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O “barco-hotel” Mulubinba Sea House é o refúgio perfeito para nos isolarmos do mundo

A NiT passou duas noites no incrível hotel flutuante, atracado na Ria Formosa — e foi a experiência de uma vida.
Um paraíso em Olhão.

As minhas primeiras memórias são de aprender a nadar e de fazer caças ao tesouro preparadas pelo meu pai na Barragem de Santa Clara, onde passei todos os verões de infância. Normalmente, os tesouros eram escondidos no domingo de Páscoa, altura em que também viajávamos para aquele pequeno paraíso perdido num vale do Alentejo, onde o vento corria da barragem e lembrava-nos o mar.

Tenho uma certa vergonha de confessar, mas tenho 30 anos e este foi o primeiro ano da minha vida em que não houve caça ao tesouro em abril. E não foi porque finalmente me emancipei e saí de casa dos meus pais em fevereiro, foi só e apenas por causa da pandemia do novo coronavírus.

Foi também a pandemia que atrasou uma estadia que estava marcada há vários meses. Finalmente, no dia 19 de junho desci até Olhão para uma escapadinha no “barco-hotel” Mulubinba Sea House.

Já passava das 20 horas, e o Ivo e o Tiago esperavam por nós na Marina de Olhão. O hotel flutuante está atracado na Ria Formosa. Para lá chegar é preciso ir noutra embarcação. A travessia compreende um banco de areia que só é visível à luz do dia. Em contrarrelógio corremos para a partida.

O Ivo recebe-nos no portão daquele que é o dormitório de tantas embarcações — e de algumas pessoas. O Tiago está dentro do pequeno barco a motor, a acenar com o braço engessado. Partimos ao pôr do sol, precisamente onde começa o paraíso.

Atravessamos a ria na minha altura favorita do dia. Os últimos raios de sol, já sem força, incidem nas embarcações com que nos vamos cruzando e que estão atracadas. A areia torna-se cor de laranja e os tons quentes contrastam com a água que me vai salpicando a cara e os óculos de sol.

A maré está baixa. Em 15 minutos chegamos àquela que será a nossa casa nos próximos dois dias. Com uma simpatia difícil de descrever, os dois amigos revelam os segredos da embarcação de pesca Grand Banks. Há um gerador para ligar quando quisermos cozinhar ou beber café, e que carrega as baterias para dar energia aos candeeiros, há muita arrumação escondida, uma WC peculiar, dois padels, e um pequeno barco pneumático com motor elétrico, com uma autonomia de uma hora.

O sol teima em desaparecer, e os dois precisam de regressar a terra. O Tiago entrega-nos duas boinas de marinheiro, a mim e ao meu namorado, e um pequeno frasco de vidro, com um pergaminho no seu interior. “Preparámos uma caça ao tesouro”, dizem. Depois vão embora.

Se a minha criança interior, que como já perceberam está bem presente, se encontrava maravilhada com a hipótese de dormir dentro de uma embarcação totalmente renovada, mas mantendo todos os seus traços característicos de 1972, altura em que foi fabricada nos EUA, imaginem quando disseram as palavras mágicas “caça ao tesouro”.

Desvendámos as várias pistas, espalhadas pelo interior e exterior, e encontrámos o tesouro. Não eram chocolates ou brinquedos, como na minha infância, mas era tudo aquilo que mais queríamos naquele momento. Uma garrafa de vinho rosé, queijos e outros produtos típicos da região.

No dia seguinte, fomos despertados pelo sol. A suite tem cortinas brancas curtas que nada fazem para impedir a luz natural. A vida de marinheiro impõe que nos levantemos cedo, por isso, às 9 horas, subimos a escada do quarto para o convés e mergulhamos através da estreita plataforma que está na popa.

A água é salgada, exatamente como eu queria que fosse. Em frente à nossa embarcação está uma ilha onde estão várias pessoas de cabeça para baixo a apanhar berbigão, conquilhas e mexilhões. Pegamos no pequeno barco elétrico e vamos apanhar o nosso almoço.

O dia passa, ao sabor da ondulação que me deixa maldisposta nas primeiras horas. Ao final do dia já estou habituada e pronta para abrir a garrafa de rosé e comer um petisco ao pôr do sol. Subimos ao pequeno deck, ao lado do mastro, e a vista tira-me o fôlego, numa imagem que se juntará às memórias da barragem e dos momentos mais felizes da minha vida.

“Estejam prontos às 8h15”, diz-me o Ivo por mensagem escrita. A surpresa, no dia seguinte, consegue ser ainda melhor. Somos levados até uma praia deserta, onde nos espera uma tenda tipi, almofadas, plantas, uma manta sobre a areia e uma mesa com o pequeno-almoço mais bonito que já vi.

Tiramos uma fotografia e somos deixados a sós no ambiente mais romântico que poderia imaginar. “Este era um bom cenário para pedidos de casamento”, digo ao Luís, como quem não quer a coisa.

A mesa tem fruta fresca, sumos naturais, croissants, scones de noz, panquecas com chocolate, iogurtes com granola, doce de figo de piteira, queijo e carnes frias. O suficiente para nos fazer almoçar a horas bem tardias.

Porém, a minha criança interior ainda teria mais uma surpresa. Quando nos vão buscar para levar de volta ao Mulubinba, os dois amigos apontam para um pequeno balde no chão do barco a motor.

“Apanhámos conquilhas para vocês”. É agora que eu não quero voltar para Lisboa. Quando era miúda nunca gostei de comer praticamente nada, mas havia duas coisas com as quais delirava: figos e conquilhas, que comia depois de um dia passado na Meia Praia, em Lagos, onde também passei parte de todos os verões de infância.

Despedimo-nos do Mulubinba com o petisco que não comia há vários anos, com a pele bronzeada e a saber a sal. Sem pandemia, sem trânsito e sem nada para pensar, a não ser de que sítio mergulhar. Afinal, o tesouro, era a própria estadia.

Aproveite para conhecer um pouco melhor como começou este projeto de Ivo Santos e Tiago Relógio, no artigo que a NiT publicou em agosto do ano passado, aquando da abertura. Os preços vão desde os 180€ aos 300€ por noite, consoante o número de dias e as épocas do ano.

Entretanto, carregue na galeria e descubra como é o Mulubinba Sea House e o tal pequeno-almoço numa ilha deserta, com os respetivos preços. Ah, e para o caso de estarem a pensar nisso: o Luís não me pediu em casamento.

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