suas consequências. Nas últimas décadas, à medida que os turistas chegavam, e com eles crescia a hotelaria e o alojamento local, a cidade ficava sem residentes, os preços subiam, os sítios descaracterizavam-se. Praticamente ninguém ali vivia, a usufruir das maravilhas de morar numa zona feita de canais — há apenas 52 mil residentes.

Os representantes de várias associações destacam que a dimensão do vazio em Veneza, do quão deserta ela está, é a prova viva de que, sem turistas, quase não há Veneza; e que havia já esforços do governo local para preservar minimamente o ambiente e controlar a situação. Começaram a ser cobradas taxas turísticas, impostos limites ao alojamento local, falou-se numa proibição dos cruzeiros, que nunca avançou. 

Muitos vêm agora a pandemia como uma hipótese de criar um novo tipo de turismo sustentável, enquanto ainda é tempo. A estação cita Melissa Conn, diretora da Save Venice, que fala de um regresso esperado ao turismo lento, e não em massa. Com isso, explica, há uma oportunidade rara para “reconstruir, restabelecer e repensar Veneza”.

Claro que haverá negócios a fechar, quebras económicas mas até aí há oportunidades, frisa: de os empresários se virarem para programas académicos, lojas de artesanato e com cunho pessoal, alojamentos para estudantes, entre tantas hipóteses. 

Certo é provavelmente terão mesmo de inovar e se reinventar: isto porque as autoridades italianas prevêem que, apesar da reabertura em junho, a pandemia possa desencorajar o turismo em Itália, que previa 200 milhões de visitantes este ano — mas espera agora perder pelo menos 120 milhões.

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