Viagens

A pequena vila austríaca que terá inspirado “Frozen” não aguenta mais turistas

Hallstatt recebe 10 mil pessoas por dia à procura da selfie perfeita — e está a ser destruída, dizem os moradores.
Foto do Instagram.

Tudo não passa de um rumor, mas nos dias que correm, em que as imagens e ideias viajam por vezes mais depressa do que a informação, foi só isso que bastou. Nos Alpes suíços, perdida nas relativamente desconhecidas montanhas de Salzkammergut, fica a pequena vila de Hallstatt.

Em 2019, quando o antecipado filme “Frozen II — o Reino do Gelo” estreou, adensou-se um rumor antigo de que seria Hallstatt a inspiração real de Arandelle, o reino mágico e gelado dos dois filmes. A informação nunca foi oficialmente confirmada, podendo até ser (ou não) verdade. Mas o certo é que a invasão de turistas, que já tinha começado uns anos antes, parece agora imparável.

À procura da selfie ou da foto de Instagram perfeita. É assim que o jornal inglês “The Guardian” descreve os mais de 10 mil visitantes que a vila chega a receber por dia, depois de séculos a viver numa existência pacata.

Não é que as semelhanças com Arandelle não estejam lá: a vila é incrivelmente parecida com o reino criado pela Disney para o filme de animação mais popular de sempre. A neve é uma presença quase constante, a localidade encontra-se numa baía perfeita e existe até uma igreja junto à água de um enorme lago rodeado de montanhas que se parece mesmo com o Castelo de Anna e Elsa. A sensação de estarmos numa vila de conto de fadas é inegável, mas simplesmente a informação nunca foi confirmada pela Disney; havendo até outras localidades apelidadas de “verdadeiras” Frozen, como uma vila na Noruega  que terá sido visitada pelos produtores do filme para inspiração — como a NiT já noticiou

Só que os turistas não param de chegar a Hallstatt. “Let it Go”, escreve o jornal, numa referência ao tema do primeiro filme. Mas é mesmo isso que os responsáveis locais parecem querer: que os turistas deixem a vila dos Alpes em paz.

A pequena terra tem pouco menos de 800 habitantes, o que eleva o número de turistas, face ao rácio por morador, para valores assustadores: seis vezes mais do que em Veneza por exemplo, já de si a braços com um problema de excesso de turismo.

As visitas chegam sobretudo da Coreia do Sul, Japão, Hong Kong e China, mas há de todo o mundo. A vila é Património Mundial da UNESCO desde 1997 e tem uma beleza inegável, mas agora tem sido apelidada como “o local mais Instagramável do planeta”.

A Arendelle do filme.

Até foi criada uma conta própria no Instagram, por um gestor de várias redes da Áustria, que admite que tudo o que se passa no @Hallstatt_Gram tem mais sucesso do que em qualquer outra localidade do país.

A história de toda esta fama é no mínimo insólita, até porque tem início bem antes da associação a “Frozen”. A vila começou a atrair multidões depois de aparecer num programa de viagens sul-coreano, em 2006.

Encantados com a sua beleza natural, os turistas asiáticos espalharam a popularidade e começaram a chegar em massa. Em 2011, um milionário chinês até terá gasto cerca de 800 milhões de euros para construir uma réplica exata da vila, na província de Guangdong, China.

Quando o primeiro “Frozen” foi lançado em 2013, começaram os primeiros rumores das incríveis semelhanças com Arendelle e desde então tem sido uma subida vertiginosa do turismo, adensada agora pela estreia do filme-sequela.

Segundo vários meios britânicos, a situação começa a fugir do controlo: os turistas tiram selfies, pilotam drones e posam para fotos em todo o lado. Como há poucos alojamentos e restauração, chegarão a pedir para utilizar casas de banho privadas, havendo já quem cobre o empréstimo.

Com tanta movimentação, no ano passado houve mesmo um incêndio que queimou uma parte histórica da cidade, mas não se sabe como começou. Segundo a “CNN”, a vila “está à beira do ponto de ruptura há algum tempo”, tendo seguranças desde 2017 à entrada de igrejas para que os turistas não interrompam os serviços.

Até há bem pouco tempo o turismo era considerado uma bênção: a vila floresceu, a economia cresceu, os serviços passaram a ficar abertos o ano todo e ainda no ano passado o autarca Alexander Schuetz dizia que era uma parte indispensável da economia da cidade. Graças ao turismo foram financiadas escolas e salas de concertos. Mas começaram os problemas de lixo e de segurança. Neste momento, a mesma autarquia já fala em medidas urgentes para limitar o turismo, controlando por exemplo a chegada de autocarros.

O acesso a Hallstatt é relativamente fácil: por carro, autocarro ou comboio: a vila mágica fica a cerca de uma hora de Salzburgo e a três de Viena. Para quem quiser conhecer, só tem de apanhar um voo — de Lisboa a Salzburgo consegue a 150€ em março, ida e volta — e depois um autocarro, a partir de 13€.

Para dormir, há hotéis a partir de 110€ por noite e pitorescos alojamentos locais a rondar os 200€.

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