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A Suécia combateu a pandemia sem confinamento: será que valeu a pena?

Cinco meses depois do coronavírus atacar a Europa, é tempo de fazer contas à estratégia surpreendente do país escandinavo.

Assim que a pandemia chegou à Europa, todos os olhos se viraram para a Suécia. Ao contrário dos restantes governos, o do país escandinavo resistiu à tentação de tirar o povo da rua, fechá-lo em casa e aguentar o máximo de tempo possível até que a tempestade passasse.

A estratégia surpreendente contrariava as diretivas da Organização Mundial da Saúde e deixava adivinhar que o objetivo seria a tão ansiada imunidade de grupo. O Reino Unido tentou fazê-lo, até não resistir ao ataque feroz da opinião pública, que crescia à medida que o número de mortos e infetados aumentava. Os suecos sempre negaram a intenção. Cinco meses depois do pico, com os números em fase decrescente na maioria dos países europeus, o que aconteceu ao plano sueco? Foi um golpe de génio ou uma ideia irresponsável?

Os números de infetados no país têm diminuído numa proporção estável e longe do pior cenário sentido no pico. Embora o cenário não seja desastroso, continua a ser significativamente mais negro do que o dos países vizinhos.

“O que temos assistido é uma tendência decrescente no número de pacientes nos cuidados intensivos e também no número de mortes desde meados de abril”, revelou no final de julho Anna Mia Ekstrom, professora de epidemiogia do Instituto Karolinska.

A taxa de mortalidade, relativamente ao número de habitantes, é uma das maiores da Europa e o pior registo entre países nórdicos. Ainda assim, o panorama negro do pico vivido em finais de junho — que registou mais de 1.800 infetados num só dia — já vai longe e a média diária de novos pacientes ronda os 200.

É tudo uma questão de perspetiva: a Itália, um dos países mais afetados pela pandemia, tem atualmente uma média semelhante, com a ressalva de que tem mais de 60 milhões de habitantes. A Suécia tem, portanto, uma média seis vezes mais alta do que a italiana, quando analisada em proporção.

O mesmo sucede no número de mortes. Com uma população semelhante à de Portugal, tem três vezes mais mortes registadas por Covid-19. No ranking de mortes por milhão de habitantes, a Suécia ocupa o oitavo lugar, imediatamente atrás de Espanha e Itália. 

“É bom. Finalmente estamos onde esperávamos estar, só que chegamos lá bastante mais cedo do que esperávamos”, revela Anders Tegnell, a mente por detrás da estratégia sueca para a pandemia. E continua a afirmar que “não há provas de que um confinamento faria a diferença”. 

A estratégia pretendia evitar o confinamento e tinha em segundo plano a intenção de afetar o mínimo possível a economia. De acordo com a “BBC”, as previsões económicas indicam que a economia sueca irá retrair-se em cerca de 5 por cento. Um valor mais simpático quando comparado com Itália, Espanha ou Reino Unido — mas semelhante ao dos países vizinhos. 

A taxa de desemprego continua a ser a mais alta da região com 9 por cento, uma subida dos 7.1 por cento registado em março. Uma consequência da dependência económica dos restantes países europeus, cuja recessão tem impacto indireto na economia sueca, justificam os especialistas.

Com dois objetivos falhados, sobra a esperança de atingir a imunidade de grupo — embora sem certezas, estima-se que isso possa acontecer quando 70 por cento da população esteve em contacto com o vírus e ganhou resistência —, que aparentemente também saiu frustrada.

Os últimos dados avançados pela Agência de Saúde Pública da Suécia revela que apenas 6 por cento da população terá anticorpos. Tegnell defende que o número será bastante maior, até porque a imunidade é algo difícil de medir.

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