Saúde

Tudo o que precisa de saber sobre a app que promete controlar a pandemia

A NiT falou com um dos criadores da app que vai mudar a nossa vida e que chega aos telemóveis já no final de junho.
A Stayaway Covid chega em junho

“Quando existir uma app, vou descarregá-la para o meu telemóvel”, sublinhou o primeiro-ministro na sexta-feira, 29 de maio, relativamente ao lançamento da app que irá rastrear a doença entre a população portuguesa. A pequena nota na longa conferência de imprensa antecipou a terceira fase do plano de desconfinamento, que vai aproximando a sociedade portuguesa do novo normal: um mundo pós-pandemia onde retomamos a nossa vida com uma dose de cuidados extra.

Ultrapassada a primeira vaga de Covid-19, a estratégia de combate à doença passa por um controlo rigoroso de novos focos da doença, identificando-os e isolando-os antes que possam dar origem a surtos descontrolados. A proposta dos especialistas passa pelo fim do rastreio manual — usado na primeira fase da pandemia para contactar potenciais infetados — e a implementação de um sistema automatizado.

Primeiro na Ásia, depois na Europa, estas aplicações têm sido vendidas com ferramentas indispensáveis para retomar à normalidade possível e reabrir, com a segurança possível, a economia. Por cá, os primeiros indícios de uma app do género surgiram no final de abril. Estava já em desenvolvimento uma solução nacional coordenada pelo Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC).

A aplicação móvel de rastreio à Covid-19 deverá ser implementada em Portugal até ao final de junho. À NiT, o responsável pelo desenvolvimento técnico da app, garante que a nova versão entrou agora na sua fase de testes, que irá ser “alargada a um projeto-piloto com recurso a dezenas de telemóveis”.

A app de rastreio portuguesa vai ficar disponível até ao final de junho

O lançamento da Stayaway Covid está também pendente da resolução de uma incógnita, isto é, a forma como a aplicação irá “ser integrada com os serviços de saúde”, no sentido de “validar os avisos feitos através da app”. “É algo que poderá afetar a data de lançamento, mas estamos a apontar ter tudo funcional e publicado até ao final do mês”, esclarece José Orlando Pereira, investigador do INESC TEC e professor na Universidade do Minho.

Segundo dados de um estudo feito pela Pitagórica e divulgado esta terça-feira, 2 de junho, pelo “Jornal de Notícias”, 61 por cento dos portugueses concordam com António Costa e declaram-se a favor do uso de uma app deste género.

A existência de uma aplicação que cria um registo dos nosso encontros pode parecer pouco recomendável, embora quem a desenvolve garanta que a privacidade está garantida. Essa tem sido, aliás, a grande preocupação de governos e potenciais utilizadores — e, por sua vez, o tema que mais debates provocou entre especialistas que estão a desenvolver a ferramenta.

Afinal, como é que tudo isto funciona? A privacidade está mesmo garantida? A tecnologia é fiável? A vida da bateria dos nosso aparelhos vai sofrer? Das dúvidas mais prementes às mais banais, a NiT tentou responder a todas elas com a ajuda do responsável pela Stayaway Covid.

Como é a app protege os dados privados

A solução portuguesa vai optar por um modelo descentralizado, no qual todos os dados ficam retidos nos próprios telemóveis e, portanto, fora do controlo de terceiros. Outra questão importante: nenhum dos dados recolhidos permite identificar o dono do aparelho ou a sua localização. Tudo o que a app faz é gerar um código aleatório.

Imaginemos que o meu telemóvel vai gerando chaves do Euromilhões e as vai difundido para os telemóveis mais próximos. Tratam-se de números aleatórios que não têm qualquer identificação sobre mim. Se alguém estiver ao meu lado durante 15 minutos, ambos os aparelhos registaram essas chaves únicas”, explica o investigador.

O momento-chave em todo este processo é o do cruzamento destes mesmos códigos, que vai permitir saber quem esteve próximo do infetado. A aplicação “nunca difunde informação para o exterior”, exceto numa única ocasião: no momento em que há um diagnóstico positivo para a Covid-19 e se o doente manifestar a vontade de avisar, através da app, as pessoas com quem esteve em contacto nas duas últimas semanas. Neste momento, ocorre outra fase de controlo e segurança, a da intervenção dos profissionais de saúde.

Quem dá o alerta?

O poder de divulgar ou não a informação estará sempre do lado do utilizador, embora este dependa também de um profissional de saúde. “[Em caso de teste positivo] o médico dá um pin de ativação que permite ao utilizador publicar a informação [dos seus encontros]. O pin é igual ao que usamos para aceder ao banco, é gerado no momento pelo médico, através de um sistema próprio”.

Será nesse momento que as tais “chaves do Euromilhões”, completamente anónimas — “não contêm números de telefone, dados de localização, identificação de cartão SIM ou endereço IP” —, são publicadas num site central que recolhe as chaves dos infetados.

É nesse local que todas as outras aplicações vão procurar diariamente o cruzamento de encontros: sem enviarem qualquer informação, comparam as chaves dos infetados com as suas. Caso encontrem um par, isso significa que, a certa altura das últimas duas semanas, o dono do aparelho esteve a menos de dois metros durante pelo menos 15 minutos do aparelho de um infetado.

Os dados anónimos de alguém que nunca seja infetado também nunca serão partilhados

“É dessa forma que os telemóveis conseguem, individualmente e sem dar informação, fazer o encontro entre chaves”, explica José Orlando Pereira, que sublinha ainda que “a app de alguém que nunca venha a ser infetado, nunca difundirá informação para o exterior”.

“O objetivo [da Staway Covid] é o ‘privacy by design’, ou seja, não vamos tentar arranjar uma fechadura para a porta. O que vamos é ter a certeza de que não há lá nada para roubar”, conclui.

O papel da Apple e da Google

O envolvimento das duas gigantes da tecnologia provocou algumas preocupações, embora ambas tenham sublinhado que não iriam desenvolver as apps — essa tarefa ficaria a cargo de equipas escolhidas pelos governos. Ainda assim, a sua ajuda é preciosa.

“Dividiram-se as responsabilidades em dois: [a Apple e a Google] ficam com o que tem que ser feito a nível do sistema operativo e nós decidimos o que fazer aos dados. Esta divisão aumenta o nível de confiança”, isto porque ao não interferirem no desenvolvimento, garante-se que “a informação não fica com eles”, mas que é apenas e só “passada à aplicação”.

Como funciona a tecnologia Bluetooth

A criação destas aplicações móveis seria impossível sem a intervenção da Google e Apple, que desenvolveram os sistemas Android e iOS, presentes na grande maioria dos smartphones. E o uso da tecnologia Bluetooth não poderia, aqui, ser feito da forma tradicional, até porque poderia “servir para localizar a pessoa”.

A Stayaway Covid utiliza um tipo diferente de Bluetooth de baixa energia, o BLE, “usado normalmente para comunicar entre smartphones e smartwatches”, uma tecnologia que “gasta muito menos energia, mas também faz muito menos coisas”.

Isto permite duas coisas: manter a aplicação a funcionar e a enviar chaves por Bluetooth, mesmo que a funcionalidade seja desativada pelo utilizador; e tornar a comunicação mais segura e menos dispendiosa, não afetando o consumo de bateria.

A app portuguesa está na fase de testes

Usar a app vai diminuir a vida da bateria?

A utilização deste Bluetooth de baixa energia faz com que tudo aconteça de forma discreta e quase invisível nos bastidores do smartphone. “Como [a app] usa o Bluetooth dessa forma minimalista, limita-se a disseminar os números.”

De acordo com os testes feitos pela equipa do INESC TEC, o uso da Stayaway Covid poderá representar um consumo até 5 por cento da bateria num dia de utilização.

“Estes são números de testes feitos antes do lançamento do suporte da Google e da Apple. Com a sua ajuda, esperamos que sejam atingidos apenas um a dois por cento de utilização, que corresponde a fazer mais uma ou menos uma chamada num dia”, conclui.

A tecnologia é fiável? Consegue mesmo detetar uma proximidade de dois metros?

“Nós não vamos ter a certeza absoluta de que estivemos à distância de dois metros de outro telemóvel. O que vamos é conseguir medir uma elevada probabilidade de isso ter acontecido”, explica, acrescentando que “é reconhecido que a utilização do Bluetooth para geolocalização é algo relativamente falível”.

Segundo o investigador, o sinal é afetado por vários fatores: pode ser simplesmente a capa de telemóvel que interfere, ou o facto de estar guardado no bolso ou numa carteira. “É uma medida imprecisa e portanto teremos que ter uma abordagem probabilística”, esclarece.

Isto significa que não havendo certezas, os critérios serão afinados para que os encontros registados sejam os de maior probabilidade de contacto e infeção.

“Nós não vamos ter a certeza absoluta de que estivemos à distância de dois metros de outro telemóvel”, revela o investigador

“Vamos tentar perceber quando é que temos uma certeza razoável de que os dois telemóveis estiveram próximos, a menos de dois metros e por pelo menos 15 minutos, que são os parâmetros dados pelos epidemiologistas. A app é, aliás, feita em colaboração com o Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP) para orientar essas questões”.

Esse jogo de probabilidades acompanha toda a estratégia da aplicação. “A app não me vai dizer que estou infetado. Diz que existe uma probabilidade de ter contactado com alguém que se revelou infetado.”

Quanto a estas incertezas, José Orlando Pereira sublinha que a probabilidade poderá ser afinada nos testes feitos no terreno. “Se um contacto foi feito há dois ou três dias, se calhar dar-lhe-emos mais importância do que um contacto que aconteceu há 14 dias, porque se já passou todo esse tempo, muito provavelmente já teria revelado sintomas de outra forma.”

Existem casos relatados de falsos alarmes. Pessoas que estiveram próximas mas separadas, por exemplo, por uma parede. Isso pode acontecer?

“Estamos convencidos de que grande parte dos sinais serão falsos positivos”, revela à NiT. “É precisamente por causa desses casos que a aplicação faz os avisos da forma que faz. Não diz que devemos procurar um médico, mas sim que há possibilidade de termos estado em contacto [com um infetado]”, esclarece.

A alta probabilidade de existência de falsos positivos — casos de contactos que foram sinalizados, mas que não poderiam ou não resultaram em contágio — é atribuída a uma “razão virtuosa”, isto porque os investigadores partem do princípio de que “continuaremos a usar máscaras e viseiras”. Estas medidas adicionais garantem que, apesar dos contactos próximos, o potencial de transmissão é reduzido ao mínimo.

A aplicação é eficaz para combater a pandemia?

Um dos principais problemas da implementação deste tipo de aplicações de rastreio prende-se com a falta de eficácia. Em Singapura, por exemplo, a aplicação de rastreio foi considerada um falhanço, quando ao fim de algumas semanas, apenas 20 por cento da população a tinha descarregado e usava ativamente.

Estudos indicam que para uma eficácia plena, é necessária uma taxa de utilização de 60 por cento da população, dados que o investigador revela que “não têm sido lidos da melhor forma”.

“A exigência de 60 por cento é bastante otimista. Naquelas condições restritas consideradas pelo estudo, o uso da app por pelo menos 60 por cento da população seria, por si só, suficiente para resolver o problema de uma taxa de contágio igual ou acima de 2,5, que tínhamos em Portugal no início de abril”, nota o investigador.

“A app é só mais um fator que contribui para a resolução do problema”

Essa taxa de penetração é apenas o ponto em que o rastreio via aplicação móvel, sem outras medidas adicionais, seria capaz de dominar o surto: “O estudo também diz que a app é eficaz, mesmo quando utilizada por uma percentagem menos. A app, deste ponto de vista, é só mais um fator que contribui para a resolução do problema”.

Perante medidas restritivas e economicamente debilitantes, José Orlando Pereira acredita que o uso desta tecnologia “que não provoca danos” e que é “economicamente barata de desenvolver” é uma ótima alternativa. “Não resolverá o problema, mas dará uma boa contribuição”.

Mais privacidade pode significar menos eficácia. Poderá a app ser o ponto de partida para medidas mais intrusivas?

Voltando ao caso de Singapura, o falhanço e o surgimento de novos surtos obrigaram ao recurso a medidas menos anónimas para aumentar a eficácia. A funcionar desde maio, a nova app SafeEntry pede o registo de localização aos utilizadores, que em muitos casos é obrigatória para poderem aceder a recintos fechados.

Neste equilíbrio delicado de forças entre privacidade e capacidade de combate à doença, o investigador sublinha o caráter voluntário e privado da Stayaway Covid como algo que dificilmente poderá ser alterado.

“Esta app, no nosso contexto, pretende ser de utilização estritamente voluntária. Aquilo que temos vindo a receber do ponto de vista do governo é que há vontade de a manter pouco intrusiva. Neste momento, não antevejo que uma transição [para medidas mais intrusivas] vá acontecer”.

“Apostamos em maximizar a penetração da app explicando que ela é inócua do ponto de vista das liberdades individuais, da privacidade e até da utilização da bateria. Queremos passar essa mensagem e esperar que a utilização feita permita, não resolver o problema, mas dar um contributo. Já seria bom.”

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