Turismos Rurais e Hotéis

Sugestão NiT: o turismo rural no Douro de onde ninguém quer sair

A Quinta de S. Bernardo nasceu em 2016, encravada entre os comboios, as vinhas e o rio. Não é nada fácil arranjar vaga. Adivinhe lá porquê.
Não há muitos cenários como este.

Faças as malas. O carro, esse pode ficar estacionado na garagem. As férias são, ou deveriam ser, um momento para abolir todas as tarefas dispensáveis. A viagem de carro até às portas do Douro faz-se em apenas uma hora a partir do Porto, mas as duas horas de comboio têm duas bênçãos: pode aproveitar a vista sem estar atento ao trânsito; e assim que pousar o pé na estação de Barqueiros, só precisa de percorrer alguns metros até à Quinta de São Bernardo.

Este é, aliás, o roteiro seguido por muitos dos visitantes da quinta, que só têm que avisar o dia e a hora em que chegam. À sua espera estará alguém para o guiar, de carro claro, pelos 400 metros que restam. É literalmente a dois metros de distância dos comboios que passam, majestosamente encalhada entre a linha férrea e o rio, que está a casa erguida algures no século XVIII — pelo menos segundo o historiador que ajudou a reconstituir a história da quinta.

Outrora uma casa de família, é hoje gerida por um dos herdeiros mais novos e a sua mulher. Um projeto nascido de uma pouco complicada fórmula. Diogo e Marcela Monteiro conheceram-se nos Estados Unidos e foi também lá que, em viagem pela região vinícola da Califórnia, se inspiraram. Quiseram trazer o que lá se fazia de bom e replicá-lo na quinta de Vila Jusã. Um conceito de luxo, é certo, mas “mais virado para um público jovem”. “Temos 33 anos, queríamos que isto fosse a nossa cara”, conta a NiT Marcela Monteiro.

Entre a linha e a vinha.

Batizada com o nome de Quinta de S. Bernardo em 1912, nos 15 hectares sempre se cuidaram das vinhas. Só em 2004 é que as uvas apanhadas na vindima deixaram de embarcar nas carrinhas e passaram a ser transformadas em vinho ali mesmo. A quinta tinha tudo, ou quase tudo, para ser um destino de eleição.

“A quinta está a cerca de uma hora de distância do Porto, no início da zona de produção de vinho do Porto, num local onde ainda não há muitas quintas. E estamos a uma hora do Pinhão, que é para onde a maioria das pessoas vai, onde há mais quintas, mais provas, mais coisas para visitar e até restaurantes”, nota Marcela. Era preciso garantir que quem lá chegasse, não quereria sair de lá nem por nada. Era preciso dar tudo. E assim foi.

Abrir a porta do Douro

O casal deixou para trás os Estados Unidos e seguiu as suas respetivas profissões em Portugal. Diogo, formado em arquitetura e design gráfico, já dava uma mão na produção de vinho da quinta. “Estávamos cansados do que fazíamos, não estávamos felizes nos trabalhos”, nota. Era a altura ideal para criarem o seu próprio emprego.

Foi Diogo quem desenhou todo o projeto. As obras arrancaram no início de 2016 e em seis meses estava tudo quase pronto, embora ainda longe da versão que hoje se conhece.

“Fomos cautelosos”, sublinha Marcela, que recorda que “ninguém sabia se ia ser um sucesso”. “Isto significa que todos os anos aproveitamos para acrescentar mais alguma coisa, fazer melhorias”. Aos sete quartos originais acrescentaram-se outros dois em 2018, mais luxuosos, destacados da casa principal e em formato villa, com direito à sua piscina privada.

A quinta tem sete quartos e duas villas.

No dia da inauguração, ninguém sabia o que poderia acontecer. A incerteza, porém, não durou muito tempo. Depois de dois meses à espera das fotografias perfeitas — com o hotel já pronto — encomendadas a um fotógrafo de arquitetura, as reservas começaram a cair assim que entraram na Booking. Nem sequer houve tempo para lançar o site oficial.

“O primeiro ano foi uma surpresa muito grande. Na primeira temporada, de julho até outubro, tivemos uma ocupação de praticamente 100 por cento. Não estávamos nada à espera”, recorda dos tempos de trabalho árduo. Nessa altura, Diogo e Marcela tinham apenas a ajuda de três funcionários. Hoje, quatro anos depois, são 14.

Os anos seguintes não foram diferentes. A Quinta de S. Bernardo funciona apenas entre abril e outubro, altura em que abrem as reservas para a temporada do ano seguinte. Rapidamente chegam a altas taxas de ocupação, quase sempre com reservas feitas de forma direta e não através de plataformas.

“Acho que as pessoas gostam muito e recomendam, passam a palavra. Talvez por isso também tenhamos quase sempre 90 por cento de hóspedes estrangeiros e desses, quase todos são americanos e canadianos”, justifica Marcela. Este ano o cenário é outro.

A villa com piscina privada.

Com a maioria das reservas canceladas — em fevereiro tinham já o ano praticamente reservado — e um bloqueio no Atlântico que impedia a chegada dos hóspedes do costume, instalou-se o receio e a dúvida: estariam os portugueses com vontade de passar por lá? A resposta foi conclusiva.

“Tem sido uma surpresa agradável. Não estamos muito habituados a clientes portugueses, não sabíamos se viriam e hoje 90 por cento dos clientes são portugueses”, revela.

O luxo das pequenas coisas

Não mentimos quando dizemos que o comboio passa literalmente a um par de metros da casa. A peculiaridade, dizem, “faz parte do charme” da Quinta de S. Bernardo. “Nunca ninguém reclamou por causa do barulho”, esclarece Marcela, que revela que há muitas famílias com crianças que pedem especificamente o quarto com vista para a linha, tudo para fazer a vontade aos miúdos que adoram ver o comboio passar.

Já longe dos primeiros tempos de azáfama, Diogo e Marcela dedicam-se agora ao contacto com os hóspedes. Dizem que “a parte humana é a mais importante do negócio” e que é imprescindível para combinar “o ambiente familiar com um serviço de hotel de cinco estrelas”. “Fazemos serviço de concierge, marcamos passeios, vamos além do que faz o alojamento comum”, conclui.

Diogo e Marcela fizeram nascer o projeto em 2016.

A distância do centro turístico do Douro vinhateiro obrigou o casal a criar um conceito à prova de bala: o objetivo passava por garantir que os hóspedes não tinham que sair por motivo algum. Até porque mesmo na cidade mais próxima, Mesão Frio, não há muito para fazer ou, por exemplo, para comer. Foi precisamente por isso que muito do esforço se centrou no restaurante, algo que quiseram implementar desde o primeiro momento.

Desenharam o pequeno-almoço, um serviço de snacks ao longo do dia para assegurar o almoço e finalmente um menu fixo ao jantar, que este ano tem mais novidades. Tiago Moutinho, o chef consultor, mudou-se de vez para a quinta, onde garante “uma cozinha mais trabalhada”.

Todos os dias há um prato único para os hóspedes, embora garantam que há abertura para algumas alterações por motivos de dietas ou alergias. A refeição tem direito a couvert, um amuse bouche, entrada, prato principal e sobremesa. Custa 40€, mais 20€ se optar pela harmonização com os vinhos de produção própria.

A sala de provas.

Entre cada um dos momentos de refeição, a mesma filosofia: cozinha tradicional portuguesa, da quinta para a mesa. Todos os produtos usados são apanhados no jardim. Quando não é possível, dá-se preferência aos fornecedores e produtores locais.

A pandemia obrigou a alterar rotinas, sobretudo no buffet de pequeno-almoço. A mudança até pode ter sido positiva: no dia anterior, os hóspedes escolhem o querem comer na manhã seguinte através de uma carta deixada no quarto; depois basta acordar, sentar-se à mesa e deixar que o sirvam, sejam as compotas caseiras ou os sumos frescos de fruta do pomar.

O resto do dia está por sua conta. Pode relaxar no bar exterior, dar um mergulho na piscina infinita com vista sobre o rio, fazer uma partida de bilhar na sala de jogos, andar de canoa ou fazer stand-up paddle. E, por fim, os vinhos: na sala de prova há sempre duas sessões diárias onde é possível experimentar as criações da Quinta de S. Bernardo, apresentadas pelo enólgo, com preços que variam entre os 30€ e os 60€.

Banhos, boa comida e bebida, desporto, paz e sossego. Tudo o que uma escapadinha precisa de ter num ano excecional de pandemia — e numa altura em que ter tudo à mão tem um valor incalculável. Bem, neste caso até tem: o preço de passar uma noite na Quinta de São Bernardo começa nos 220€ e pode ir até aos 450€.

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