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Saúde

Ângelo Rodrigues: é realmente perigoso injetar testosterona no corpo?

O ator português está em coma induzido e a causa terá sido provocada por esta hormona. A NiT falou com os especialistas sobre o tema.
O risco que Ângelo Rodrigues está a correr.

Seja para melhorar a performance desportiva ou por motivos estéticos, não interessa. Em circunstância alguma pense em injetar testosterona sem estar a par de todos os possíveis problemas que esta hormona pode causar na sua saúde. Irritabilidade, retenção de líquidos, paranoia e subida da pressão arterial são apenas algumas das consequências. E estas são as mais leves.

Entre as mais graves, estão, por exemplo, a subida do risco de acidente vascular cerebral (AVC) e de paragem cardíaca, as infeções e a falência de órgãos — como o fígado e os rins. Internado desde o dia 26 de agosto na unidade de cuidados intensivos do Hospital Garcia de Orta, Ângelo Rodrigues, de 31 anos, terá tido uma infeção provocada por uma injeção de esteróides. Desde então, o ator já foi submetido a três cirurgias para controlar a evolução desta situação. Neste momento, está em coma induzido por precaução.

O esteróide tem sido indicado de forma ilegal como uma solução mágica para aumentar a massa muscular, ter a barriga lisa, melhorar o desempenho desportivo e até a libido. O problema é que o seu uso indiscriminado — sobretudo por questões estéticas — pode causar danos irreparáveis à saúde.

Em poucos dias, a utilização de substâncias anabolizantes — como a testosterona — pode provocar arritmia, subida da pressão arterial, variações de humor, delírios, borbulhas pelo corpo, crescimento dos pelos (nas mulheres) e queda de cabelo (nos homens), por exemplo.

A médio prazo, é verdade, que os seus utilizadores ganham massa muscular e perdem massa gorda, mas em contrapartida ocorre a aceleração do processo de arteriosclerose no corpo, aumentam os níveis de colesterol, alteram-se as características sexuais (no caso das mulheres, o clitóris aumenta de volume e no dos homens, ocorre a diminuição dos testículos e o desenvolvimento mamário) e podem ocorrer paragens cardíacas.

“O uso prolongado de testosterona ou produtos análogos causa alterações complexas a nível metabólico no organismo. Há a possibilidade de desenvolver cirrose, tumores no fígado, de próstata, acelerar o envelhecimento coronário e vascular do usuário e ainda aumenta o risco de AVC e enfarte do miocárdio“, conta à NiT André Casado, especialista em medicina interna e intensiva.

De acordo com o médico, como acontece com qualquer outra hormona produzida pelo nosso corpo, a testosterona só é indicada para os casos em que a sua produção é ineficaz ou como cuidados paleativos para pacientes com tumores avançados e que apresentam perda de massa muscular. Este esteróide traz alguns benefícios, mas tem demasiados riscos associados. Além disso,  as doses injetadas são normalmente muito baixas e os pacientes devem ter sempre um acompanhamento médico rigoroso.

“A maioria destes produtos comprados sem prescrição médica é ilegal. São produzidos em laboratórios ilegais no estrangeiro e em condições de higiene que não são controladas por agências reguladoras como a Infarmed em Portugal. Como a qualidade não é controlada por ninguém e a administração do anabolizante ainda é feita pela própria pessoa, sem esterilização adequada, aumenta o risco de infeção no local da injeção”, explica o médico André Casado. Poderá ter sido isso que aconteceu com o ator Ângelo Rodrigues.

Em vez de melhorar o desempenho desportivo, quem intensificar o treino com a ajuda da hormona, corre o risco de sofrer lesões nos tendões, porque eles não acompanham o crescimento dos músculos. É natural que os tecidos rompam nos locais mais fracos, quando há uma sobrecarga.

“Aqui em Portugal, há muita gente que toma anabolizantes na sombra. Já trabalhei num ginásio em que 60 por cento dos alunos eram consumidores de testosterona ou queriam ser. Miúdos entre os 20 e os 24 anos perguntavam-se o que precisavam de fazer para ficarem grandes. Eu digo-lhes sempre que o uso destes produtos sem acompanhamento, sem fazerem análises e sem darem um tempo para o organismo recuperar é muito arriscado”, conta à NiT o PT Tiago Silva.

Para o médico André Casado, o que aconteceu com Ângelo Rodrigues é um alerta para a população sobre o uso indiscriminado de hormonas anabolizantes, mas não deve mudar o pensamento dos consumidores habituais.

“As pessoas começam com doses bem pequenas e, quando começam a ver os efeitos de ganho de massa muscular e perda de gordura, passam a querer sempre mais. Quando param de administrar a hormona, perdem o corpo que conquistaram. Além disso, quando usam um substituto artificial da testosterona por muito tempo, o próprio organismo regula para baixo a sua produção. Ao decidir parar de injetar a testosterona no corpo, ficam com falta de energia, fadiga e há perda de massa muscular”, conta o médico.