Na cidade

TikTok, a app que veio da China para contagiar o mundo a cantar

Em dois meses ganhou mais de meio milhão de fãs em Portugal. O sucesso do confinamento é viciante — e levanta outros problemas.
É absolutamente viciante.

Os vídeos com a marca de água já circulavam há muito pelo WhatsApp, mas só ao fim de algumas semanas de confinamento é que cedi à curiosidade do TikTok. Um download rápido e damos por nós num feed frenético. Um vídeo atrás do outro, pouco tempo para respirar. Quando olhei para o relógio, cinco minutos transformaram-se em meia-hora agarrado à app. Não fui o único.

Os longos dias de confinamento forçado foi o motor de um crescimento implacável da rede social no País. São já mais de 1,7 milhões de utilizadores. Nos últimos dois meses, só em Portugal o TikTok conquistou meio milhão de novos seguidores, revela à “Sábado” Inês Guedes, country manager da Azerion, a empresa representante da app.

Em pouco mais de trinta minutos, passou um pouco de tudo pelo feed. Um homem a atirar uma fatia de queijo para a cara de um bebé ao som de uma batida rudimentar. Mulheres nuas que surpreendem os namorados enquanto filmam a reação. Cantorias sem fim, danças em trajes menores, anedotas, apanhados e adolescentes e adultos em figuras que espalham doses impróprias de vergonha alheia.

@whitneylouise4

##copthat ##cheese ##slap ##baby ##funny ##stunned ##comedy ##houmour

♬ Follow pepperonijoe – pepperonijoe

Chamam-lhe rede social, mas o TikTok é antes uma autêntica fábrica de memes. Foi desenhada para isso: vídeos curtos, facilmente editáveis, aos quais se podem acrescentar efeitos e uma enorme coleção de sons e músicas. Tudo isto é facilmente replicável por qualquer utilizador, basta carregar num botão, gravar e partilhar.

Lançada na sua forma final em agosto de 2018, já ultrapassou a barreira dos 1,5 mil milhões de downloads e tornou-se num fenómeno global. Frequentemente associada a adolescentes e jovens adultos, a verdade é que começa a expandir-se por outras faixas etárias. Cerca de 20 por cento dos utilizadores têm mais de 24 anos.

Hoje, a empresa mãe do TikTok, a Bytedance, está avaliada em valores entre os 75 e os 90 mil milhões de euros. Uma história de sucesso que começou a ser construída antes de ser batizada com este nome. 

Uma app pandémica

Descontinuado em 2017, após quatro anos na ribalta, o Vine foi um dos pioneiros no formato de consumo rápido de vídeos curtos, sem ambições informativas ou promocionais. Os conteúdos eram divertidos, simples e potencialmente virais. A app norte-americana acabou por ser extinta em 2017, o que levou a que muitos dos seus fãs migrassem para o TikTok, um adequado sucessor com o mesmo estilo.

Viajando até 2014, os miúdos não queriam outra coisa que não o Musical.ly, uma app que permitia gravar vídeos com temas em playback. Com mais de 200 milhões de utilizadores em 2017, tornou-se num sucesso sem paralelo.

Dentro das muralhas chinesas e longe dos olhares do ocidente, uma empresa chamada ByteDance lançou, em 2016, uma aplicação de vídeos curtos chamada Douyin. Ao fim de um ano, os 100 milhões de utilizadores deixavam antever uma expansão. Da Tailândia ao Japão, conquistou o mercado asiático e lançou-se numa operação para a história. Em 2018, fundiu-se com o Musical.ly num negócio de mil milhões de euros — e nasceu um monstro.

Em 2019, a TikTok tornou-se na sétima app mais descarregada da década, depois de dois anos consecutivos no topo da lista da App Store. Uma conquista inédita, sobretudo para uma aplicação chinesa que acaba por invadir o mercado norte-americano.

Uma máquina de hits

A música é um dos segredos pouco escondidos da viralidade dos memes à moda do TikTok, de tal forma que a rede social começa a alargar a sua influência à indústria da música. Que o diga Drake, o rapper canadiano que planeou toda uma estratégia de lançamento em torno da app.

No início do ano, contactou a dançarina e coerógrafa Toosie, e pediu-lhe que criasse uma coreografia feita especialmente para um excerto de um novo tema, revela a “Rolling Stone”. A dança ficou conhecida como a Toosie Slide e foi partilhada no TikTok ao som do single de Drake. Em poucos dias, juntou milhões de visualizações e como seria de esperar, muitos carregaram no botão para replicar a dança em casa — e voltar a partilhá-la com a hashtag correta. 

Estava criado o buzz necessário para um lançamento de sucesso. Assim que é finalmente editado, muito do trabalho de antecipação já está feito. Segundo a revista norte-americana, muitas editoras estão já a investir neste tipo de estratégia publicitária.

@rosaliej_

3 way tootsie @thelifeoflibs @chelle_hayden2 ##fyp ##foryourpage ##tootsieslde ##tootsieslidechallenge

♬ original sound – rosaliej_

Em 2019, a RCA Records depararam-se com um pico de um tema de Lykke Li lançado em 2018. Porque é que estava muito mais gente a ouvir “Sex Money Feelings Die”? A resposta estava no TikTok. O tema tinha sido adaptado e usado em diversos vídeos que depois se espalharam pela rede social, aumentando a curiosidade pela origem da canção.

Batidas fortes, baixos surpreendentes e letras com frases simples e provocatórias. Esta é a fórmula que alguns autores estão a tentar aperfeiçoar, de tal forma que a estratégia das editoras está a inverter-se: em vez de partir do estúdio para as redes sociais, o processo criativo anda ao contrário; rouba-se no TikTok para criar temas potencialmente virais.

Rappers como Tyga estão a pedir emprestados todos estes pequenos excertos repetitivos para aumentar a probabilidade de que os temas sejam usados vezes e vezes sem conta. No melhor dos cenários, a música dá origem a um meme e o trabalho está feito.

Esta versatilidade significa também que temas antigos e obscuros podem ser lançados para o estrelato — e fazer renascer carreiras moribundas. Foi o caso do hit de sucesso “Break My Stride”, de Matthew Wilder, que ganhou um novo reconhecimento 40 anos depois da composição. Segundo a “CNN”, o tema já deu origem a mais de 800 mil vídeos, com a hashtag #breakmystride a ser vista mais de 100 milhões de vezes. 

Desenhada para viciar

A simplicidade de processos não explica tudo, mas explica muito do sucesso. O simples toque de botão que permite criar uma réplica do vídeo giro que acabamos de ver é aliciante e vulgariza o talento para a criação de conteúdos originais — e também ajuda a dar origem a autênticos fracassos, espetáculos de vergonha alheia que são outro dos hits inexplicáveis do TikTok.

A outra arma está no ecrã inicial, o feed de descoberta que é desenhado especialmente para cada utilizador, assente em inteligência artificial que regista tudo o que fazemos. A interação permite-lhe criar um algoritmo premonitório que tenta adivinhar aquilo que queremos realmente ver.

Ao contrário de outras redes sociais, aqui não há espaço para discussões políticas, notícias ou polémicas. Tudo é intemporal, de consumo rápido. Aliado a uma máquina com um apurado sentido para farejar o que nos vai no íntimo, há quem diga que se trata de uma espécie de “cocaína digital”.

“Quando andamos pelo feed, vemos uma foto ou algo que é encantador e desperta a nossa atenção. Isso dá-nos um pico de dopamina no cérebro, no centro do prazer, e isso faz com que queiramos continuar”, explica à “Forbes” Julie Albright, especialista e autora de livros sobre temas digitais.

@morganrmoroney

Another handstand video…. jks. Bestie & I trying to dance 😂 how did we do?!?! @tanyaamitchell ##firsttimer ##foryou ##bestfriends

♬ Get Up (feat Chamillionaire) – Ciara

“Chamam-lhe o reforço aleatório. Significa que às vezes ganhamos, às vezes perdemos. Estas plataformas são desenhadas como uma slot machine e sabemos que elas são viciantes”, conclui.

A forma agressiva como o TikTok tem angariado tantos milhões de fãs também é alvo de críticas. Em declarações à “The New Yorker”, um antigo funcionário da empresa descreveu como é que funcionava a publicidade agressiva nas outras plataformas. 

“No Instagram, corríamos anúncios com imagens clickbait — uma ferida aberta, uma imagem sensual de uma jovem adolescente — e pouco importava que os utilizadores denunciassem a imagem, desde que ela tivesse muita interação antes de isso acontecer”, confessou.

Predadores, assédio e censura

O público maioritariamente jovem e menor de idade garantiu um sucesso viral à rede social, mas também diversos problemas de segurança e moderação, com o aparecimento de predadores.
Em 2018, a “Vice” expunha uma comunidade de utilizadores que solicitavam imagens explícitas a adolescentes. Um comportamento que os responsáveis prometeram punir e eliminar, com a introdução de diversas medidas e da ação de uma equipa de moderadores. 

Quase um ano depois, o problema mantinha-se. De acordo com o “BuzzFeed News”, as jovens que partilhavam vídeos eram recorrentemente assediadas por homens mais velhos, que lhes enviavam mensagem explícitas. Vários relatos de vítimas, utilizadoras da app, explicaram que é a própria forma como a rede está construída que potencia este assédio.

“Se um tipo estiver sempre a colocar like em vídeos de miúdas mais novas, outros vídeos semelhantes vão estar sempre a surgir na sua página ‘For You’”, revelou uma das utilizadoras, citada pelo site norte-americano. 

Os temas quentes e polémicos que envolvem o TikTok não se ficam por aqui. Mais recentemente, relatos de uma política interna discriminatória surgiram na imprensa. Segundo documentos internos divulgados pelo “The Intercept”, os moderadores da rede social foram instruídos para omitir vídeos de utilizadores “feios, pobres ou deficientes”.

O objetivo, explicam, era o de fazer uma curadoria para melhor transmitir um espírito inspiracional ao feed que é apresentado aos restantes utilizadores. Uma prova de que o feed baseado num algoritmo criado pela inteligência artificial é também modificado de forma intencional.

O documento recomendava a omissão de vídeos cujos utilizadores tenham “uma forma corporal anormal (não limitada ao nanismo, obesidade), que sejam “gordinhos, obesos ou demasiado magros”, ou que tenham “uma cara feia ou deformidades faciais”. “Se a aparência não for boa, o vídeo será muito menos atrativo e não valerá a pena recomendá-lo aos novos utilizadores”, pode ler-se.

Os desafios do TikTok não fazem sí vítimas no mundo digital. Fora dele, há registo de diversos incidentes de ferimentos e até de mortes. Foi até criado um site que faz este registo: há até ao momento 52 vítimas mortais relacionadas com vídeos da rede social.

Da China, sem privacidade

Um dos ataques mais ferozes à aplicação chinesa partiu de Steve Huffman, co-fundador e CEO do Reddit, que a apelidou de “fundamentalmente parasítica”. “[A app] está sempre a ouvir, a tecnologia de impressões digitais que usa é verdadeiramente assustadora, não consigo instalar uma aplicação dessas no telemóvel”.

A tecnolgia, usada por muitos serviços, regista uma combinação de áudio e de registo de utilização, que permite perceber tudo o que cada utilizador faz enquanto usa o TikTok. Uma tecnologia que a ByteDance diz servir essencialmente para identificar comportamento malicioso — e não para espiar.

A origem chinesa da rede social que invadiu milhões de telemóveis de pessoas de todos os países levantou questões de privacidade. À boleia da polémica do 5G que envolveu Huawei, os Estados Unidos foram um dos países que apontaram o dedo às práticas menos transparentes de Pequim e das suas empresas.

No final de 2019, entrou num tribunal da Califórnia um processo contra a TikTok e a ByteDance, que acusa de roubar informação pessoal dos utilizadores de forma ilegal, que depois enviará para a China, onde as bases de dados ficam à mercê do governo de Xi Jinping. Uma das preocupações é que estes dados sirvam para identificar, categorizar e localizar utilizadores norte-americanos. 

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

NiTfm

AGENDA NiT